“Psicanálise e o Social – A Rosa é Você”, por Yara Belchior*

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A grande descoberta do século XX foi, sem dúvida, a descoberta de Freud sobre o inconsciente. Com esta descoberta ele funda um novo discurso, rompe com os padrões da medicina de saúde mental de sua época e passa a ocupar o lugar de analista. A descoberta freudiana do inconsciente é, portanto, a base fundamental de edificação da psicanálise. Freud nasceu em 6 de maio de 1856 e aos 17 anos iniciou a sua formação médica em Viena. A medicina dessa época era quase que inteiramente assentada em bases biológicas, muito pouco interessadas na psicologia que então era entregue aos filósofos, sendo que a nascente psiquiatria não passava de um ramo da neurologia. Freud rompeu com os padrões de “saúde mental” da medicina de sua época para dar prioridade à escuta, e ao conceber o conflito psíquico como resultante do embate entre as forças instintivas e as repressoras, e os sintomas como sendo a representação simbólica deste conflito inconsciente, inaugura a psicanálise com referências teórico-técnicas próprias, específicas e consistentes. A clínica psicanalítica difere das práticas psicoterápicas, da psiquiatria e da neurologia. Está longe do furor sanandi médico, até mesmo porque a psicanálise não tem nada a ver com a medicina, além do recomendável encaminhamento e cooperação de trabalho entre as ciências e áreas que cuidam do homem. A clínica psicanalítica é um saber em produção e não um discurso universitário. O que a psicanálise trouxe de novo foi o inconsciente, que aparece na clínica através da fala do analisando. O inconsciente manifesta-se no interior do campo da psicanálise. A fala do analisando dá existência efetiva ao inconsciente, que é a própria pessoa. Na clínica psicanalítica de orientação lacaniana o saber em produção é o saber do Outro, é um saber que se faz fazendo, sem que seja dado ao analista o direito de dirigir o analisando. O lugar do analista é o lugar do morto, embora não seja do cadáver. O analista não é aquele que dispõe de uma verdade na mão, mas alguém que está ali para colocar o sujeito em busca da sua verdade, e só através da própria fala o analisando poderá chegar a ela, a um conhecimento de si mesmo, à cura que vem por acréscimo, como resultado das formações do inconsciente, que produz o sintoma. O sintoma para a psicanálise é antes de mais nada um ato involuntário, produzido além de qualquer intencionalidade e de qualquer saber consciente. O sintoma precisa incomodar ao sujeito para que este perceba que ele existe, que se põe no discurso e caminha no sentido de reconhecimento do desejo. É então que ele se dirige ao consultório do analista, mas a porta de entrada do processo de análise não é a mesma que a do consultório. A transferência marca a entrada do sujeito no processo de análise e é condicionada pelo candidato a analisando durante as entrevistas preliminares, as quais, segundo Quinet, apresentam as funções sintomal, diagnóstica, a nível simbólico, e transferencial. Não há entrada em análise sem as entrevistas preliminares que, tendo por base a transferência, liga os parceiros da análise e é condicionada pelo analisando, o qual acredita, no início do processo de análise, que sua verdade, o seu real desejo, sejam conhecidos de antemão pelo psicanalista. Uma vez iniciado o processo de análise, o inconsciente emerge com a fala do analisando. O inconsciente é o próprio psíquico e sua realidade essencial. A própria pessoa. É uma forma, e não um lugar ou uma coisa. É uma lei de articulação e não a coisa ou o lugar onde essa articulação se dá. Essa lei de articulação se dá no psiquismo, que para a psicanálise é abordado de uma forma diferente da praticada na psiquiatria. Freud descreve os processos psíquicos em suas relações dinâmicas, tópicas e econômicas. Uma tópica psíquica não tem nada a ver com a anatomia, que refere-se a locais do aparelho psíquico. Este é como um instrumento, composto de sistemas ou instâncias interdependentes. Freud fez uma ruptura completa com a visão mecanicista do aparelho psíquico. Na primeira tópica freudiana, o modelo topográfico, o aparelho psíquico é dividido em três instâncias – consciente, pré-consciente e inconsciente – obedecendo a leis diferentes e separadas por uma fronteira, que só pode ser ultrapassada em determinadas condições: consciente/pré-consciente, por um lado, inconsciente, por outro. A segunda tópica freudiana(o modelo estrutural), formada pelo ego, id e superego, é um conjunto de elementos que, separadamente, têm funções específicas, porém que são indissociados entre si, interagem permanentemente. Diferente da primeira tópica, que sugere uma passividade, a 2ª Tópica é ativa, dinâmica. A organização psíquica é divida portanto em sistemas ou instâncias psíquicas, com funções específicas para cada uma delas, que estão interligadas entre si, e ocupam um certo ‘lugar’ na mente. Relendo Freud, Lacan concebeu o inconsciente estruturado como uma linguagem, o que não significa que o seja como uma língua. Ele afirma o inconsciente simbólico do homem e, a partir de contribuições retiradas da Lingüística e da Antropologia estruturais, assinala os vários níveis de estruturação do simbólico, assim como a formação do inconsciente pela linguagem. Para Lacan, não há verdade e significação fora do campo da palavra. Ele reconhece a heteronímia da ordem simbólica. A fundamentação lacaniana do inconsciente é um saber que tem a estrutura de uma linguagem. Essa estrutura liga-se aos conceitos de significante/significado, com autonomia do primeiro sobre o segundo. O inconsciente, que mais do que falar determina o nosso destino, sintomático em todos os casos, é efeito de linguagem, cujo tratamento não dispõe de outro meio além do da fala. O inconsciente liga e ata os seres. É uma linguagem que ata os parceiros da análise. Como vimos, ao introduzir o conceito de ato analítico, Lacan retira a psicanálise do âmbito das regras para situá-la na esfera da ética, considerando que é o analista com seu ato que dá existência ao inconsciente, e para que o inconsciente apareça, é necessário, conforme já notabilizamos, que o processo de transferência esteja instalado. Iniciado o processo de análise, o analisando, atribui ao analista um saber sobre ele, mas, só no final do processo, perceberá que o analista é considerado sujeito-suposto-saber porque o saber, na verdade, está nele mesmo, no inconsciente, o próprio sujeito, que manifesta-se pela própria fala, experiência singular do processo analítico. Mas isso ele só entenderá após a travessia da análise, que apontará ao analisando, além da decifração do sintoma que incomoda, que o faz sofrer, a cura, que vem por acréscimo. A psicanálise não visa à busca da felicidade como um bem supremo. É ética, não visa ao bem nem ao mal do analisando, mas permite grandes coisas: além do reconhecimento do próprio desejo, da própria verdade, que surgem com a decifração do sintoma, o entendimento de que a falta é própria dos seres falantes e se apresenta, durante toda a vida, quer entre os espinhos, quer entre as rosas. A rosa é você mesmo, e você merece o melhor: a imagem de uma rosa orvalhada, sem espinhos, para você. Feliz final e excelente começo de semana para todos. Salve, Jorge! * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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