“Psicanálise e o Social – O Tempo”, por Yara Belchior

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“Até Lacan, a duração de tempo da sessão em psicanálise não tinha sido objeto de qualquer discussão por parte dos analistas. Estes, não só haviam tomado a prática de Freud da sessão fixa de cinqüenta minutos, como uma verdadeira exigência formal de enquadre `correto´ a ser seguido, como ainda, não satisfeitos, também a estabeleceram como uma norma regulamentar institucionalizada compulsoriamente”, afirma o professor-doutor Marco Antônio Coutinho Jorge em seu artigo “Usos e Abusos do Tempo Lógico”. Com clareza e extrema transparência de colocações, Marco Antônio Coutinho Jorge, que tivemos o prazer de conhecer em aulas, discorre nas valiosas dezessete páginas do citado artigo, sobre o histórico do tempo das sessões em psicanálise, fazendo uma abordagem crítica indispensável para os que queiram entender melhor a questão. Ele aborda o fato de Lacan ter sido expulso da IPA (uma associação internacional de psicanálise) justamente por ter ido contra as sessões fixas de 50 minutos praticadas por Freud e seguidas, religiosamente por aquela instituição, o que lhe valeu a sua excomunhão da citada associação internacional. As sessões fixas de cinqüenta minutos eram praticadas por Freud em concomitância com a associação livre e atenção flutuante (escuta flutuante): “Denominada por Freud de `regra fundamental da psicanálise´, a regra da associação livre é o pilar sobre o qual se sustenta a prática psicanalítica e o acesso ao inconsciente. A importância dessa regra para Freud pode ser medida pelo fato de que sua introdução é concomitante ao próprio advento da psicanálise, isto é, ao abandono da técnica hipnótica”, prossegue o Editor Marco Antônio em seu citado artigo. Lacan, em sua posição irredutível de oposição às sessões fixas de cinqüenta minutos, introduz a noção de “tempo lógico”. Portanto, enquanto Freud determinava o tempo das sessões em cinqüenta minutos e fixava o número de vezes por semana, segundo seus próprios relatos no artigo “O Início do Tratamento”, Lacan rompe de vez com o sistema estabelecido pelo criador da psicanálise e alia ao “tempo lógico” as sessões. “De um tempo de duração bastante variável para um tempo cada vez menor, mas jamais se identificaram com o uso sistemático, situalizado de sessões curtas, talvez somente nas últimas anos de sua vida”, refere-se Marco Antônio Coutinho Jorge a Lacan em “Usos e Abusos do Tempo Lógico”. Relatando o “Sofisma dos Três Prisioneiros”, artigo de Lacan, Antônio Quinet em “As 4 + 1 Condições da Análise”, explica o “tempo lógico” de Lacan a partir da associação feita pelo mesmo aos três momentos lógicos, que são: “O instante de olhar, igual a zero; (…) o tempo de compreender, que supõe a duração de um tempo de meditação; (…) e o momento de concluir, que é, na verdade, o prosseguimento de compreender”, de concluir e agir. Este terceiro momento de compreender, concluir e agir traz consigo a marca da pressa, que precipita o julgamento do sujeito e seu ato, justificando então, o “tempo lógico” ligado às sessões de tempo variado, tendentes a um tempo cada vez mais reduzido, justificando ainda que “a angústia”, que é esse afeto que não engana, traz em si a certeza. Quinet afirma, em seguida, que deixamos tudo para a última hora, e justifica, tomando como base o pensamento de Lacan, que é “justamente a última hora, a pressa, que nos faz agir”: “Tudo o que é da ordem da criação, diz Lacan, se dá na descontinuidade e sob o império da urgência. Há, então, uma desvalorização do tempo para compreender e uma valorização do tempo para concluir”, afirma Quinet no citado livro. Isto estaria então ligado, concluo, ao corte da sessão e ao seu tempo cada vez menor, o que forçaria o sujeito a vencer a resistência do sintoma e apressaria a sua decifração. Quinet, embora traduza bem as justificativas do “tempo lógico”, não se furta a fazer um amplo julgamento crítico a respeito da questão. Marco Antônio Coutinho propõe uma “profunda revisão” dos problemas do “Usos e Abusos do Tempo Lógico”, afirmando que, nos últimos anos, após a morte de Lacan, em 1981, veio se disseminando a idéia do psicanalista “lacaniano” como aquele que trabalha, sistematicamente, com sessões curtas de, no máximo, quinze minutos de duração, fato que ele desmistifica bem, conforme já citamos. Marco Antônio Coutinho Jorge alerta ainda para o risco que implica esta crescente prática por parte dos “lacanianos” chegar ao risco de a sessão ter um tempo de duração zero, adverte citando Elisabeth Roudinesco em “História da psicanálise na França”, v. 2, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988. No final do seu artigo “Usos e Abusos do Tempo Lógico”, ele cita Dali: “Como dizia Salvador Dali, o que foi sublime na unicidade torna-se rude e grotesco na repetição. (…) Os analistas deveriam se empenhar em partir em busca de sua própria experiência e não mimetizar experiências já passadas. Seria mais congruente com aquilo que a psicanálise ensina considerar que nada está dado em definitivo e que tudo deve ser reconquistado”. Pois é. O tempo dimensional na regressão a vidas passadas é uma vivência que merece ser narrada, e que pode muito bem ser unida à psicanálise pelos clientes (pacientes) que desejarem dar um salto maior rumo a uma decifração mais breve dos seus sintomas. Um forte abraço e ótima sexta-feira para todos, com início de sábado brilhante e cheio de boas resoluções. Até lá! * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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