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O adeus a Nelson Pereira dos Santos

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Em uma palestra no Memorial da América Latina, logo depois de uma longa homenagem a seus filmes que eram restaurados e lançados em DVD, vi Nelson Pereira falar um tanto sobre sua biografia. Existem biografias, como a da Helena Salém, mas nada melhor que ouvi-lo diretamente. Ele dizia que audiovisual é “tudo”. É teatro, é performance, é vídeo, é aquilo que se estabelece como comunicação através da imagem e do som. Porém, o cinema, não… cinema não é tudo…

Cinema, para Nelson, um autor que foi colocado numa espécie de panteão dos sagrados diretores mundiais – na classificação do terceiro-mundista, obviamente – , era uma linguagem própria de uma época. Era, melhor dizendo, algo como a literatura. Teve sua história curta, mas constituiu uma época. Por isso ele acreditava numa espécie de narração cinematográfica estabelecida através da montagem. E por isso ele achava, também, como Glauber Rocha, que o Cinema Novo seria a continuidade da linha evolutiva das escolas literárias brasileiras. Com mais certeza, diríamos que ele entrou na academia brasileira de letras em seu fim de vida por esse fator. Cinema é, também, e principalmente, uma continuação da literatura.

Nelson Pereira também inventou, praticamente, o Cinema Novo.

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E começou já fazendo essa relação entre o teatro nacional popular e a literatura. Depois da consequente relação com o neo-realismo italiano em seus primeiros filmes, trouxe logo Nelson Rodrigues e Graciliano Ramos para as telas. Foi com Vidas Secas (1963) que Nelson ganharia o mundo, aliás. Foi a família de Fabiano, a seca, o nordeste, uma situação brasileira que o colocou como um intelectual importante da geração que pensava em mudanças profundas nas estruturas que privilegiam a desigualdade social no país.

Mas foi antes disso que Rio 40 graus (1955) seria censurado, e incentivado uma mobilização dos intelectuais no Brasil. Antes também, que Nelson se associaria a Glauber na montagem e na política de envio de seus filmes para festivais na Europa e no Leste europeu. Foi Nelson quem, de todos os cineastas jovens – aos quais ele se referia e era referido como uma espécie de mentor – , esteve tanto próximo da Vera Cruz como das chanchadas da Atlântida. Foi ele quem, de todos, sempre se colocou à esquerda, junto ao que se chamava de comunismo, no Brasil.

O diretor teve suas fases estéticas, mas também suas incursões políticas. Sempre esteve ao lado de federações cineclubistas. Disputou severamente sindicatos e posições importantes nos segmentos, ainda que nunca se colocando como um quadro dentro das estruturas. Sua luta era, como a de todo o Cinema Novo, por uma liberdade criativa e um desenvolvimento dessas “forças produtivas” que alimentam a cultura popular. Em certos termos, é possível dizer também que Nelson Pereira dos Santos foi um cineasta Latino Americano, tendo influenciado toda uma geração do cinema narrativo aqui no continente.

Ele não entrou no melodrama latino. Pelo contrário, subverteu-o. E, como se vê em seus filme mais conhecidos, as relações de amor são aqueles pretextos para falar sobre o que realmente valeria a pena – a realidade, verité, ou , veritá, do neo-realismo ou do cinema moderno. Só vale a pena, mesmo, falar de questões sociais por aqui, diria o autor.

Fica pra história seu longa metragem Memórias do Cárcere (1984). Dedicado às prisões políticas, que, no calor da hora atual, sempre foram regra nas américas. Na data da abertura política à nova república, e à democracia, Nelson trazia a tortura e a prisão como situações que não relativizariam a anistia mútua. Prisões que, via de regra, dizem “quem manda”, mesmo que no cárcere só se vejam pessoas que não mandam em absolutamente nada.
Nelson morre no dia 21 de abril de 2018, relembrando Tiradentes. Aproveitamos, então, para comemorar seu legado que, em poucas linhas não é possível de ser traduzido.

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