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“Bobby Kennedy para Presidente”.

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Há um seriado notável no Netflix: “Bobby Kennedy for President”.

Vale a pena assisti-lo, mesmo porque estamos vivendo no Brasil semelhantes tempos de radicalismos exacerbados. Faltando-nos, por hora, apenas um cadáver.

Recomendo assistir o seriado porque é um resgate pouco conhecido de tempos tenebrosos da grande democracia americana.

O presidente John F Kennedy, todos sabemos, foi assassinado à vista do mundo inteiro, ao vivo e em cores, em pleno desfile em carro aberto na cidade Dallas, no Texas, a 22 de novembro de 1963.

O assassinato abalou o noticiário mundial. O jovem presidente destacava-se como um vitorioso campeão nas lutas contra o apartheid social.

Neste contexto, seriam assassinados depois o líder do Nacionalismo Negro, Malcolm X, em 21 de fevereiro de 1965, o pastor e pacifista Martim Luther King, em 4 de abril de 1968 e Robert Francis Kennedy, em 6 de junho de 1968, figura tema do seriado.

O ano de 1968 foi pleno de turbulências políticas mundo afora.

A geração “baby boomer”, ou “baby boom”, os nascidos após a explosão das bombas nucleares no Japão, exercitavam sua insatisfação com o mundo vigente, em meio aos conflitos ideológicos da guerra fria.

Sou um dos resistentes desta geração pós bomba.

Vivi esse tempo, revoltando-me muitas vezes, como tantos da minha geração, sem, contudo, perder meu Norte, comum, preciso e continuado.

Nunca perdi o rumo, persistindo no equilíbrio tantas vezes denunciado por “alienação”, como se dizia então, mas que a história revelaria a seu tempo, que melhor se fizera necessário por moderação de conduta.

Hoje, cinquenta anos passados, 1968 se marca como um ano cujo balanço evidencia tantos descaminhos e sofrimentos, desafios a exaustão de comissões de verdade, que não conseguem batear heróis, alguns “morridos na overdose”, e tantos em esclerose criativa a resistir no parasitismo, dessa ideia.

Nada como o tempo para desmitificar os ídolos. Até os Deuses têm os seus crepúsculos. Os ido de 1968 estão a desnudá-los miúdos, em tanto parasitismo e mediocridade.

Onde estão aqueles “sarbonnard”, que pichavam as ruas do quartier latin com palavras ainda resistentes nas fotografias degradadas: Será que é verdade; “É proibido proibir”!?

Ou algo, bem pior, atribuído como peroração sartreana, no palanque, sem desgravação sacana: “eu tenho algo a dizer, mas não sei o que é!”  Algo que nem agora conseguimos balbuciar, nem após cinquenta anos de mero prosseguir?!

Ou ainda: “Corre, camarada, o velho mundo está atrás de ti”.  “O sonho é realidade!”; “Não me libertem, eu encarrego-me disso!”; “As reservas impostas ao prazer excitam o prazer de viver sem reservas!”;

Que dizer da notável frase esgoelada mundo afora, em plena guerra do Vietnam: “Faça amor, não guerra!”

Ou aquela gritada ao estertor: “Les hommes sont egaux!” Os homens são iguais!!! Ou ainda: “Sejamos realistas, exijamos o impossível!”.

Quando em verdade tudo só começara porque fora proibido o encontro de moças e rapazes nos alojamentos escolares, em Nanterre, na Sorbonne, em Paris, só para impedir o livre permutar de fluidos e desejos, sentimentos ternos, em rama variada de cepa viral ou microbiana, isso num tempo em que não existia AIDS, DST, nem as denúncias de abuso sexual, eminentemente atuais, concernentes aos escândalos sexuais do “#mettoo” ou “#balancetonporc”.

À parte isso, nos Estados Unidos vivia-se um período conflituoso de guerra política em que a miséria do povo pobre, sobretudo dos negros, reclamava uma ação do Estado para dirimir os desníveis sociais.

Nesse contexto o seriado se paga, porque nunca um político americano reformista estivera tão próximo da Casa Branca, em pregação fraterna e igualitária, como Robert Kennedy.

E ao dize-lo assim, recomendo o seriado, porque foi surpresa para mim conhecer o pensamento de Bobby Kennedy e entender a razão do seu assassinato, que restou esquecido afinal, ninguém realmente queria um homem como aquele à frente da nação americana.

Compreende-se porque dois Kennedy foram mortos, e outros como Luther King e Malcolm X, em assassinatos jamais esclarecidos, algo que restou, ou pareceu assim, recobertos em cinzas por esquecimento necessário.

Igual aqueles idos de 1968, vejo neste 2018 a alma nacional imersa em semelhante ódio.

Se em 68 estavam os Kenedy no centro da discórdia, aqui o pomo da aversão é o Ex-presidente Lula que cumpre prisão por um crime sem provas.

Mas, igual torcida fanática de fla-flu, eis uma minoria atingida por grave raiva canina, 15%, 20% do exíguo pensamento pátrio, a querer morder, estraçalhar o operário que ousou se transformar no melhor presidente desta nação.

Homem que se agiganta e se engrandece na cadeia, vitima de tantos algozes a lhe conferirem abusos sem culpa fundamentada e precisa.

Assim, não bastou prendê-lo, nem a condenação ao arrepio do povo, distante dele, isolando-o num cordão sanitário que denigre juízes e cortes, em excedente covardia.

Ei-lo retido e execrado já há trinta dias. Nada foi suficiente para apagar o ódio dos que o atacam, covardemente sobremodo no anonimato da internet, e daqueles que lhe assacam todo crime não encontrado.

Em verdade, Lula padece do mesmo ódio que abateu Bobby Kennedy.

A diferença é que por aqui não há atentado bem-sucedido.

Digam neste contexto os destrambelhados de Gregório Fortunado, que mirando no pé de Carlos Lacerda acertou o peito generoso e corajoso de Getúlio Vargas.

Aqui, atira-se muito mal. Com ou sem mira telescópica!

A pontaria só é precisa nos casos escabrosos de vingança, crimes comuns de assepsia entre bandidos, ou casos como o da vereadora Marielli; perícia de milícia; estas coisas de estado sem lei, ou fora da lei.

Aqui sob o amparo da Lei ou fora dela, sempre se pode alterá-la. Servir-se dela para o comum golpear das instituições, quando nem as eleições se fazem respeitadas.

Aqui, não basta vencer o pleito. É sempre possível desvirtuá-lo depois.

Somos o país das cartas marcadas, das atas fraudadas, das pedaladas justificantes para os golpes necessários, afim de que o povo seja reformado a macete.

Assim, na impossibilidade de se permutar o povo, que lhe sejam espoliados quaisquer opções ou preferências. E Lula é apenas a bola gorda da vez.

O importante não é a fidelidade do eleitor de Lula, tida como incompreensível; lastimável!

Como conciliar tudo isso com a vontade popular, se é lastimada assim, por prévia imposição de desapreço ao livre pensar divergente?

Aviltar modos e maneiras para solapar sua vontade e liderança?

Do seriado de Robert Kennedy vê-se que ainda hoje o seu pensamento exaspera um vasto segmento radical da sociedade americana.

Com Lula não é diferente. E por isso tem que ser eliminado, esponjado do processo político.

Lula como Bobby Kennedy é um grande incômodo, uma pedra a ser removida do caminho.

Como no país, não é comum o simples martírio. Poucos ousando fuzilar na incerteza da inculpação garantida, o mais comum é o país enveredar por descaminhos institucionais.

Nesse particular, nossa história é farta em soluções institucionais a promover cancelamento e/ou adiamentos de eleições.

Que o digam 1930, com eleições desrespeitadas, 1937, com golpes de Estado Novo, 1961, 1964, 1965, etc, etc, impeachments convenientes, o Congresso e o Judiciário, calafetando furos, em conjuros providenciais e necessários.

De novo apenas ao desamparo do Sol, só há o povo jungido e amordaçado como fera perigosa a ser imobilizada e contida.

Não será surpresa para mim, que muitos arautos da pacificação nacional, na impossibilidade de conter Lula no calabouço em que foi inserido sem culpa, ouse calar-lhe a voz e seu rouco reverbério além cárcere, repelindo forjas e corjas, tantas pronúncias trevosas em quantas denúncias tortuosas, e queiram por necessário cansaço, mandar às favas o próprio judiciário e sua grei, seu vasto bestiário, por não mais ser necessário, e suficiente, afinal no desmando e ao arrepio da lei, sempre se pode adiar as eleições, mais uma vez.

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