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Dois Editoriais do Le Figaro

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Ilustro meu espaço com dois editoriais do jornal francês Le Figaro de autoria do jornalista Étienne de Montety sobre recente atentado em que foi morto um tenente-coronel da gendarmerie parisiense.

O primeiro deles, datado de segunda-feira, 26 de março de 2018.

A face do heroísmo.

Na sexta-feira, 23 de março, o tenente-coronel Beltrame caía sob as balas de Radouane Lakdim. Depois dos soldados assassinados por Mohamed Merah, até o policial Xavier Jugelé morto nas Champs-Élysées, as forças da ordem pagam um pesado tributo no combate aos partidários do terrorismo islâmico: eles são os alvos privilegiados.

Primeira página de Le Figaro de 26 de março de 2018

Um ponto, entretanto, diferencia Arnaud Beltrame das outras vítimas. Foi voluntariamente que este oficial da gendarmeria se colocou de frente ao assassino, para se substituir por uma mulher tomada como refém. Um gesto magnífico, que se acreditava reservado aos tempos antigos: ele evoca aquele de Maximilien Kolbe, aquele padre polonês que estando preso em Auschwitz tomou o lugar de um deportado, condenado à morte pelos nazistas.

Pascal dizia só querer acreditar “ nas histórias em que as testemunhas se deixassem abater”. De que história o tenente-coronel Beltrame quis testemunhar? Uma civilização repousando por séculos sobre o frágil equilíbrio entre liberdade e segurança. Uma sociedade em que é permitido a homens e mulheres irem às compras, correrem sem risco de caírem sob as balas de um fanático.

Seus conhecidos próximos confidenciaram que o oficial era um cristão. Sexta-feira como disse o Padre Hamel, ele quis ser digno de Cristo, de sua Paixão e de sua admirável mensagem – a mais poderosa, a mais revolucionária, qual seja: “Não há maior amor que dar a vida por aquele que se ama”. O soldado se fez servidor.

Que lição para uma época que se mostra voluntariamente individualista, em que as relações humanas parecem ser norteadas sob o signo do interesse simplesmente contratual. Em que tantas estrelas efêmeras pedem uma tremenda retribuição em tanta glória superficial.

Como preservado dos sinais do tempo, Arnaud Beltrame quis ir até o fim em sua missão, e desdenhou sua vida, aceitou se oferecer por outro; por seu país; por cada um de nós. A uma empresa de ódio, covarde e desesperada, ele opôs a visão serena e resoluta do heroísmo.

O segundo editorial foi apresentado na edição de quinta-feira, 29 de março, relatando as exéquias do Tenente-coronel Arnaud Beltrame.

Oração fúnebre para um valente.

O frontão do Panthéon, de onde partiu o comboio transportando os despojos mortais do coronel Beltrame, bastaria para dar toda significação à homenagem prestada ontem ao oficial da gendarmeria assassinado sexta-feira: “Aos grandes homens a pátria reconhecida”.

No pátio dos Invalides, onde repousam os restos mortais de Napoleão Bonaparte e de dezenas de heróis franceses caídos em várias missões, o Presidente Macron saúda o mais recente tombado em defesa da ordem e da liberdade.

Para saudar o gesto cavalheiresco de Arnaud Beltrame explicar o que decorre e o que significa, entre outras palavras, aquelas do Presidente da República ressoaram no pátio dos Invalides.

Convocando figuras memoriais de nossa história, Emmanuel Macron inscreveu de fato uma longa coorte de heróis nacionais, Joana d’Arc, Kieffer, Brosso-lette… Nesse instante os lugares silenciosos e fixos na solenidade foram como que visitados pelo espírito dos grandes soldados que ali repousam. Eles acolhiam um dos seus.

Mas o Presidente não se contentou em pronunciar a magnífica oração fúnebre por um valente. Tomando emprestado o famoso ritmo ternário do General de Gaulle para saudar que "um povo atingido em sua  história, ao se fazer paciente na luta, confiante estava no triunfo final do direito e da justiça". Ele quis assim sinalizar uma direção.

Renan definia a nação como um feliz amálgama entre o passado rico de uma ‘herança de glória “ e o futuro com “um programa a realizar”. De herança de glória, nós recebemos nossa parte, há alguns dias, com o testemunho de coragem e abnegação que nos foi dado. O programa é imenso. Ele é político, social, jurídico, para combater  “as organizações terroristas, os exércitos de Darcy, os imãs do ódio e da morte”. É também moral. Emmanuel Macron desenhou os contornos desta missão, exortando a juventude da França a virar as costas aos “descaminhos fanáticos”, mas também ao “relativismo morno” conclamando o seu melhor: o serviço, o dom de si, o socorro prestado após demais.

O sino dos mortos silenciou. A cada um cabe agora tomar o seu lugar nessa promessa de sociedade mais justa, mais segura e mais fraterna, tomando como linha de horizonte o exemplo admirável, para sempre, do Coronel Beltrame.

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