“Psicanálise e o Social – O Silêncio do Psicanalista”, por Yara Belchior

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“O silêncio na análise é experiência contida do não-saber, da castração simbólica do analista, de sua ignorância equivalente à do paciente. Pelo silêncio, o analista suspende sua posição de saber, de compreensão, de julgamento. O analista não se abandona ao silêncio, mas se deixa levar por ele até a precipitação de um dizer. “Essa suspensão favorece as derivações provocadas por uma escuta ‘flutuante’, porquanto o fluxo é portador e veículo desse Outro lugar que ele sustenta com sua ‘neutralidade’, a se entender etimologicamente:” não abolir “(ne-uter), nem a si, nem a seu paciente”, afirma Liliane Zolty no livro organizado por Juan-David Nasio, “O Silêncio em Psicanálise”. Essa castração simbólica do analista, a que a autora Liliane Zolty se refere, convoca o analista a ocupar o lugar que lhe é devido, de Sujeito-suposto-Saber, que o analisando vai encontrar em todos os lugares imaginários em sinal de estabelecimento da transferência. O analisando, embora imagine que o analista detém todo o saber sobre ele, é ele, o analisando, que o detém, e só vai perceber isso no final da análise, quando então entenderá o silêncio do analista. Esse silêncio do analista é justificado também pelo lugar do morto (não do cadáver) que ele ocupa, porque não cabe a ele orientar o analisando no que quer que seja, mas sim deixar que ele, o analisando, decifre os significantes e os articule de modo pessoal, por ele mesmo, cabendo ao analista romper o silêncio apenas para pontuações que conduzirão o analisando às próprias reflexões. O silêncio do analista incomoda ao analisando até mesmo porque no convívio social e cotidiano, evita-se o silêncio, do mesmo modo que se evita falar dos desejos e segredos mais íntimos, das emoções e pensamentos que não se ousa admitir nem para si mesmo. E o silêncio do psicanalista, além de convocar a fala do analisando, convoca-o também a dizer tudo, sem censura, a falar, falar e falar tudo o que lhe vem à cabeça, além do que já sabe como segredo seu, falar também sem saber o que virá, o que sairá do inconsciente em forma de palavras. Assim, se é difícil falar do que se é, do que se pensa ser, que configura o eu, imagine falar com as palavras que vêm do inconsciente, do sou onde não penso ser. É desta impossibilidade dupla que se vê aborrecido o analisando : da resistência do falar e do esmagamento contra o silêncio do analista que o leva a ouvir-se, refletir e encontrar os significantes e articulações da sua própria fala. É estar à deriva no divã, envolto pelo “desconhecido” do inconsciente a caminho da própria verdade, do seu real desejo. É esta a dificuldade: a busca de uma verdade interior em face de um sintoma que incomoda; a dificuldade da busca da própria verdade através da própria fala. O dizer tudo o que pensa, tudo o que lhe vem à cabeça, é mesmo muito difícil para o analisando, porque romper com o gozo em face de um sintoma que incomoda também significa caminhar para assumir um deciframento, uma verdade que totalmente levará a novos rompimentos, a rompimentos com o que pensava ser mas que não era. Mais que difícil, portanto, impossível. E “tudo o quanto podemos é esperar que o paciente encontre por si mesmo a coragem de tornar possível o impossível. O resto é silencio”, sentencia Teodor Reikem artigo no citado livro de Juan Nasio. E se no título deste artigo ele diz que “No Início é o Silêncio”, eu acrescentaria dizendo que no final, no final também é o silêncio. * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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