Carta para o perdão

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Nos últimos dias tenho feito reflexões sobre o perdão e ainda não cheguei a um consenso. Horas penso que perdoar é esquecer. Vez ou outra entendo que perdoar é ignorar a justiça. Confesso que é difícil dar o perdão, por isso procuro não machucar as pessoas para não ficar dependendo de perdão. A Bíblia diz que Deus “esquece” de nossas ofensas, significa que não cobra mais. Isso claro no Pai Nosso: “… perdoai nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos tem ofendido…”. Forte esta frase, mas nós não perdoamos os que nos ofenderam. Fazemos assim um jogo de um time só.

Na semana retrasada durante uma longa e maravilhosa conversa com uma amiga do passado, esta teria me confessado que ainda tinha embargos quanto a minha pessoa, mas estava feliz em romper esta barreira. Conversamos pelo menos umas duas ou três semanas. Falamos sobre relacionamento, filhos, trabalho e amenidades do passado. Como bom observador nas feituras das frases, semanticamente ela sempre se colocava na defensiva. Nos finais de semana bloqueava-me e voltava logo na segunda-feira com sua foto linda que explicitamente o tempo não passara para ela. Apenas salientamos que nascera no ano que começou a Guerra do Vietnã. Senti que o tempo se encarregou pelo perdão, mas como diz a Bíblia: “Deus não esquece”.

Percebi então que deveria diminuir a minha intensidade de diálogos não porque quis, mas sim pelo seu excesso de sinceridade que ela pôs em suas frases curtas, céticas e repleta de emojis. Voltei a pensar no perdão e vi que ele só é completo quando você não cobra por aquela ação. Difícil! Muito difícil! Se perdoar em sua essência seja enfrentar o problema e reconhecer seu impacto negativo, depois decidir deixar todo desejo de retribuição, acredito que ela ainda não me perdoou, mas o tempo a fez “esquecer” o trauma, pois ele é a cura de tudo. Creio que já estamos em um bom caminho e… quem sabe … no futuro breve ou distante podemos quebrar todas as arestas.

Outras amigas queridas – essas eu não magoei – quando nas nossas orações têm uma forma de perdão diferente. Acreditam que perdão é deixar nas mãos de Deus que é perfeitamente justo e não devemos condenar o pecado, mas deixá-los. Deus resolve. Acredito que esta situação seria a mais próxima da realidade, mas com esse pensamento cairíamos na mesmice da minha amiga magoada que deixou a mágoa cicatrizar, vive com ela, mas ainda não conseguiu perdoar. Isso nos mostra o quanto é difícil para nós homens e mulheres alcançarmos a graça do perdão.

O processo mental do perdão já me tirou algumas noites de sono, pois esforço-me contra os ressentimentos, raiva, rancor e sentimentos de ódio e negatividade sobre determinadas pessoas. Meu processo de purificação espiritual inclui o perdão dentre outras coisas, mas continuo no conflito entre as amigas que não magoei e a amiga magoada. É complexo! Sei que Deus só perdoa os pecados que nos arrependemos, logo há limites para o perdão, mesmo se cairmos nos mesmos pecados temos que novamente se arrepender destes. Não somos Deus. Nosso perdão não pode ser medido da seguinte forma: “Eu o perdoou, mas se ele voltar a fazer morre!”. Precisamos repensar as nossas maneiras de perdoar e dar aos nossos adversários o mesmo tipo de perdão de Deus, pois não podemos ser falhos no perdoar. Deus nos abençoe e até a próxima!

FGL

 

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