“Psicanálise e o Social – O Uso do Divã”, por Yara Belchior

0

Breve Resumo Anterior Lacan, ao introduzir o conceito de ato psicanalítico, retira a psicanálise do âmbito das regras para situá-la na espera da ética, considerando que é o analista com seu ato que permite a manifestação do inconsciente, cujo estatuto não é ôntico, ou seja, comum e inerente a todos, mas ético, efeito de linguagem cujo tratamento não dispõe de outro meio senão o da fala. Por conseguinte, para que o inconsciente apareça, é necessário que, da parte do Psicanalista, haja a firme disposição de escutar, o que faz com que o inconsciente do Analisando possa aflorar dentro do processo de falar e dizer tudo o que lhe vem à cabeça. No falar para que o Analista o ouça e ele próprio, o Analisando, possa se ouvir, na condição de associação livre e lei de livre articulação de significantes. O inconsciente é o efeito da fala sobre o sujeito e o sujeito se constitui dos efeitos dos significantes, cuja cadeia, articulação, no final do processo de análise revelará ao sujeito a sua verdade, o seu real desejo. O inconsciente, que é a soma dos efeitos da fala sobre o sujeito. Mas para que esta “cura” pela fala possa acontecer, é necessário que se ressalte que, embora a psicanálise não obedeça a “regras”, tem algumas condições estabelecidas por Freud. Condições de trabalho que permeiam o estatuto da clínica psicanalítica, que é a própria análise. E dentro destas condições de trabalho está a disposição do Psicanalista de escutar para que a análise possa começar a partir da demanda de alguém, de falar sobre seu sintoma, pedindo por decifração na cadeia de significantes do inconsciente. Já trouxemos aqui diversos artigos esclarecedores sobre a clínica psicanalítica, sendo os últimos sobre o que acontece no período destinado às Entrevistas Preliminares e a questão da Transferência. A transferência é o processo que envolve o Psicanalista na análise de um sujeito, observando-se que embora o Psicanalista assuma o lugar do morto, não é o lugar do cadáver que ele ocupa. Este processo transferencial está muito ligado aos estudos feitos por Lacan sobre a transferência em função dos três registros – real, simbólico e imaginário. A entrada do sujeito em análise se dá pela transferência, mas antes que o sujeito entre em análise, acontece um “tratamento de ensaio” que, advindo das práticas de Freud, corresponde em Lacan às “entrevistas preliminares”: “ – Esta expressão indica que existe um limiar, uma porta de entrada na análise totalmente distinta da porta de entrada do consultório do analista”, explica Antônio Quinet no livro “As 4+1 Condições da Análise”, onde classifica as três funções das entrevistas preliminares: sintomal (sinto-mal), diagnóstica e transferencial. Hoje falaremos sobre o Uso do Divã. O Uso do Divã A indicação do divã pontua o fim das entrevistas preliminares e marca a entrada do analisando em análise. Mais do que uma simples peça do mobiliário, ele tornou-se, com o passar do tempo, símbolo da psicanálise. Freud fez uso do divã como dispositivo analítico e Lacan não tirou o divã do dispositivo analítico. O divã é mesmo um significante, uma regra, uma aceitação forte, a transferência necessária, estabelecida e aceita, embora, o que se espera de um psicanalista é a experiência do inconsciente, tributária da função da fala e do campo da linguagem, interpreta Quinet sobre o pensamento de Lacan feito sob encomendas em 1955 para a “Encyclopédie Médico – Chirurgicale”, título que qualificou mais tarde de abjeto. Otto Fenichel no seu texto “Problemas da Técnica Analítica”, explica que o divã é um relaxamento para o paciente e alívio para o analista do incômodo de ser olhado. Fenichel ressalta em “Problèmes de technique psychanalytique”, “Revue française de psychanalyse”, 1951, que a condição do divã pode ser abolida em caso de recusa do analisando ou quando este se encontra por demais desejoso de se deitar. O que nos chama a atenção, contudo, é que a regra fundamental da psicanálise, que recomenda ao analisando dizer tudo o que lhe vem à cabeça, sem ordem cronológica e sem se preocupar com nada, possa encontrar fora do divã, ou numa relação dual de olhar, um obstáculo para o dizer, o falar absolutamente tudo o que lhe vem à cabeça. Sem o divã o analisando poderia ver (ao seu modo) o efeito de suas palavras na expressão do analista. Então, além da vergonha, associada a fatos relatados ou a fantasias dos seus desejos mais íntimos e secretos, ele, o analisante, estaria, como frisamos, numa relação dual de olhar, num olho-no-olho que só favoreceria ainda mais a resistência e colocaria a psicanálise numa posição de face a face que privilegiaria o eu, sujeito da compreensão, em lugar da fala, sujeito da enunciação: “ – A privação da visão do analista é acompanhada pelo convite à auto-observação; algo do tipo ‘vamos apagar a luz para melhor ver o filme’. Freud utiliza uma metáfora ferroviária ao enunciar a regra fundamental : “ – Comporte-se como um viajante, sentado à janela de um vagão, que descrevesse a paisagem que vai mudando a uma pessoa que se encontrava atrás dele.” Essa comparação, comporta menos uma apologia de uma visão interna – o famigerado ‘insight’ – do que a obrigação de fazer as imagens passarem pela fala”, traz Antônio Quinet no já citado livro. O ‘insight’, para Quinet, é um sucedâneo do estádio do espelho que, no momento do olho-a-olho, recebe uma injeção da libido, sendo o equivalente, este ‘insight’, ao eu, sujeito da compreensão. Assim a fala – que traz o inconsciente através da regra do tudo dizer e falar o que lhe vem à cabeça, sem censura – ficaria prejudicada pelas implicâncias do olhar, do face-a-face, isso sem contar que o que vale na psicanálise é o sujeito da enunciação, a fala, as decifrações e articulações dos significantes do inconsciente, que, para a psicanálise, é onde o analisando realmente é, é onde não pensa ser. Sobre o divã, teríamos a ressaltar, ainda, que a sua padronização encontra exceções de uso justificadas pelo particular de cada caso, uma vez que cada experiência psicanalítica é única, e nunca uma padronização. Existem, por exemplo, relatos de experiência de análise com sujeitos de estruturação psicótica, que não suportaram o divã e sua inevitável sensação de à deriva, exigindo do psicanalista o face-a-face. O uso do divã encontra suas boas razões mas não é uma regra inviolável, valendo lembrar sempre que a psicanálise se renova a cada experiência de análise e que as regras, embora possam alcançar uma certa condição de padronização formal, por inúmeras razões, por uma única razão não podem ser ‘regras’ na acepção pura da palavra : o inconsciente é livre. Finalizando este tema: assim como o uso do divã é uma condição formal para a maioria dos casos, embora encontre exceções de uso, o silêncio do psicanalista também não é à toa: tem poder do mesmo modo que o têm as palavras e produz efeitos no inconsciente do analisando. Será a nossa próxima questão a ser abordada dentro desta série de artigos esclarecedores sobre a Clínica Psicanalítica. Um excelente final e começo de semana para todos. Salve, Jorge! Grande Jorge! * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

Comentários