
Literatura de cordel marca presença no Arraiá do Povo
"Turistas serão bem-vindos, será uma festa só. Vocês vão sentir o clima do nosso forrobodó. Vão dançar nosso xaxado e o nosso xote lascado aqui no país do forró". Os versos do autor Ronaldo Dória exaltam o São João sergipano e convocam o público para aproveitá-lo. Mas também provam que Sergipe, além de terra dos festejos juninos, também é a da literatura de cordel. Em uma das diversas casas da cidade cenográfica do Arraiá do Povo, na Orla de Atalaia, a arte dos livretos pendurados em cordão está representada por cerca de 200 títulos de dois grandes autores: o próprio Ronaldo Dória e o veterano Pedro Amaro do Nascimento.

Cerca de 200 títulos podem ser encontrados na Casa do Cordel, na Orla
Natural de Aracaju, Ronaldo Dória, 64, atua há dez anos como cordelista. Sua relação com a arte de contar histórias e fazer versos, porém, vem de muito antes. "Quando eu era pequeno, meu avô João Rodrigues reunia a gurizada, acendia um candeeiro e contava histórias a noite inteira. Isso me marcou", conta o autor. Apesar do contato precoce com as histórias, Dória se afastou da literatura e se tornou profissional de contabilidade. Já próximo da aposentadoria, porém, tomou uma decisão definitiva. "Disse a mim mesmo que nunca mais iria querer saber de números", disse aos risos. Hoje, o trovador contabiliza 76 obras de sua autoria.
Segundo ele mesmo, assunto é o que não falta. "Cordel é uma linguagem muito bonita. É possível falar sobre qualquer assunto e resumi-lo em oito páginas". Ainda para Dória, a literatura de cordel deveria ser melhor aproveitada para a educação. "Muita gente aprendeu a ler de tanto folhear o cordel". Olhando com orgulho para toda a sua obra disposta em cima da mesa, Dória disse estar satisfeito com o espaço disponibilizado para divulgar seu trabalho. "Não temos muitos lugares para expor nossos livros. Por isso esse espaço é fundamental para nós. A cultura deveria ser prioridade em qualquer lugar", destacou.
Já o recifense Pedro Amaro Nascimento, 70, se dedica aos versos desde os 13 anos. Dentre os assuntos de suas inúmeras obras, figuram teologia, literatura, história, política e até uma biografia do papa João Paulo II, que o cordelista enviou ao papa Bento XVI. Ex-repentista, Pedro Amaro ressaltou a importância do espaço do Arraiá do Povo para a restauração da força do cordel no imaginário popular. "Esse local é muito bom para nós. E aproveito para convocar os jovens, pois muitos cordelistas têm a minha idade. Se a juventude não se interessar pelo cordel, ele logo se acabará", disse.

O recifense Pedro Nascimento exibe suas obras / Fotos: André Moreira
Nos versos de sua obra "A Capital do Forró", Ronaldo Dória reforça a convocação."Tem festa no interior e também na capital. Temos folguedos na orla e no mercado central. Pois quem é bom forrozeiro vai dançar o mês inteiro neste grande arraial".