“Psicanálise e o Social – Os Primeiros Passos de Freud”, por Yara Belchior

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A grande descoberta do século XX foi, sem dúvida, a descoberta de Freud sobre o inconsciente. Com esta descoberta ele funda um novo discurso, rompe com os padrões da medicina de saúde mental da sua época e passa a ocupar o lugar de analista. A descoberta freudiana do inconsciente é, portanto, a base fundamental de edificação da psicanálise, da clínica psicanalítica, e para compreendê-la, inicialmente, registraremos, de passagem, o contexto histórico em que Freud situava-se ao inaugurar a psicanálise. Freud nasceu em 06 de maio de 1856 e aos 17 anos iniciou a sua formação médica em Viena: “ – A medicina desta época era quase que inteiramente assentada em bases biológicas, muito pouco interessada na psicologia, que até então era entregue aos filósofos, sendo que a nascente psiquiatria não passava de um ramo da neurologia”, relata David E. Zimerman ao traçar uma evolução histórica da psicanálise em “Fundamentos Psicanalíticos”. Em 1882, o notável neurologista J. Breuer, relatou a Freud o método de base hipnótica que ele empregava com a sua jovem paciente histérica Anna O. (cujo verdadeiro nome era Bertha Pappenheim). Esta paciente, durante o estado de transe, recordava uma série de ocorrências traumáticas num passado remoto, obtendo com isso um grande alívio sintomático: “ – (…) Quando essa paciente produziu, histericamente, uma gravidez imaginária , Breuer ficou muito assustado(ainda não era conhecido o fenômeno da transferência) e providenciou uma viagem como meio de fugir dessa incômoda situação que, inclusive, estava a ameaçar o seu casamento”, historia David Zimerman. Em 1885, Freud conhece Charcot, grande neurologista, ao conseguir uma bolsa para estagiar ao seu lado, na famosa Salpêtrière, em Paris. O estágio começa em setembro e termina em fevereiro de 1886, deixando Freud impressionado com dois aspectos: a existência da histeria em homens e a observação da dissociação da mente, induzida pela hipnose. Insatisfeito com os métodos empregados pelos neuropsiquiatras contemporâneos seus, Freud decide empregar o método do hipnotismo com as suas pacientes histéricas, partindo do princípio de que a neurose provinha de traumas sexuais. Tomando por base as suas observações com pacientes histéricas, Freud convida Breuer a somar às dele as suas observações e, em 1893, publicam em conjunto “Comunicação Preliminar”, estabelecida, em 1895, como o primeiro capítulo de “Estudos Sobre a Histeria”, também da autoria de ambos, Freud e Breuer. Contudo, Breuer, ainda assustado e sem entender o fenômeno da transferência de Anna O. para com ele, e também por discordar “da orientação de Freud cada vez mais dirigida para a sexualidade da criança, abandonou definitivamente a nova ciência, enquanto Freud prosseguiu sozinho, com vigor redobrado, enfrentando as críticas mordazes e desdenhosas de todos seus colegas”, registra David Zimerman em sua retomada da evolução histórica da psicanálise. Freud, por não se sentir à vontade na posição de hipnotizador e ter encontrado oposição da clientela, decidiu experimentar a “livre associação de idéias”, conseguida pelo hipnotismo também com pacientes despertas, e convida-lhes a deitarem-se no divã, pressiona as suas têmporas(das pacientes) com os dedos e incentiva-as a associarem “livremente”, objetivando, com o método, fazê-las recordar do trauma que realmente “teria acontecido, mas que estaria esquecido devido à repressão. No entanto, Freud conclui, depois, através de suas observações, que sem a pressão na testa as suas pacientes associavam melhor, livremente, e convence-se de que as barreiras contra o recordar e associar provinham de forças mais profundas, inconscientes, e que funcionavam como verdadeiras resistências involuntárias. Isto constitui-se como uma marcante ruptura epistemológica, porquanto Freud começou a cogitar que essas resistências correspondiam a repressões daquilo que estava proibido de ser lembrado, não só dos traumas sexuais realmente acontecidos, mas também daqueles que foram fruto de fantasias reprimidas. É então, nesse momento, final de 1800, início de 1900, que Freud , ao conceber o conflito psíquico como resultante do embate entre as forças instintivas e as repressoras, e os sintomas se constituindo como sendo “a representação simbólica deste conflito inconsciente, é nesse momento , com essa concepção, que Freud “inaugura a psicanálise como uma nova ciência, com referências teórico-técnicas próprias, específicas e consistentes”, ressalta David Zimerman. O inconsciente, que Freud prova ter uma dinâmica, leis e fenômenos específicos, é a base da psicanálise, da clínica psicanalítica, fundada basicamente pelos estudos, observações e contribuições de Freud, que a estabeleceu praticamente sozinho e que, a partir de 1906, já tinha a base da sua edificação praticamente solidificada: “ – Até 1906, Freud já havia lançado as sementes essenciais do edifício psicanalítico, como foram as noções da descoberta do inconsciente dinâmico como principal motivador da conduta consciente das pessoas; o fenômeno da “livre associação de idéias”, a importância dos sonhos como via régia de acesso ao inconsciente, a sexualidade na criança, estruturada em torno da cena primária e do complexo de Édipo, o fenômeno das resistências e, por conseguinte, das repressões, a transferência e a presença constante de dualidades no psiquismo: como a dos dois tipos de pulsões (inicialmente os “instintos de auto-preservação e o de preservação da espécie”; mais tarde, os “instintos de vida ou libidinais e os de morte ou tanáticos), assim como do conflito psíquico resultante de forças contrárias, do consciente versus inconsciente, princípio do prazer e o da realidade, processos primário e secundário, dentre outras dualidades mais”, relata Zimerman em “Fundamentos Psicanalíticos”. Considerando que toda a psicanálise, e todos os psicanalistas, de uma forma ou de outra, estão ligados aos postulados metapsicológicos, teóricos e técnicos legados por Freud a seus seguidores diretos, tanto os seus contemporâneos como os pósteros a ele e que “o paradigma psicanalítico freudiano, embora conserve a invariância dos seus princípios básicos, vem sofrendo profundas transformações, quer com acréscimos, reformulações ou refutações, ressaltamos que mesmo dentro deste contexto há orientações diferentes na clínica psicanalítica(Freud, Jung, Lacan …) mas hoje preferimos direcionar o nosso artigo em torno dos primeiros passos dados por Freud, que abriu os primeiros passos para a reflexão: sou onde não penso ser, o inconsciente. Um excelente final de semana para todos, com um começo bem mais motivador. * Yara Belchior é jornalista-Colunista; bacharela em Letras-Português/UFS, com Pós-Graduação em Psicanálise/UFS; Iridologia/AMI. yarabelchior@infonet.com.br Reprodução somente com autorização da autora

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