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TELECOMUNICAÇÕES: aspectos da comunicação elétrica

João Fonseca Neto

Email: jfonseca@unitnet.com.br

 

I - Introdução

Telecomunicações = Tele (grego) =distância + communicatio (latim) Þ communis = comum.

Formas primárias de comunicação à distância:

- sonora Þ tambores, apitos etc;

- visual Þ fumaça, luminosos etc.

Antes da invenção do telefone, Alexandre Graham Bell em 1875, a distância alcançada pela voz humana estava limitada pela potência da voz do locutor e pela sensibilidade auditiva do ouvinte.

A pesar dos grandes avanços na tecnologia das telecomunicações os princípios de transmissão a longas distâncias, continuam sendo o mesmo. Converte-se o sinal de voz em sinal elétrico.

A pequena potência de voz do locutor é transformada em energia elétrica no ponto inicial de transmissão. Esta energia pode ser amplificada, digitalizada sendo transmitida até o ponto final por diversas meios: espaço livre ( wireless), linha de transmissão (cabo coaxial, fibra óptica etc), onde é novamente transformada em energia sonora.

II- Fundamentos de Acústica

O som é sensação causada no sistema nervoso pela vibração de delicadas membranas no ouvido, como resultado da vibração de corpos rígidos ou semi-rígidos, tais como diapasão, alto-falante ou uma campainha. O som é uma energia mecânica, necessitando de um meio material para propagar, diferentemente da energia eletromagnética que se propaga no vácuo.

O ar constitui um meio do qual o som pode ser transmitido. Entretanto, outros meios quer sólidos ou líquidos podem servir para sua propagação. Constata-se que um meio com maior densidade, isto é, um sólido propaga o som melhor do que o ar.

A voz humana produz vibração sonora dentro de uma faixa de freqüências de 100 Hz a 10 kHz. Cada som emitido é composto, simultaneamente, de diversas freqüências. As freqüências dos sons vocais são harmônicos de uma certa freqüência fundamental das cordas vocais, razão principal da diferença entre a voz masculina (125 Hz) e a voz feminina (250 Hz).

As principais características da voz humana são:

emissão: vibração das cordas vocais;

faixa de freqüência: 20 Hz a 10 kHz;

faixa de maior energia: 100 Hz a 1500 Hz

faixa de maior inteligibilidade: 1500 Hz a 8000 Hz.

Figura 1 - Curva característica da voz humana no domínio da freqüência.

As freqüências audíveis vão desde 20 Hz a 20kHz, sendo que o limite superior varia de pessoa para pessoa e decresce com a idade. Para que o som possa ser percebido pelos órgãos auditivos tem que haver uma intensidade mínima, que corresponde ao limite inferior de audibilidade, chamado umbral de audibilidade. Este limite varia com a freqüência. O ouvido humano tem uma sensibilidade maior para as freqüências de aproximadamente 3kHz.

As principais características do ouvido humano são:

recepção: vibração do tímpano;

faixa de freqüência: 16 Hz a 20 kHz;

resposta: não-linear (curva psofométrica).

Figura 2 - Curva de resposta do ouvido humana.

III - Sinais Analógicos

Os sinais analógicos apresentam variação contínua no tempo ou espaço e diversos níveis de estado.

Figura 3 - Sinal analógico (senoidal ): a) no domínio do tempo; b) no domínio da freqüência

Matematicamente: f(t) = Vp sen w 0t + f ; f = 0 e w 0 = 2p f0 (rad/s), onde f é a fase do sinal e w 0 é a freqüência fundamental em rad/s, e f0 é a freqüência cíclica em Hz. .

Qualquer função ou sinal periódico, f(t), pode ser decomposto em termos de senos e cossenos. A Série Trigonométrica de Fourier:

f(t) = a o + a1 cos(w 0t) + a2 cos(2w 0t) + a3 cos(3w 0t) +....+ an cos(nw 0t) +...

+ b1 sen(w 0t) + b2 sen(2w 0t)+ b3 sen(3w 0t) +...+ bn sen(nw 0t)

onde a0 é o valor DC ou médio de f(t), w 0 é freqüência fundamental e nw 0 são as componentes harmônicas.

Por exemplo, podemos aproximar uma onda quadrada por sinais senoidais, Figura 4 :

IV - Sinais Digitais

Os sinais digitais apresentam variação abrupta (discreto no tempo) e com no mínimo de dois níveis de estado.

Figura 5 - Sinal digital binário no domínio do tempo.

Figura 6 - Sinal digital binário no domínio da freqüência.

IV - Sistema de Telecomunicações

Restrições gerais num projeto de telecomunicações: tecnológicos e limitações físicas fundamentais.

As limitações fundamentais de transmissão de informação por meios elétricos são a largura de faixa e o ruído.

A largura de faixa está ligada a velocidade de transmissão, pois quanto maior a velocidade de transmissão maior será a largura de faixa necessária. Contudo, deve-se considerar, também, a largura de faixa relativa que é uma banda absoluta dividida pela freqüência central. A modulação de um sinal de banda larga por uma portadora de alta freqüência reduz a largura de faixa relativa, simplificando projeto do equipamento.

Analogamente, dada uma largura de faixa relativa definida pelas condições do equipamento, a largura de faixa absoluta pode ser aumentada quase indefinidamente, elevando-se a freqüência da portadora.

Sendo o ruído inevitável, um fator de qualidade do sistema de telecomunicações é a relação Sinal/Ruído. Porém para sistemas de longo alcance ou baixa potência , o sinal recebido pelo receptor pode ser tão pequeno quanto, ou menor que, o ruído.

Portanto, o projeto de um sistema de comunicação é de certo modo um problema de compromisso entre o tempo de transmissão (velocidade), a potência transmitida, a largura de faixa e a relação sinal - ruído; compromisso ainda mais restrito pelos problemas tecnológicos.

Figura 7 - Sistema de telecomunicações.

Canal de comunicação é o conjunto de recursos técnicos que permite a transmissão da informação somente num sentido. É um caminho elétrico unidirecional. O canal de transmissão mais o canal de recepção formam um circuito de comunicação.

5 - Modos de Transmissão

5.1- Simplex, quando a comunicação é possível em somente um sentido

Figura 8 - Transmissão simplex.

Exemplo: A transmissão do sinal de televisão e rádio.

5.2- Semi-Duplex (Half-Duplex), quando a comunicação é possível em ambos os sentidos, porém não simultaneamente.

Figura 9 - Transmissão semi-duplex.

Exemplo: Transmissão de mensagens escrita pelo telex, algumas transmissões de dados.

5.3- Duplex (Full-Duplex), quando a comunicação é possível, simultaneamente, em ambos os sentidos.

Figura 10 - Transmissão duplex.

Exemplo: Conversação telefônica, algumas transmissões de dados.

6 - Comunicação Analógica e Digital

O que caracteriza a transmissão analógica é que as formas de onda possuem a informação que deve ser reproduzida no destino, ou seja não há o emprego de técnicas de codificação para a mensagem. Sendo uma comunicação susceptível a ruído, distorções e interferências.

A relação sinal/ruído (S/R) é responsável pela inteligibilidade na recepção, determinando a qualidade do sistema de telecomunicação.

A transmissão digital apresenta melhor desempenho frente ao ruído devido ao uso de repetidores regeneradores na transmissão de sinais pulsados permitindo a recuperação de pulsos de formato perfeito, totalmente isento de ruído. Pode, entretanto, ocorrer um erro na interpretação do pulso, mas isto só ocorre eventualmente e é possível no projeto do sistema de telecomunicações, colocando os repetidores regeneradores adequadamente espaçados, reduzir este efeito a limites considerados satisfatórios.

Além disto, mediante o uso adequado de repetidores regeneradores em série, evita-se a acumulação do ruído. De um modo geral, o desempenho global do sistema digital é bem superior ao analógico.

As técnicas digitais permitem grande economia no projeto dos sistemas, pois a eletrônica moderna e as técnicas digitais de integração permitem obter componentes baratos, de baixo consumo e ocupando pouco espaço.

A confiabilidade é superior e a freqüência com que se requer manutenção dos equipamentos digitais é muito menor que aquela dedicada aos equipamentos analógicos.

A técnica de multiplexação digital dos sinais é mais fácil, mais eficiente e mais barata que a multiplexação analógica.

A digitalização dá maior versatilidade e eficiência à manipulação da informação a ser transmitida devido a codificação dos sinais digitais (uma técnica inaplicável no domínio analógico), pois permite uma melhor eficiência do uso dos canais, um combate mais eficaz ao ruído (por método de detecção e correção de erros) e ainda possibilita métodos de criptografia para proteção da informação.

O processamento digital dos sinais apresenta, sobre o analógico, as vantagens de permitir uma maior versatilidade, maior precisão e controlabilidade do desempenho e maior reprodutividade das características na produção em série dos equipamentos.

Os sistemas digitais são protegidos contra interferências, pois são menos susceptíveis a interferências, por outro lado são mais sensíveis ao desvanecimento seletivo.

No domínio digital é possível o conceito de unificação de redes, pois a digitalização e a codificação associados permitem obter sinais digitais de diversas naturezas no mesmo meio de transmissão.

7 - Meios de transmissão

O s meios de maneira geral podem ser classificados em confinados ou meios físicos e não-confinados ou meios rádio. Os meios confinados se caracterizam pelo fato de que a propagação da energia do sinal se dá nos limites físicos do meio, ou seja, o sinal é guiado ao longo de um caminho determinado pelo meio: par trançado, cabo coaxial, fibra óptica etc.

Num meio não-confinado, a energia do sinal transmitido não é guiado ao longo de uma linha, mas, pelo contrário, ela se propaga livremente pelo espaço livre.

7.1 - Meios confinados

O sinal elétrico transportado por uma linha de transmissão fica sob o ataque constante de elementos internos e externos. Dentro da LT os sinais se degradam por causa de diversas características elétricas, inclusive a oposição ao fluxo de elétrons, resistência, e a oposição a mudança de tensão e corrente, reatância: capacitiva ou indutiva.

Externamente, impulsos elétricos de diversas fontes, como relâmpagos, motores elétricos e sistemas de rádio (EMI/RFI - Interferência Eletromagnética / Interferência de Radio-Freqüência) , podem afetar a LT ou cabo.

Para limitar esta degradação do sinal devido aos elementos internos, em geral, aumenta-se a condutibilidade dos condutores e melhora-se a qualidade do tipo de isolamento.

A proteção contra sinais externos indesejáveis é feita de duas maneiras: blindagem e cancelamento. A blindagem é uma técnica de força bruta. Em um cabo blindado, cada par de fios ou grupo de pares de fios é envolto por uma trança ou malha metálica, que funciona como uma barreira para os sinais de interferência. Obviamente a blindagem aumenta o diâmetro e o custo do cabo.

O método de cancelamento é mais elegante do que a blindagem e funciona da seguinte maneira: a passagem de corrente elétrica em um fio condutor cria um pequeno campo eletromagnético circular ao redor dele (regra da mão direita). A direção da corrente no fio determina a direção das linhas de força eletromagnética que o circulam. Se os dois fios estiverem no mesmo circuito elétrico, eles terão correntes elétricas em sentidos opostos, gerando campos eletromagnéticos opostos que se cancelam e anulam, em alguns casos, também os campos externos. Este efeito de cancelamento é melhor aproveitado quando se trançam os fios.

Figura 11 - Cancelamento do campo eletromagnético ao redor de uma linha de transmissão.

7.1.1 - Cabo Coaxial

Consiste em um condutor de cobre central, uma camada de isolamento flexível, uma blindagem com uma malha metálica e uma cobertura externa.

A malha externa do cabo coaxial faz parte, metade, do circuito elétrico, além de funcionar como blindagem para o condutor interno. Portanto, ele deve estabelecer uma sólida conexão elétrica em ambas as extremidades do cabo. Uma conexão com blindagem de má qualidade é a principal fonte de problemas em uma instalação de cabo coaxial.

Figura 12 - Cabo coaxial.

A equação para o cálculo da impedância característica é: Z =log W , onde "e r" é a constante dielétrica do material isolante entre os condutores, "D" é o diâmetro interno do condutor externo (devido a espessura da malha) e "d" é o diâmetro externo do condutor interno ( devido a espessura do condutor interno).

A equação para o cálculo da capacitância é: C = pF/km. A capacitância de uma LT é um parâmetro muito importante, pois a mesma introduz um atraso no sinal transmitido, devido a diminuição da velocidade de transmissão.

 

7.1.2 - Par trançado sem blindagem (UTP - Unshield Twisted Pair)

O cabo UTP é composto por pares de fios, sendo que cada par é isolado do outro e todos estão juntos dentro de uma proteção mecânica externa. Não há uma blindagem física no cabo UTP; ele obtém sua proteção pelo efeito de cancelamento dos pares trançados, sendo que o número de tranças varia de acordo com a necessidade de proteção, principalmente, a diafonia (sinal de um fio induzido no outro devido aos campos eletromagnéticos e a proximidade dos mesmos dentro do cabo) e ao nível de EMI/RFI.

7.1.3- Par trançado blindado (STP - Shield Twisted Pair)

Os cabos STP combinam as técnicas de cancelamento e blindagem. O cabo FTP, lançado pela IBM, apresenta uma blindagem externa aos pares de fios trançados para reduzir a EMI/RFI, cada par tem sua blindagem própria, o que diminui a diafonia. Além disto, cada par é trançado para que os efeitos de cancelamentos sejam aproveitados ao máximo.

No caso dos cabos STP a blindagem não faz parte do circuito elétrico, mas é aterrada nas duas extremidades.

Um cabo STP, por exemplo: STP 150, é capaz de transportar dados em alta velocidade (>100 Mbps) com poucas chances de distorção. Por outro lado, a blindagem causa um aumento na perda do sinal o que aumenta a necessidade de um espaçamento maior entre os pares de fios e a blindagem. O maior volume aumenta consideravelmente o tamanho, o peso e o custo do cabo.

7.1.4 - Cabo de fibra óptica

Figura 13 - Sistema de comunicação óptica.

O mecanismo de propagação do feixe de luz dentro da fibra óptica é regido pelas leis da física; refração e reflexão.

Enquanto os fios de cobre transportam elétrons , a fibra óptica transporta a luz. Dentre as vantagens da fibra óptica estão a imunidade total a diafonia e contra EMI/RFI. A falta de ruídos internos e externos significa que os sinais têm alcance maior e em menor tempo.

A atenuação de uma fibra óptica é determinada exclusivamente pelo comprimento da onda de luz utilizada sem consideração da largura de faixa do sinal transmitido, a atenuação que dependia da freqüência do sinal modulante, nos cabos metálicos, agora deixa de existir.

Como a fibra não transporta eletricidade é o meio mais adequado para conectar prédios com aterramentos diferentes. Além disto, as fibras ópticas não atraem raios e são extremamente finos.

O grande problema, atualmente, em se usar os cabos de fibra óptica são os altos custos provenientes dos dispositivos de interface (optoeletrônicos), as conexões, o conjunto de ferramentas para instalação etc.

As vantagens dos sistemas ópticos sobre os sistemas convencionais são:

  1. grande largura de faixa, maior capacidade de transmissão;
  2. baixa atenuação, menores perdas e maior espaçamento entre repetidoras ( 0.2 dB/km -repetidores a cada 30 km);
  3. ausência de diafonia;
  4. imunidade a ruídos e interferências (EM/RFI);
  5. insensibilidade à descargas atmosféricas;
  6. segurança quando a "grampeamentos";
  7. cabos leves e de diâmetro reduzido;
  8. disponibilidade de matéria-prima.

7.2 - Meios não confinados (Analógicos ou Digitais)

Nos sistemas não confinados, o espaço livre é o meio utilizado para a transmissão de sinais. O que caracteriza tais sistemas é um equipamento de rádio transmissor e um equipamento rádio receptor nos extremos.

O interesse para telecomunicações começa mais fortemente em HF, que foi a faixa de freqüência de rádio em que se iniciaram as comunicações a grande distâncias, atualmente as faixas de freqüências mais elevadas (VHF, UHF, SHF) são mais utilizadas.

Alocação de freqüência de rádio analógico

Faixa de freqüência

Designação técnica

Designação leiga

Exemplo de utilização

300Hz a 3kHz

ELF

(Extremely Low Frequency)

Ondas extremamente longas

Comunicação para

submarino, escavação de

3kHz a 30kHz

VLF

(Very Low Frequency)

Ondas muito longas

Minas etc

30kHz a 300kHz

LF

(Low frequency)

Ondas longas

Auxílio à navegação aérea, serviços marítimos, radio difusão

300kHz a 3MHz

MF

(Medium Frequency)

Ondas médias

local.

(reflexão ionosférica)

3MHz a 30MHz

HF

(High Frequency)

Ondas tropicais

Ondas curtas

Radiodifusão local e distante, serviços marítimos.

(reflexão ionosféica)

30MHz a 300MHz

VHF

(Very High Frequency)

Transmissão de TV, sistemas comerciais de comunicações, comunicação particular e

300MHz a 3GHz

UHF

(Ultra High Frequency)

 

serviços de segurança pública etc

 

3GHz a 30 GHz

 

SHF

(Super High Frequency)

 

Microondas

Comunicação pública a longa distância: sistemas interurbano e internacional em

30GHz a 300GHz

EHF

(Extremely High Frequency)

 

radiovisibilidade, tropodifusão e satélite

 

8- Referências bibliográficas

[1] Lathi B., P., Sistemas de Comunicação. Rio de Janeiro: Guanabara Dois: 1979.

[2] Carlson A., B., Sistemas de Comunicação. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil: 1981.

[3] Derfler, Jr, J., F., Freed L., Tudo sobre cabeamentos de redes. Rio de Janeiro: Campus, 1994.

[4] Alencar M., S., Curso de Telefonia. Apostila, DEE - UFPb, Campina Grande: 1997.

[5] Fonseca J., N., Telecomunicações I. Apostila, COELT - ETFSe, Aracaju: 1997.

[6] DDH. "Básico de Telecomunicações". Apostila, Departamento de Desenvolvimento de Recursos

Humanos, EMBRATEL, 5a ed., Rio de Janeiro: 1995