“Psicanálise e o Social – Diferença entre Psicanálise e Práticas Psicoterápicas”, por Yara Belchior

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A psicanálise, nada tem a ver diretamente com a medicina, enquanto a psiquiatria e a neurologia são ramos da medicina que tratam, a primeira, do estudo e tratamento das doenças mentais, e a segunda das doenças do sistema nervoso, a nevrologia. O maior ponto de confusão, entretanto, para uma grande maioria, mostra ser(inclusive na imprensa em geral, nos programas de tv e novelas, atingidores de notável público) a diferença entre a psicanálise e as psicoterapias em geral. Nesta altura, diz David Zimermam, impõe-se a necessidade de que se esclareçam os significados conceituais e objetivos dos termos “psicoterapia” e “psicanálise”. Em 1923, no seu trabalho “Dois Artigos de Enciclopédia: Psicanálise e Teoria da Libido”, Freud define a psicanálise como um procedimento de investigação dos processos mentais, um método de tratamento e uma disciplina científica. Mais tarde, em 1926, no trabalho “Podem os leigos exercer a psicanálise?”, ele complementa a sua definição afirmando que “deve existir uma união entre curar e investigar”. Psicoterapia, por sua vez, prossegue David Zimerman, “é um termo genérico que costuma ser empregado para designar qualquer tratamento realizado com métodos e propósitos psicológicos”. Inicialmente, Freud não fazia uma distinção entre os termos “psicoterapia” e “psicanálise”; empregava-os indiscriminadamente para caracterizar o método de tratamento psicológico que criara, e freqüentemente empregava a expressão terapia psicanalítica, como que estabelecendo uma conexão entre ambos. Posteriormente, no entanto, Freud sentiu-se no dever de discriminar a psicanálise como ciência, e o emprego de outros métodos que continuavam levando em conta os ultrapassados recursos da sugestão direta, como, por exemplo, o da hipnose induzida. A psicoterapia pode designar desde uma situação de simples aconselhamento, uma “orientação diretiva e sugestiva”, uma “ab-reação”, um “reasseguramento”, ou alguma das diversas formas de “psicoterapia de apoio”, assim como também é possível que esteja aludindo a uma “terapia cognitiva” ou “comportamental”, ou ainda “psicodramática”, “transicional”, “sistêmica”(para casal, família), “grupal” etc, prossegue Zimerman. “O termo “psicanálise”, por sua vez, alude unicamente àquela modalidade de tratamento que se restringe aos referenciais e fundamentos da ciência psicanalítica tal como ela foi legada por Freud, isto é, o psicanalista “trabalha essencialmente com a noção dos princípios e leis que regem o inconsciente(…), e a prática clínica conserva uma obediência aos requisitos psicanalíticos básicos”, conceitua Zimerman. O que diferencia a psicanálise das práticas psicoterápicas é que ela normalmente não fornece qualquer chave através da qual o analisando possa se orientar, agindo contrária ao procedimento das psicoterapias, que normalmente, durante as sessões, levam aos pacientes coordenadas de orientação, sínteses, reflexões, explicações e conselhos. No caso da Psicanálise, o Psicanalista normalmente pontua, e deve pontuar, para que não se torne a análise uma perdição de falas, sem fim, sem uma pontuação que possa sugerir, interrogar um caminho de encontro. “Sem dúvida, existem diferentes maneiras de distinguir psicanálise e psicoterapia; e o que as separa é importante para entender o efeito terapêutico de cada uma. É verdade que a psicanálise possui um corpus teórico mas, por princípio, não propõe antecipadamente qualquer chave que possibilitaria ao analisando se orientar. É graças à sua própria fala que este encontrará os meios necessários para progredir”, afirma Gérard Pommier em “O Desenlace de uma Análise”, completando: “ – A psicanálise propõe um avesso da psicoterapia, porque não necessita da credulidade. Não propõe ao paciente nenhum significante-mestre da cura, senão os que o analisando descobrirá por si mesmo. O psicanalista os ignora e os percebe no mesmo instante que seu analisando. “ – Entretanto, esta descoberta é particular. Se se tratasse apenas de descobrir os significantes-chaves de uma história ou de se rememorar os episódios traumáticos, a psicanálise não se distanciaria claramente da sugestão”, completa Pommier. Na clínica de orientação lacaniana, voltamos a ressaltar, embora haja situações que comportem, mereçam, precisem de uma flexibilização desse procedimento inaugural, o lugar do analista é o lugar do morto(não do cadáver). O analista, geralmente não fica de frente para o analisando – este fica no divã e o analista sentado ao fundo, sem que um veja o outro. As psicoterapias, em geral, estabelecem uma relação dual em que dois sujeitos estão frente a frente, diferente da psicanálise, em que o analista, ao ocupar o lugar do morto, que não é o do cadáver, entrega ao analisando, através da sua fala, da fala do analisando, o meio pelo qual ele, o analisando, encontrará a cura dos seus sintomas, sem que contudo isso fique antecipadamente estabelecido. Os significantes da cura serão percebidos pelo analisando de modo pessoal, por ele mesmo, cabendo ao analista apenas intervenções em forma de pontuações, que levarão o analisando às próprias reflexões, implícitas nos tempos de ver, de compreender e de concluir, como poderemos abordar em outro artigo. Retomando, portanto, a articulação que estamos desenvolvendo, a psicanálise não leva a uma certeza teórica, leva a uma interrogação do sujeito. Nela, a verdade do sujeito é o que interessa, e esta verdade ele só encontra no inconsciente, que emerge com a análise. Trazendo o que entendemos sobre o pensamento de J.-D. Nasio a respeito da especificidade da análise, em “As Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan” , temos que o papel particular do psicanalista, de escuta, e a fala particular do analisando, constituem os dois pilares fundamentais da psicanálise, ressaltando-se que a especificidade de uma análise reside no evento de um dito que é enunciado pelo analisando sem ele saber o que diz, pondo, por conseguinte, em prática o inconsciente, com a premissa incontornável de uma escuta flutuante por parte do analista, a quem o analisando confia a sua fala. E mais, diz J.-D. Nasio no mesmo capítulo: “ – O psicanalista não é um parceiro que me dirige como um líder, que me ensina como um professor, ou que me confessa como um padre, mas um outro, decididamente singular, que, à medida que se vai desenrolando a análise, se torna parte integrante de minha vida psíquica. “ – Paradoxalmente, a relação analítica deixa de ser uma relação entre duas pessoas, para se tornar um único lugar psíquico que inclui, conjuntamente, analista e analisando, ou, melhor ainda, o lugar do entre-dois que encerra e absorve os dois parceiros analíticos. Por isso, a análise é um único lugar que contém a vida psíquica do analista e do analisando”, finaliza Nasio. É o caso de entender então o processo de transferência e as condições da análise, que poderemos abordar depois. * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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