Povoado Carrilho (SE): cheiro de castanha de caju no ar

Castanha do Carrilho
Assador Rogério Santana inicia o processo da torra da castanha ainda natural

O povoado Carrilho, comunidade localizado no município de Itabaiana, atrai cada vez mais a atenção dos turistas pelo sabor. Castanha de caju doce, salgada, ao natural ou até mesmo cristalizada são produzidas diariamente pelas mãos ágeis dos moradores, apesar de não ter sequer um cajueiro plantado na região. Curioso para conhecer essa história?

Do caju, a castanha Carrilho destaca-se por conta da produção totalmente artesanal. Há mais de 50 anos, o ofício é passado de pai para filho e beneficia economicamente cerca de 90% dos moradores da pequena comunidade localizada no Agreste de Sergipe, que tem na oleaginosa a sua principal fonte de renda. Seu processo artesanal conquistou o público e hoje as castanhas do Carrilho são comercializadas em todo o país e presentada como souvenir em outros países.

  • A história do povoado Carrilho está literalmente associada ao beneficiamento da castanha. A Cooperativa dos Beneficiadores de Castanha (Coobec) fez surgir no povoado um ciclo virtuoso de cooperação sustentável que agrega famílias da comunidade desde o processo à venda a granel, movimenta a economia e o turismo e hoje faz parte dos sabores e saberes da rota turística “Rota da Serra”.
Castanha do Carrilho
Conheci o processo de beneficiamento que tem cheiro de infância

Ao chegar na localidade, o turista passará por uma visita guiada todo o processo, iniciando com a torra da castanha ainda in natura. Em fogo destinado para este fim, o assador Rogério Santana conta que a cooperativa tem beneficiado cerca de 10 sacos de castanho por semana, o que equivale a 500kg de castanha, ou seja, 50kg cada um. “O fogo é natural, sem madeira, e aceso com a própria casca da castanha. Depois de três minutos joga água filtrada para que eu possa tirar as castanhas. A cinza da própria casca é jogada para diminuir o calor, depois levamos para a quebra”, explica.

Conta que um bom assador pode passar até cerca de seis meses para aprender o ofício de torrar a castanha e deixa-la no ponto certo. Também deve aprender a colocar em combustão a casca da castanha sem utilizar madeira.

Castanha do Carrilho
Descascadores retiram uma a uma a castanha da casca já torrada

Depois de assada, na mesa de quebra trabalham cerca de 20 famílias que se revezam e descascam a castanha com um tipo de maquinário e um canivete bem afiado, mas são as mãos hábeis dos “descascadores” que a todo retira a oleaginosa uma a uma da casca. A partir dali o cheiro da castanha do caju parece nascer e brotar tomando conta de todo o ambiente.

A castanha já desprendida da casca é limpa em outra mesa pelos “despeladeiros”, que também separam as inteiras das quebradas.  O processo é completamente manual e artesanal. Depois separadas, a castanha do Carrilho ganha embalagens e pode também receber sabores, como apimentado, salgado e doce.

Castanha do Carrilho
Castanha já retirada passará por limpeza

Mas essa história não foi sempre assim. A comunidade passou por um longo processo até quebrar um ciclo de trabalho infantil, mãos calejadas pelo óleo da castanha e constantes queimaduras, além de horas exaustivas de trabalho sem maquinário apropriado e contato intenso com a fumaça.

Fundada em 2000, somente em 2011 que a cooperativa pode se estruturar ao ser selecionada em um edital de uma empresa de iniciativa privada. Os recursos adquiridos foram suficientes para comprar novas máquinas, equipamentos, adequarem as instalações, adquirirem matéria-prima e reformularem as embalagens. Com o passar dos anos foi identificada à necessidade de melhoria e organização deste processo.

Em maio de 2013 foi criada a Cooperativa dos Beneficiadores de Castanha (Coobec), com o apoio de instituições como: Pronese, BNDS, Programa ReDes e Instituto Votorantim, dentre outros parceiros que se uniram para favorecer as famílias envolvidas nesta atividade, o que também possibilitou adequar as instalações para receber grupos de turistas e estudantes.

Hoje a cooperativa conta com a participação de 35 cooperados com uma produção de duas toneladas ao mês, mas com capacidade de expansão para seis ao mês.

Castanha do Carrilho
Mãos habilidosas de famílias da comunidade

Por conta da cooperativa e outros pequenos beneficiadores, Itabaiana é considerado o maior produtor de castanha assada artesanalmente do país.  A produção de castanha torrada do município vai para a Bahia, Rio de Janeiro, Alagoas, Brasília, São Paulo (Santos, Guarujá) e outras localidades do Sudeste do país. Mesmo assim, o município, nem Sergipe possuem grandes produções da castanha do caju. A castanha chega principalmente da Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte e é beneficiada na cooperativa.

Na Bagagem

Ao final da visita há uma lojinha com preços convidativos abaixo do mercado. A castanha é vendida a granel e em embalagens, algumas para presente como o Kit de três pacotes com os sabores que custa R$ 25. Também na lojinha há licor do Hermenegildo, queijos naturais de Maria Antônia. Endereço: Endereço: Rua Airton José dos Santos – S/N Povoado Carrilho – Itabaiana/SE. Telefone: 79 99847-9247 / 79 99919-3092. E-mail: comercial@castanhasdocarrilho.com.br

A cooperativa faz parte da Rota das Serra de Itabaiana, uma rota turística que abrange as belezas naturais do Parque Nacional da Serra de Itabaiana, o roteiro religioso de Irma Dulce, a visita a uma Casa de Farinha, além do Parque dos Falcões, único local autorizado pelo Ibama no Brasil para recuperação e criação em cativeiro de aves de rapina como: falcões, corujas e gaviões. Agende com antecedência a visita e fale com Percílio dos Pássaros, o proprietário da localidade. Faça seu agendamento através dos telefones: (79) 9962-5457 / 9885-2522 / 9131-3496.

Castanha do Carrilho
Castanha ainda com pele passará por limpeza para ser embalada

É importante observar que todos os Parques Nacionais exigem autorização para entrar. Mesmo assim, no Parque da Serra de Itabaiana ainda não tem muito rigor neste sentido.  É aconselhável solicitar o serviço de um guia florestal ou uma agência especializada em ecoturismo ainda em Aracaju.

Uma boa data para conhecer a Cooperativa e seus encantos é entre os meses de maio e junho, quando acontece em Itabaiana, a festa do padroeiro da cidade, Santo Antônio. O santo é louvado no período de 31 de maio a 13 de junho. Em cada uma das noites de trezena, um segmento profissional da cidade é homenageado, quando é celebrada missa com procissão. No Dia de Santo Antônio, 13 de junho, uma multidão de pessoas ocupa as ruas da cidade, em cortejo, mostrando o espírito religioso da gente da terra.

Castanha do Carrilho
Cooperativa de beneficiamento em dia de festa

Uma outra data para se visitar Itabaiana em dia de festa é no período de 10 a 12 de junho, quando a Terra dos Caminhoneiros comemora a festividade. A Festa dos Caminheiros acontece durante a trezena de Santo Antônio e é conhecida nacionalmente. Concentra caminhoneiros do estado e de outras regiões do país, reunindo também empresas ligadas ao setor, na grande Feira do Caminhão. Itabaiana hoje é considerada a Capital Nacional do Caminhão, sancionada por lei federal da presidente da República à época, Dilma Rousseff.

Castanha do Carrilho
Cristina da Silva, presidente da Cooperativa

Visite também a feira ao ar livre de Itabaiana, considera a maior do gênero do interior de Sergipe. As bancas expostas redesenham um espaço multicolorido e agradável de passear e de se observar. Os gostos, sabores, cores, cheiros e sensações são de transformar um espaço de compras do dia a dia em ponto turístico e de degustação da culinária popular nordestina. Também vale a pena bater perna pelo comércio local.

Como chegar? Partindo da capital, Aracaju, segue-se pela BR 235 até acessar a BR 101. Há poucos metros haverá um entroncamento e faz-se o contorno para a esquerda, retornando para a BR 235. Não tem errada, é só seguir em estrada com bastante curvas, mas em bom estado de conservação. Em frente a churrascaria Pirata’s. Siga até o retorno e entre a direita no sentido povoado Carrilho.

Gastroterapia

Casa de Farinha do Beijo Itabaiana
Fabrico do pé de moleque na Casa do Beiju, em Itabaiana

Muito conhecida pelos itabaianenses, a Casa de Farinha fica localizada na Praça de Eventos, no Centro de Itabaiana, onde há décadas produz comidas típicas do Nordeste, que são vendidas durante todo o ano. Para os turistas que gostam das comidas típicas do São João, o local se torna um ponto de parada obrigatório para adquirir iguarias, já que lá é possível encontrar biscoitos, bolos de diversos sabores, beijus de tapioca e amendoim, além de doces caseiros. O local em plena área urbana detém os saberes das casas de farinha do interior de Sergipe, aberta à visitação. A fabriqueta de forno a lenha mantém os tachos tradicionais, as peneiras de afinar a farinha de mandioca, a prensa transformando saberes em deliciosas guloseimas nordestinas.  A Casa do Beiju faz parte da Rota das Serras, um dos atrativos da Rota das Serras e Rota 235. Vale a pena uma visita.

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Fotos: Silvio Oliveira    Insta: @silviotonomundo

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