“Psicanálise e o Social – O Que as Mulheres Desejam?!”, por Yara Belchior

0

Uma nova droga prometendo “acabar com os problemas de falta de desejo sexual nas mulheres” foi alardeada pela Imprensa, dia desses. Trata-se da “apomorfina”, que atua sobre o cérebro das mulheres diferente do Viagra, que age diretamente sobre o órgão sexual masculino, provocando o aumento do fluxo de sangue para o pênis.

Nas mulheres, entretanto, a excitação e o desejo são mais provocados por reações do cérebro do que da vagina em si. E com o homem não imagino que seja diferente, embora o processo físico seja outro. Foi pensando nisso que o Pesquisador Ian Russel, do Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha, realizou seus testes com dez mulheres, que depois de 18 semanas de uso da apomorfina, oito confirmaram uma melhora na resposta sexual e no desejo.

Mas será que as mulheres precisam mesmo de “apomorfina” para sentir desejo, ou o que faz as mulheres sentirem desejo e vontade sexual?!

Em primeiro lugar, convém destacar que psicanálise e medicina podem e devem andar juntas, embora a medicina não seja pré-requisito algum para o exercício da psicanálise. Mas as ciências todas devem trabalhar em eterna cooperação e ações conjuntas, com profissionais encaminhando pacientes uns para os outros, quando for o caso e área de atuação.

Portanto, em se tratando desta questão, o que as mulheres realmente precisam para manifestar desejo e vontade sexual?!

Ora, não precisa ir muito longe, a Londres ou ao Pólo Norte, para entender que muito além da questão sexual, o desejo feminino passa por questões culturais e ideológicas, determinantes em sociedades machistas e grosseiras, em sua maioria. Digo grosseiras, porque ao longo das décadas a mulher foi relegada ao último dos planos, e muito mais que infibulações e maus tratos na África e Oriente Médio, foram até torturadas por sentir desejo aqui mesmo no Brasil, com “santas” inquisições que podem ser pesquisadas na história, além dos famosos e torturantes cintos de castidade medieval, isso sem falar na China e outros países, onde o nascimento de bebês do sexo feminino é recebido com assassinato da criança. É mole ou quer mais?!

Então damos um salto na história, passamos por todas as lutas em defesa da mulher e dos seus direitos, e vemos que hoje, em situação mais confortável no Brasil, ainda assim muitas continuam apanhando sem denunciarem, e quando denunciam e reagem podem até ficar presas por legítima defesa, como aconteceu recentemente aqui em Sergipe. Isso sem falar que o Brasil ordena apenas que o agressor de mulheres pague com cestas básicas o crime, multas ou serviços prestados a comunidade, como se um sujeito que bate em mulher pudesse prestar serviço em lugar algum além de uma pedreira ou fábrica de carvão, onde encontram-se atualmente muitas crianças, infelizmente.

E damos um saltinho maior para fora desta questão e nos batemos com as mulheres mais independentes, mais bem resolvidas ou que não passem por agressões físicas, mas que ainda assim não sentem desejo e recusam os companheiros, na cama.

O que acontece com elas?! Será que só as agressões físicas ferem?! Será que a desatenção e desrespeito constante de muitos homens não provocam a mesma resposta?!

Assim, considerando que cada caso é um caso, e que a cada caso deve ser tratado como novo na Psicanálise, “esquecendo-se” de tudo o que se aprendeu academicamente e escutando a pessoa como se fosse o primeiro e único caso do mundo, é interessante que os parceiros se procurem mutuamente em busca do que lhes impedem de ficar bem resolvidos e felizes na cama, afinal de contas, o prazer deve ser via de mão dupla, além de notadamente divino. Por via de regra, sugiro que os cônjuges se questionem mutuamente em busca do que possam estar fazendo ou deixando de fazer que possa estar provocando desconforto e rejeição de uma das partes, para tratar legitimamente o caso: a dois.

Mas em se tratando especificamente da mulher, é conveniente lembrar que atenção, gentileza, desejo real por ela (e não de mentirinha), além de pequenos gestos cotidianos, são fundamentais para a mulher se sentir amada e ter coragem de expressar o seu desejo sexual ao homem. Ademais, é só usar a criatividade e saber que cabeça não foi feita só para chapéu, nem chapéu só para cabeça. O corpo humano é cheio de opções e curvas, e um dos detalhes preponderantes que temos ao nosso dispor, além do olhar e da atenção ao outro, é o toque, o tocar com desejo o corpo do outro e perceber, depois das palavras, o que o outro realmente deseja. É bem mais eficaz que remédio. Não causa contra-indicações, não desfalca o bolso, não corre o risco do medicamento estar contaminado e ainda por cima provoca o maior sorriso, segundos depois.

É ou não é surpreendente, ter tudo ao seu dispor e não saber usar a boca, para falar, nem as mãos, para tocar?! Deixemos a “apomorfina” para os casos que forem realmente indispensáveis, porque o que conta mesmo é amor, respeito, desejo e atração diariamente manifestados, além de um bom estoque de camisinhas para garantir o segundo encontro, depois.

Um excelente final de semana para todos. Com amor e prevenção, fica mais garantida a atração.

* Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI.
yarabelchior@infonet.com.br

Reprodução somente com autorização da autora

Comentários