“Psicanálise e o Social – Mudança do Sintoma Social Dominante: Da Neurose à Perversão”, por Yara Belchior

0

Escrito em 1998, durante o Curso de Psicanálise na UFS, o artigo da Jornalista Yara Belchior permanece atualíssimo. A ele acrescente-se às recentes perversões e atrocidades da guerra no Iraque e o que disse Freud: “- O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado”. Calligaris, em seu livro, “Introdução a uma clínica diferencial das psicoses”, editado há cerca de 10 anos, já chamava a atenção para um fato que hoje, 1998, final de século, parece ganhar mais corpo: a questão da mudança do sintoma social dominante de neurótico para perverso. A questão levantada por Contardo Calligaris há mais de uma década, longe de se tornar uma mera hipótese, tem tudo hoje para ir se consolidando – talvez paulatinamente, é possível que haja uma reação social, ou não -, por notórias evidências, como o sintoma social do próximo milênio: a perversão. O que nos resta é uma porta de esperança que poderá ser crescentemente aberta por uma probabilidade de reação ao que deixa de ser um problema de setores isolados, para ser um motivo de preocupação de toda a sociedade: um sintoma de perversão que não encontra outra razão senão no declínio da função paterna neste final e começo de milênio pródigo em solidão. Embora a informatização e a Internet tenham nos aproximado pela força da globalização, e haja uma mídia exacerbada em torno das pessoas, o fim deste milênio, contraditório às programações vendidas pelos melhores hotéis e clubes do mundo, parece-nos extremamente marcado pela solidão do homem moderno. A informatização, a Internet e a globalização deixaram as pessoas, em considerável número que cresce, presas aos mouses dos seus computadores. É a solidão dos objetos e do sexo virtual, o outro que você não vê e que se apresenta diferente nas linhas do computador; um que não quer conhecer o outro com medo da decepção; não adiantam as fotos nem as impressões enviadas, há uma desconfiança: será ele mesmo? Uma desconfiança porque se vende, muitas vezes, uma imagem do que não sé é, talvez uma fantasia que impossibilita a passagem para a verdade do sujeito: ele não quer se defrontar com o outro, não quer vê-lo nem ouvi-lo, e aí está então a toxicomania, que aparece apoiada pelo mundo fashion internacional e agora nacionalíssimo também. Não é raro abrir uma revista e ver um anúncio publicitário de marca famosa vendendo seus produtos com a imagem de uma jovem modelo com aparência decadente, olhos esbugalhados, maquilagem carregadíssima, borrada, deprê, saltando da caixa os olhos e um olhar que se perde no infinito, sombrio. Tudo bem se passasse de uma simples moda, de um teatro de modismos “fashions” … mas não é. A poderosa indústria ´fashion´ prossegue apelando para a realidade: vende seus produtos com a linguagem do consumidor, e consumir é a terapia sugerida pelo capitalismo que move tudo isso aí. Consumir é a terapia sugerida pelo capitalismo porque não se pode consumir o que não seja produzido, e produção é o elemento chave do discurso capitalista, que propõe o consumo como forma de tamponar a falta, a falta que é própria de todos os seres humanos. O vazio, a falta, que não são só meus ou seus, são inerentes a todos os seres falantes. Chegamos a um final do milênio, em que o homem não vale pelo que é enquanto pessoa, integridade, caráter, valores morais e éticos. Chegamos a um final de século em que o homem vale pelo poder do talão de cheques, do cartão de crédito. Um final de milênio em que as pessoas utilizam demasiadamente a mídia como lei do mercado, e na mídia impressa e televisada falam de seus mais íntimos motivos: chegam a selar e a desmanchar relações de noivado e casamento pela mídia, antes mesmo que o outro saiba. Uma mídia que não valoriza o íntimo construtivo, possível de ser trazido a público, mas o íntimo devassador, sem reserva alguma de polidez. É neste cenário real de final de milênio e começo de um outro que a tensão social toma conta das pessoas: o que pode mais quer sempre mais e não admite concorrência de mercado. Faz tudo para destruir o que se apresente como concorrência e ainda joga para você os sintomas que são dele próprio, do ganancioso mercenário, que se sente rei de tudo mas não é rei dele próprio. E como se não bastasse tudo isso, a tensão social vem precedida da agressividade das ruas e dos filhos contra os pais em suas próprias casas; dos adolescentes que matam a família e depois vão à escola eliminar os colegas com os tiros de uma metralhadora guardada ao lado de outras de um arsenal mantido no quarto de dormir da sua própria casa, do seu próprio lar. Será difícil falar assim ?! A solidão do homem moderno está corroendo tudo. Um simples gesto de gratidão e de bondade é visto com desconfiança: já não se pode ser bom, há de se ser canalha, patife. Um pequeno gesto de carinho desperta no outro uma desconfiança. As pessoas querem tamponar a falta, o vazio, mas não querem amar. Um CD póstumo de Renato Russo (Legião Urbana – Uma Outra Estação), aparece aí com letras que ele não quis gravar. Veja, por obséquio, a letra “Sagrado Coração”, que me pareceu muito forte, pela imensa coragem de Renato Russo ao dizer tudo aquilo. Ainda se pode ser humano? Francisco – Hugo Freda, psicanalista e diretor do Centre d´Accueil et de Soins pour les Toxicomanes – CAST em Reims/França, uma das maiores autoridades no assunto Toxicomania, mostrava-se extremamente preocupado com o avanço da toxicomania no mundo. Estudioso há mais de vinte anos da questão, ele confessava durante a palestra e seminário “A Clinica do Toxicômano / Adolescência e Toxicomania”, realizada em Salvador numa promoção do Napsi – ter um “certo tipo de paixão por este tipo de trabalho”, para, deduzi, não se mostrar piegas ao dizer, talvez, que tem amor pela humanidade e preocupação pelos rumos que ela está tomando, e chegou mesmo a afirmar que é necessário “escolher entre as conseqüências para uma pessoa e o discurso universal”, afirmando antes: ” – É necessário tudo fazer contra a droga, é necessário ser contra o gozo autista, a toxicomania, a discriminalização da droga”, e concluiu com um sonoro não à droga, que isola o sujeito e faz com que ele fique insensível a existência do outro”. O Social e a Ética da Psicanálise O crescente sintoma perverso deste final de milênio, que gradativamente afasta o sintoma neurótico para um lado, pode ser visto como conseqüência do declínio da função paterna, mas para que este declínio acontecesse antes foram necessários anos de autoritarismo repressor, configurado pelo próprio exagero de exercício da função paterna e das instituições que falavam esta linguagem. O natural, portanto, era que acontecesse o que está aí como reação há séculos de repressão e autoritarismo, que nos impôs desde a Inquisição, até a Segunda Guerra Mundial, Hitler e a guerra do Vietnã, bomba de Hiroshima. É previsível que a força de movimento do pêndulo partisse do extremo de um lado para o outro, e hoje pode ser previsível que num futuro não tão próximo assim esse mesmo pêndulo encontre o equilíbrio do meio. Mas que antes deste possível equilíbrio não nos venham imputar, a nós mulheres, uma culpa nesta perversão. Já não era mais possível tanta renúncia em nome da família, terra e propriedade. Já não era mais possível outro milênio de submissão e renúncia, esta é a palavra, renúncia a direitos tão ínfimos que nos insistiram em negar, pisar, massacrar e até infibular, como acontece ainda hoje em alguns países do mundo. O fim. Se, como prefere dizer, a mulher quis ocupar o lugar fálico antes ocupado pelo homem, que se pergunte se o lugar fálico tem dono, e ouça-se como resposta que o lugar fálico pertence ao grande Outro, tesouro dos significantes, ou seja, já que ele não tem dono, a não ser o grande Outro. Que encontre-se as razões da perversão neste imenso tesouro dos significantes. Ora, se a clínica psicanalítica não está em outro lugar senão no social, como o analisando, que está dentro do social, será visto isolado deste contexto que acabamos de narrar e que todos já estão cansados de ler e rever em jornais, revistas e tvs? O Psicanalista Antônio Cardoso Filho, remeteu-nos em aula que “a Psicanálise propõe-se a contribuir para o social sem querer corrigi-lo”, exatamente porque na clinica psicanalítica o saber em produção é o saber do Outro, é um saber que se faz fazendo, sem que seja dado ao paciente o direito de dirigir o paciente. Ou seja, “a Psicanálise leva a um bem estar impagável, mas não é isso que ela visa, nem mesmo a um bem alienante, uma vez que na condição de ética ela não está voltada nem para o bem nem para o mal”. O analista não é aquele que dispõe da verdade na mão, mas alguém que está ali para colocar o sujeito em busca da sua verdade, e só através da fala, do tesouro dos significantes, o analisando poderá chegar a ela, a sua verdade, ao seu real desejo. O que se pergunta hoje, e que Contardo Calligaris questionava há dez anos, é sobre a possibilidade de revisitação da clínica psicanalítica diante de um sinal evidente de mudança do sintoma social dominante de neurótico para perverso. Que hoje, com todas estas mudanças ocorridas no contexto social, as estruturas psicanalíticas passem a ter uma diferente leitura. Se o ´normal´ é ser neurótico, como estrutura geral, comum à grande maioria, hoje pergunta-se se esta “normalidade” não está correndo para a perversão, eis a triste realidade, e isto eu afirmo como pessoa. Assim, talvez caiba à sociedade a tão esperada reação ao declínio dela mesma, e à psicanálise uma continuada postura de ética, que não está voltada nem para o bem nem para o mal, mas que pode pontuar ao analisando que se mostre com predominância de estrutura perversa(não há estrutura, há estruturação), as razões da perversão, o que é ela, de onde nasce, em que se estrutura, e que na sua pontuação o psicanalista pergunte a ele, ao sujeito de estrutura perversa, ao que a perversão pode levá-lo, e que ele possa ou não optar por uma nova postura. O calcanhar de Aquiles é que o perverso não prossegue numa análise, e a esperança é que, diante de uma provável reação social à perversão, através de campanhas que já estão nascendo, timidamente, ele, o perverso, não encontre outro caminho, e veja que não pode tudo. É esta a esperança, de uma reação social em nome dela mesma, da sociedade em desencanto, que possa ver uma luz no fim do túnel pela força de sua própria força, sem entregar-se às leis de um capitalismo cruel que não mede limites para o consumo e produção, ainda que seja vendendo produtos com imagens de modelos drogados. À psicanálise é muito difícil manter-se em sua proposta fugindo da ética de neutralidade que a sustenta. É esta a grande questão diante de um novo sintoma social que aparece: a perversão. Que Deus nos ajude a, enquanto pessoas sociais, ter força de reagir à poderosa engrenagem. Caso contrário, corremos o risco de reviver os tempos do Nazismo ou da Inquisição, e depois ainda ter quem propague em sites perversos e racistas que nada aconteceu, como se a história pudesse ser apagada pela força da perversão. Como bem disse Freud (1856-1939), em entrevista ao jornalista George Sylvester Viereck (1884-1962), publicada no volume “Glimpses of the Great”, editado simultaneamente em Nova York, Londres e Berlim, 1930, e agora contida esta entrevista no livro “A Arte da Entrevista”, de Fábio Altman: “ – (…) Não há razão para que o homem queira viver mais. Mas temos todas as razões para querer viver com o mínimo de desconforto possível.” (Freud). ” – “Às vezes eu penso”, perguntou Viereck, “se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma os nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos mais felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal.” ” – O que o senhor tem contra os animais?”, perguntou Freud. “A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana”, respondeu o próprio Freud. ” – Por quê?”, perguntou o Jornalista George Sylvester Viereck. ” – Porque os animais são muito mais simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico”, respondeu Freud. ” – O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. É essa vingança que dá vida ao reformista profissional e às pessoas intrometidas. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo, mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade civilizada quase intolerável.” Coisas assim. Freud concedeu esta entrevista em 1930, mas parece que foi hoje, tamanha é a sua atualidade. O que a psicanálise não deve fazer é mentir ao homem, até mesmo porque o próprio analisando é quem vai descobrir a sua verdade, ele mesmo decifrar o sintoma através do dizer. O psicanalista vai apenas pontuá-lo quando realmente necessário. A psicanálise, acredito, leva a um bem estar impagável, mas não é isso que ela visa, nem mesmo a um bem alienante, uma vez que se propõe ética e não voltada para o bem ou para o mal. E de posse da sua verdade, do seu real desejo, do que sustenta este ou aquele sintoma, é que o sujeito vai decidir o que é melhor para ele. A questão é, se o sintoma social está mesmo mudando, será que a psicanálise vai precisar repensar seus caminhos? * Artigo escrito em 1998 pela Jornalista-Colunista Yara Belchior: Bacharela em Letras Português/UFS; Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br

Comentários

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais