“Psicanálise e o Social – A Transferência”, por Yara Belchior

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A transferência é o processo que envolve o analista na análise de um sujeito. Embora o psicanalista assuma o lugar do morto, não é o lugar do cadáver que ele ocupa, como já explicamos detalhadamente em outros artigos. Ele, o psicanalista “não é uma simples efígie – ninguém pode ser morto “in absentia” ou “in effigie” “, ressalta Pierre Kaufmann no “Dicionário enciclopédico de psicanálise. O legado de Freud e Lacan”, por ele organizado. A transferência está muito ligada aos estudos feitos por Lacan sobre os três registros – real, simbólico e imaginário. Estudos que Lacan para fazê-los tomou por base Freud, insistindo na dimensão simbólica da transferência, que por si só é um tema que geraria muitas páginas, cabendo aqui apenas um brevíssimo resumo. “A transferência é um vínculo afetivo intenso que se instaura de forma automática e atual, entre o paciente e o analista”, ressalta Roland Chemama in “Dicionário de Psicanálise”, onde lembra que foi por ocasião do fracasso do tratamento catártico de Anna O., com J. Breuer, que Freud foi levado a descobrir o fenômeno da transferência, tendo renunciado, então, à hipnose. O fenômeno da transferência é logo notado quando o candidato a analisando se dirige ao analista, a quem pressupõe um saber, em busca de um entendimento para o início do processo de análise: “- Lacan nos ensinou a levar em conta o fato de que, quando um paciente se dirige a um analista, já supõe nele um saber sobre o que busca em si mesmo. ” – O analista é colocado em posição de ser aquele que sabe, chamado por Lacan de o grande Outro, o que nos lembra que não pode existir palavra proferida, nem mesmo pensamento elaborado, sem essa referência a um grande Outro, ao qual nos dirigimos implicitamente e que seria o aval de uma boa ordem das coisas. ” – Resulta disso que só existe a transferência enquanto fenômeno que acompanha o exercício da palavra. Sem o exercício da palavra, não haveria transferência possível”, acredita Chemama. Freud evidenciou dois tipos de transferência: a transferência positiva e a transferência negativa: ” – Foi levado a fazer essa distinção, quando constatou que a transferência poderia se tornar a mais forte resistência oposta ao tratamento e quando se perguntou o porquê. Essa distinção se deve, segundo Freud, à necessidade de tratar diferentemente esses dois tipos de transferência. ” – A transferência positiva se compõe de sentimentos conscientes amigáveis e ternos, e outros, cujos prolongamentos são encontrados no inconsciente e que, constantemente, parecem ter um fundamento erótico. Ao contrário, a transferência negativa se refere à agressividade em relação ao analista, à desconfiança, etc. ” – Para Freud (“A Dinâmica da Transferência”, 1912), “a transferência sobre a pessoa do analista não representa o papel de uma resistência, a não ser quando se tratar de uma transferência negativa, ou então de uma transferência positiva composta de elementos eróticos recalcados. ” – Por outro lado, a transferência positiva, em virtude da confiança do paciente, permite que o paciente fale mais facilmente sobre coisas difíceis de serem abordadas em outro contexto. Contudo, é evidente que toda transferência é constituída, simultaneamente, de elementos positivos e negativos”, conceitua Chemana. A transferência não é um fenômeno exclusivo da situação de análise: ” – Fora da situação da análise, o fenômeno de transferência é constante, onipresente nas relações, sejam elas profissionais, hierárquicas, amorosas, etc. ” – Nesse caso, a diferença com aquilo que ocorre em uma análise está em que os dois parceiros estão presos, cada um por seu lado, a sua própria transferência, da qual, com muita freqüência, não têm consciência; motivo pelo qual não é organizado o lugar de um intérprete, tal como o encarnado pelo analista, na situação de um tratamento analítico. ” – De fato, o analista, por sua análise pessoal, é suposto estar em estado de saber de que são tecidas suas relações pessoais com os outros, de modo a não vir a interferir com aquilo que está do lado de seu paciente. ” – Trata-se, além disso, neste caso, de uma condição sine qua non, que o analista esteja disponível e à escuta de seu paciente. ” – O caráter inevitável e automático da transferência é acompanhado, no paciente, quando da revivência deste ou daquele afeto, por uma cegueira total. O paciente esquece completamente de que a realidade da situação analítica não tem nada a ver com a situação outrora vivenciada, que tinha suscitado esse afeto. É nesse ponto que a intervenção do analista é decisiva, mesmo que às vezes se limite a um silêncio atento, mas que, de uma ou de outra forma, demonstra que o analista compreendeu em que lugar(pai, mãe, etc.) o paciente o coloca. ” – Ademais, o analista sabe que nada mais faz do que se prestar a esse papel. Tal distanciamento mantido pelo analista permite que o paciente analise, a posteriori, essa transferência e, ao mesmo tempo, progrida”, finaliza Chemana. Certo é que, sem a transferência, sem um sinal de “envolvimento” no processo de análise, da disposição de “escutar” por parte do analista, e da disposição de ser “escutado” por parte do futuro analisando, não há análise. É a transferência que marca a entrada do sujeito em análise. No próximo artigo falaremos sobre O Divã. Um excelente dia para todos. * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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