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Amigos de Lula como os de César.

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Os amigos de Caio Júlio César, o grande tribuno de Roma, souberam enganá-lo entre sorrisos e lisonjas.

Iguais aos de Lula, quando eventuais candidatos às suas benesses; as nomeações para o Supremo Tribunal Federal, por exemplo.

Bem diferente da mulher de César, que deveria ser honestas e parecer assim, os seus amigos precisavam apenas ser-lhe próximos, serviçais talvez, convivas parceiros de brinde e mesa, por lhe ensejarem fidelidade e confiança sem jaças.

Tudo o que enleva um bom Príncipe; aquele que se imagina assaz amado e jamais temido.

César nunca leria Maquiavel. Antecedeu-lhe muitos séculos, cerca de 1600 anos. Lula, talvez, por rasas leituras.

Desprezaram a máxima maquiavélica, que o governante nunca deve, jamais, ser odiado, mas deve preferir ser temido a ser amado.

Eis uma fronteira difícil de permear, afinal há uma outra lição mais difícil de aprender, a ponto de se invocar apelos protetivos ao divino, com figas, benzeduras e amuletos; “Que Deus me livre dos amigos! Dos inimigos cuido eu!”

Vejo Lula, condenado sem provas, aguardando a punhalada sicária dos amigos.

Nunca tantos lhe sorriram quanto.

Nunca afiaram melhor os seus cutelos. Todos bons cidadãos como os matadores de César. Todos preocupados com sua honra própria nunca tisnada.

Os amigos de Lula estão iguais a Casca e Cássio, Trebônio e Cina, todos bons cidadãos romanos, e melhores cidadãos tornados, por eleitos e escolhidos, enquanto amigos de César.

Antes destes, em novo entorno, César fora apenas um tribuno eloquente encantador, mas delinquente. Um vitorioso general comandante, um conquistador destemido, por valente.

Alguém que cruzara o arroio Rubicão, ousando apenas “ver, vir e vencer”.

E depois foi recebido em parada, “urbi et orbe” engalanados, sem pensar na própria mortalidade, fugacidade frágil enquanto ser, com oponentes e rivais escapando-lhe em disparada.

Não foi assim com Lula, cruzando reveses sucessivos e se vitoriando, enquanto “molusco de nove-dedos” e “apedeuta”, apelidos que o desprezavam, mas revelavam e continuam, excessiva admiração praguejada por inveja?

Cesar não foi morto por adversários. Estes o temiam, sobremodo.

Foi cercado e apunhalado por admiradores e invejosos em meio a “semblantes alegres”, imitando “comediantes, com vivo espírito e formal constância”, como conselho de seu filho Marco Bruto na peça Shakespeariana.

Aquele mesmo filho a quem o pai dir-lhe-á sofrendo a derradeira punhalada: “Até tu, Bruto, meu filho!?”

Mas, se a interrogação não pode preceder o ponto definitivo da exclamação de Cesar, o poeta Shakespeare, enquanto trágico, adorna Bruto, no drama seu herói.

Para ele e muitos outros, entre os assassinos de Cesar, só Marco Bruto, seu filho, fora o único que não agira por inveja.

Neste sentido, vale à pena rever a peroração final de Marco Antônio em palavras terminais da tragédia: “Foi o mais nobre dos romanos. Todos os mais conspiradores, tirante ele, o feito realizaram por inveja de Cesar. Bruto, apenas, foi levado por uma ideia honesta e o bem de todos a ligar-se aos demais. Era de vida tranquila, e os elementos vieram a se unir, que a natureza podia levantar-se e ao mundo inteiro proclamar: ‘Eis aqui, de fato, um homem!’”

Igual agora a tantos amigos de Lula que o apunhalam; estes sim :“verdadeiros homens”.

Juízes verdadeiros, condenando-o sem provas, levados por um convencimento honesto por indiscutível “domínio do fato”, só para o bem discutível de todos.

E com isto ligando-se aos demais, estão ex-amigos leais, que bem lhe afiam os punhais.

Há, todavia, uma diferença ou muitas: César teve amigos a vingar-lhe o sangue e a honra, e por isso restou deus e herói.

Pelo andar da carreta, nesta terra de muitos deuses e ralos heróis, ninguém ousará derramar sangue, suor ou lágrimas por um personagem enxovalhado e terminal.

E eu, que nunca lhe fui amigo, companheiro,  aderente ou seguidor (diga-se alto e bom som, por verdadeiro!), contemplo de longe e próximo estes seus amigos fugindo do crime e do braseiro, banindo o ex-presidente aos quintos dos infernos de todas as chagas.

Querem que Lula se escafeda do noticiário ligeiro. Que apodreça na prisão por ousar, ser ousadia.

Querem encarcera-lo como poltrão, urgente e silente, sem direito a repouso de museu, nem como um sonho perdido, de uma noite de verão.

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