“Psicanálise e o Social – O que se Diz e o que se Ouve – O Outro não sou eu”, por Yara Belchior

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Como não provocar no outro a idéia do que ele pensa ser eu?! Produto de articulações, significantes e significados, a linguagem escrita e falada implica no que se diz e no que se interpreta por parte de quem ouve. No divã do Psicanalista, você fala para alguém que lhe ouve e que pouco lhe interpreta. A função do dizer está ligada a você mesmo que se ouve ao falar para alguém que se mantém a maior parte do tempo em silêncio, permitindo que se ouça melhor e se interprete em processo de inconsciente, interagindo com você mesmo em busca das significações dos sintomas que o incomodam. Mas ao falar para alguém, no dia-a-dia que é a vida, a função do dizer culmina na interpretação que lhe serve de pressuposto, ficando esta interpretação vinculada a quem diz e a quem ouve como algo que lhes pertence em separado, como se fosse algo que a coisa “é”, mas o que é mesmo a coisa que você disse?! É nisto aí que a linguagem provoca no outro a idéia do que eu sou em cima do que eu digo e falo, em atos, palavras e contrições, como se fosse você interpretado ali, mas sendo você mesmo que tem a sua própria interpretação do que você é e da sua própria vida. Por isso a linguagem assume aspectos tão importantes e conflitantes. Mas quem pode falar melhor de alguém além da própria pessoa?! Ou quem pode impedir alguém de interpretar alguém tendo como base os seus próprios significantes e significados em torno desta análise?! Nisto resume-se o mistério do viver e da palavra, da palavra, o silêncio e do olhar, que muitas vezes é mais forte que uma palavra. É então que a palavra ganha dimensão de poder e escrita, perpetuando-se através dos tempos ou do cérebro de quem a escutou, fosse boa ou fosse má, para quem ouviu, além de emissão das vibrações energéticas que a palavra provoca e que permeiam o ambiente de forma divina ou melancólica, agressiva ou saudável, entusiasta ou deprimente, o que você prefere?! Até onde o nosso livre arbítrio não é atacado pelo que ouvimos e sentimos pelo que ouvimos?! Até onde o nosso livre arbítrio não é atacado pelo que ingerimos e que muitas vezes provoca em nós reações coléricas?! Como controlar isso?! É preciso compreender o que marca o que se diz e o que se ouve ou se interpreta. A nossa condição essencial de individualidade e singularidade; o nosso reconhecimento como únicos, embora entrelaçados, nem sempre nos alertam, estas mesmas condições, sobre o que dizemos e o outro, que nos interpreta. O que ouve e o que faz a interpretação, ele que nos escuta, convém lembrar, é essencialmente diferente de nós em seus significantes e significados. A paciência na escuta de opiniões e palavras, no dialogar, nos faz lembrar que o outro é, em essência, singular, único, tal qual somos cada um de nós, um conjunto cercado por milhares de outros conjuntos, porque o conjunto principal é você, e o conjunto principal também é ele, pensa quem nos ouve e nos interpreta de acordo com as suas idéias e mundos pertinentes a cada um. Assim, onde está a verdade?! A comunicação exige cautela e paciência, inteligência e astúcia no comunicar das palavras. O tom, também, pode modificar todo um contexto da palavra. Diga “fale” gritando e diga “fale” sussurrando, e sentirá toda a diferença, de acordo com o contexto de cada um, porque tem pessoas que só parecem “saber” reagir com grosseria, com a mesma grosseria que as vezes emprestam ao outro, e que o outro, mesmo sem querer, muitas vezes é obrigado as vezes a usar para ser atendido em suas reivindicações. Ao nos esbarrarmos em diferenças de opiniões e idéias, esbarramos antes em um aspecto que torna por vezes difícil a comunicação: o que se diz e o que se ouve, o que ele ouve e o que ele interpreta deste ouvir, pelo simples fato de que uma mesma palavra pode ter significados e conotações diferentes no cérebro de cada pessoa. A linguagem volta-se primeiramente para alguém, e não para alguma coisa estática, imóvel; mesmo que este alguém seja você, ao falar para o mar, você poderá estar falando primeiramente para você, é óbvio. Daí o segredo daqueles que parecem estar sempre falando sozinhos: eles precisam, talvez, se escutar melhor. Uma mesma palavra pode ser um elogio para uma pessoa e uma ofensa para outra. Chame um conservador de liberto e um vanguardista com a mesma palavra e observará os resultados. Aliás, as rotulações, enquanto rotulações atribuídas, são inconsistentes enquanto rótulos/rotulações, como muitas vezes são inconsistentes muitas verdades que atribuímos aos outros, diante de complexidade, pluralidade que é o ser humano: “ – A língua é uma estrutura socializada que a palavra sujeita a fins individuais e intersubjetivos, juntando-lhe assim um perfil novo e estritamente pessoal”, afirma Émile Benveniste em “Problemas de Lingüística Geral”, e prossegue: “ – A língua é um sistema comum a todos; o discurso é ao mesmo tempo portador de uma mensagem e instrumento de ação. Nesse sentido as configurações da palavra são cada vez únicas, embora se realizem no interior – e por intermédio – da linguagem”, define Benveniste. Freud, que lançou luzes decisivas sobre o comportamento humano através da atividade verbal, tal como se revela, “foi levado a refletir sobre o funcionamento da linguagem nas suas relações com as estruturas infraconscientes do psiquismo, e perguntar-se se os conflitos que definem esse psiquismo não teriam imprimido a sua marca nas próprias formas da linguagem”, prossegue Benveniste no citado livro. Assim, concluo que nem sempre o que se diz é o que se ouve ou se interpreta. E ao nos colocarmos como “eu”, devemos antes refletir que diante de nós tem o outro. O outro não sou eu. E por falar nos conflitos que permeiam o psiquismo que Freud tão bem esmiuçou, o que terá “Maria”, nesta letra e música de Tom/Vinícius e Chico, pensado de quem lhe cantava estas palavras: – Será que ele quer que eu fique?! Será que ele quer que eu vá?! Será que dizendo que gosta tanto de mim por que me incentiva a voar?! Será por medo do amor ou por amor à liberdade?! Ou será mesmo o quê?! Ouçamos, como uma canção que está no CD “A Arte de Chico Buarque”, da USM, que talvez você encontre nos links de busca da Internet o download da canção: Olha Maria Olha Maria Eu bem te queria Fazer uma presa Da minha poesia Mas hoje, Maria Pra minha surpresa Pra minha tristeza Precisas partir Parte, Maria Que estás tão bonita Que estás tão aflita Pra me abandonar Sinto, Maria Que estás de visita Teu corpo se agita Querendo dançar Parte, Maria Que estás toda nua Que a lua te chama Que estás tão mulher Arde, Maria Na chama da lua Maria cigana Maria maré Parte cantando Maria fugindo Contra a ventania Brincando, dormindo Num colo de serra Num campo vazio Num leito de rio Nos braços do mar Vai, alegria Que a vida, Maria Não passa de um dia Não vou te prender Corre, Maria Que a vida não espera É uma primavera Não podes perder Anda, Maria Pois eu só teria A minha agonia Pra te oferecer Um excelente final e começo de semana para todos. * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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