“Psicanálise e o Social – É a Psicanálise uma Ciência?”, por Yara Belchior

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Em 1910, no artigo “Sobre a Psicanálise”, Freud afirmou: “– (…) Posso começar dizendo que a Psicanálise não é fruto da especulação, mas sim o resultado da experiência; e, por essa razão, como todo novo produto da ciência, acha-se incompleta.” O que caracteriza, então, a Psicanálise enquanto ciência/positivismo ?! 1º) A Psicanálise é campo de uma práxis. 2º) Tem um objeto definido por um certo nível de operação, reprodutível, chamado experiência. 3º) Tem uma formulação (posta sob fórmulas). 4º) Tem um estatuto conceitual (fundamentos). Assim, podemos responder que: – Sim, é a Psicanálise uma ciência, embora a prática analítica não se feche na conjuntura epistemológica. É uma ciência porque é campo de uma práxis ao tratar o real pelo simbólico. Não é resultado da especulação e sim da experiência. Freud começou a psicanálise ao descobrir o inconsciente. Aprofundou-a inicialmente com pesquisas (achados) sobre a histeria e mais tarde esse campo inicial de trabalho estendeu-se muito em estudos sobre as neuroses e as estruturas/estruturações clínicas (hoje vistas como não rígidas), para só citar esses dois exemplos dentro do vasto campo de achados psicanalíticos. Achados porque a Psicanálise não é fruto de uma pesquisa intencional, rígida, mas resultado de observações, achados sobre o inconsciente em sua livre manifestação através da fala do analisando, valendo ressaltar que: – O analisando é plenamente escutado pelo analista enquanto sujeito, sem rótulos, sem que o analista o julgue ou o escute através da rotulação voltada para esta ou aquela estruturação, apenas escutando-o sem julgá-lo ou aconselhá-lo, escutando o dizer do analisando que ouve a si mesmo com todas as implicações do seu dito e faz as decifrações e articulações dos significantes que emergem do inconsciente, através da sua fala, cabendo ao analista apenas pontuá-lo e fazer o corte da sessão de acordo com o funcionamento do inconsciente. É uma ciência porque tem entre os seus objetos o inconsciente, que embora não tenha uma rigidez de funcionamento e não funcione sob estatuto, tem ele, o inconsciente, um rigor de funcionamento. Lacan, em 1964, no “Seminário, Livro 11, “Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”, já dizia: “- Hoje em dia, no tempo histórico em que estamos(1964), de formação de uma ciência, que podemos qualificar de humana, mas que é preciso distinguir bem de qualquer psicosociologia, isto é, a Lingüística(…).” A Psicanálise é uma ciência porque possui uma técnica, uma estratégia tática que faz com que o analisando ao falar, falar tudo o que lhe vem à cabeça, manifeste o inconsciente, efeito de linguagem, com todos os seus significantes que, ao serem decifrados e articulados no decorrer do processo de análise, acabam conseqüentemente levando o analisando à decifração e cura do seu sintoma, sem que esta seja, contudo, uma preocupação da análise. É uma ciência porque além desta fórmula estratégica, técnica, que leva à manifestação do inconsciente e no final da análise à travessia da fantasia, aceitação da falta e conhecimento da sua verdade, do seu real desejo, possui um Estatuto. O analista trabalha com o analisando não sob um processo de “diagnóstico” e tratamento, mas através de um processo de escuta flutuante, que obedece ao Estatuto da Clínica Psicanalítica. É uma ciência porque além de a Clínica Psicanalítica possuir um Estatuto, possui também um Código Ético. É uma ciência porque, mesmo possuindo suas limitações, não tem as suas ‘verdades’ fechadas no passado, mas abertas para discussões no presente e no futuro. É uma ciência porque mesmo não tendo respostas prontas para todas as perguntas (as respostas estão dentro de cada analisando), sua validade enquanto ciência ética – que não está voltada para o direcionamento do bem ou do mal do analisando, ele assim o decide – está comprometida com os problemas da existência humana, sem soluções prontas, aconselhamentos ou julgamentos, mas fazendo com que, através da análise, as pessoas possam compreender e aceitar melhor a sua falta, própria do ser humano, e com isso ter, além da cura, que não se procura, mas se acha, uma possibilidade de vida íntima, social e humana melhor pela força do processo de análise, que mesmo e apesar de suas agruras e tormentos na luta com a resistência do sintoma, leva ou acaba levando o analisando a uma equação mais solucionada consigo mesmo e com os outros, sem que isto seja um bem alienante, mas um bem estar impagável, como testemunham de público a grande maioria dos que se submeteram ao processo de análise e fizeram a travessia da fantasia. É uma ciência porque, embora Freud tivesse rompido com os padrões científicos de sua época, admitiu no seu já citado artigo “Sobre a Psicanálise”, ser a Psicanálise o “resultado da experiência” e “um novo produto da ciência”, considerando-a na época incompleta, mas hoje, provavelmente, a teria como bastante fundamentada, mas nunca completa, porque as ciências devem estar todas elas abertas para novas idéias, discussão de novas experiências, liberdade de pensamento e liberdade de trânsito no presente e para o futuro. Com a Psicanálise não pode ser diferente. * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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