FÁBIO DISPENSOU O DEBATE, MAS AS PERGUNTAS NÃO PEDIRAM LICENÇA

A CADEIRA VAZIA E AS JUSTIFICATIVAS DO GOVERNADOR

Ontem, dia 29, reservou um capítulo curioso à política sergipana. O governador Fábio Mitidieri decidiu não comparecer ao debate da TV Sergipe e, antes mesmo de as câmeras serem ligadas, a ausência já provocava discussão. Segundo informações a assessoria jurídica do governador questionava a participação de Dr. Helton Monteiro, diante do indeferimento de sua candidatura, e de Ricardo Marques, cuja chapa enfrentava a renúncia do candidato a vice. A campanha também alegou ataques e disseminação de notícias falsas, mas sem atribuir nominalmente a Valmir de Francisquinho a autoria dessas informações no comunicado oficial. Quanto a Emanuel Cacho, a alegação de que seria eleitoralmente inexpressivo. O resultado foi uma situação incomum: a campanha apresentava razões para não participar, enquanto quatro adversários se preparavam para discutir justamente os assuntos sobre os quais a população esperava respostas.

Em nota da coligação afirmou que a decisão estava alinhada ao respeito aos sergipanos e à defesa de uma campanha baseada em propostas. Foi aí que nasceu a principal contradição apontada pelos adversários: como defender o debate de propostas deixando de comparecer ao encontro organizado para discuti-las? A justificativa pode fazer sentido dentro de uma estratégia eleitoral, mas não elimina o interesse público de ouvir o governador responder às perguntas. Afinal, o telespectador não precisava de mais uma propaganda cuidadosamente editada. Queria saber quando o abastecimento de água seria regularizado, como terminaria a greve dos professores, quais providências estavam sendo adotadas na saúde, quando as rodovias estaduais seriam concluídas, quando o Banese voltaria ser o banco do sergipano e o que havia a explicar sobre contratos públicos. Para essas perguntas, não existe botão de avançar vídeo. O eleitor assiste ao debate justamente porque deseja respostas que não cabem nos trinta segundos de uma peça publicitária.

A situação também trouxe de volta a lembrança de 2022. Naquela eleição, Fábio participou de um debate contra Rogério Carvalho na TV Atalaia, mas o encontro posterior da TV Sergipe acabou cancelado após sua internação hospitalar. Na ocasião, houve documentação médica, e não seria correto atribuir à ausência uma intenção política sem provas. Em 2026, a circunstância foi outra: o próprio comando da campanha anunciou a decisão de não comparecer. A comparação, entretanto, passou a integrar a discussão eleitoral, porque o resultado televisivo foi semelhante: mais uma vez, o encontro final da emissora aconteceu sem a participação de Fábio. Para o governador, tratou-se de uma decisão justificada pela campanha. Para seus concorrentes, foi uma oportunidade de confronto público desperdiçada. E para quem estava diante da televisão, ficou uma constatação bastante simples: havia quatro candidatos disponíveis para responder e um candidato sobre o qual se poderia perguntar, mas que não estaria ali para oferecer sua versão.

QUATRO CANDIDATOS E QUATRO MANEIRAS DE ENFRENTAR AS PERGUNTAS

Valmir de Francisquinho chegou ao estúdio levando Itabaiana na bagagem administrativa. Questionado por Ricardo Marques sobre a inexistência de uma UPA 24 horas no município, respondeu mencionando 16 unidades básicas de saúde e 54 especialidades, números apresentados por ele como realizações de sua gestão e que dependem de verificação independente. Dr. Helton Monteiro elevou o tom da discussão ao questionar indicadores de mortalidade infantil. Valmir contestou a interpretação dos dados, argumentando que a Maternidade São José também atende pacientes de outras cidades. O confronto foi direto, mas permaneceu concentrado em responsabilidades administrativas. Valmir também falou sobre a valorização do magistério, aposentadorias, habitação e crédito para pequenos empreendedores por meio do Banese. O desafio colocado por essas propostas é saber como experiências municipais poderiam ser ampliadas para todo o Estado, respeitando orçamento, capacidade administrativa e diferenças regionais.

Ricardo Marques participou em meio à crise provocada pela renúncia de seu segundo candidato a vice. Depois de Pastora Salete, Érico Menezes também deixou a composição, alegando necessidade de acompanhar a esposa em um momento delicado de saúde. A justificativa familiar merece respeito. Politicamente, duas substituições tão próximas da votação criaram uma situação excepcional. No debate, Ricardo questionou uma suposta curtida posteriormente retirada de uma publicação relacionada à renúncia e resumiu a controvérsia numa frase: “O print é eterno, candidato Fábio Mitidieri”. Além disso, Ricardo discutiu rodovias, educação, saúde e o contrato com a Iguá, cuja revisão e auditoria defendeu. Também anunciou a meta de construir dez mil moradias em quatro anos, proposta que exige detalhamento financeiro e operacional.

Dr. Helton Monteiro apresentou sua defesa dos concursos públicos, da valorização dos servidores e da prestação direta de serviços pelo Estado. Criticou terceirizações na saúde, questionou investimentos em grandes eventos e sustentou que o governo precisa priorizar o atendimento à população. Também abordou o problema das apostas, afirmando que combateria as bets e ampliaria a assistência em saúde mental. Emanuel Cacho, por sua vez, defendeu dois hospitais regionais, em Nossa Senhora das Dores e Estância, além de melhorias nas rodovias, recuperação ferroviária para fins turísticos e reforço da segurança. Coube a Emanuel um dos momentos de humor da noite: ao receber o tema concursos públicos para perguntar a Helton, comentou que aquilo era praticamente entregar um presente ao adversário. A brincadeira mostrou que um debate pode ter leveza sem abandonar o conteúdo. Os quatro apresentaram propostas diferentes, cujos custos, condições de execução e resultados esperados continuam sujeitos à análise do eleitor.

QUATRO BLOCOS, MUITOS PROBLEMAS E NENHUMA SOLUÇÃO POR DECRETO TELEVISIVO

O primeiro bloco começou com temas livres e uma regra que deu destaque à ausência do governador: os presentes poderiam formular perguntas a Fábio Mitidieri antes de dirigir seus questionamentos aos adversários no estúdio. Ricardo Marques aproveitou o momento para levantar a controvérsia envolvendo a saída de seu vice e uma suposta interação nas redes sociais. Em seguida, cobrou de Valmir explicações sobre a falta de uma UPA 24 horas em Itabaiana. Helton também questionou indicadores da saúde municipal. Em pouco tempo, o confronto já envolvia maternidade, atenção básica, estrutura hospitalar e responsabilidade administrativa. São questões que não se resolvem apenas anunciando obras. Um hospital precisa de médicos, equipamentos, medicamentos e orçamento permanente. Para a família que aguarda atendimento, a inauguração é apenas o começo da história.

No segundo bloco, turismo, água e saneamento entraram em pauta. Valmir falou em duplicações de rodovias, valorização das festas populares e desenvolvimento de atrativos naturais. Cacho apresentou a recuperação ferroviária e a integração de cidades históricas como alternativas para movimentar a economia. Dr. Helton questionou Ricardo sobre a concessão dos serviços de água e esgoto, recebendo como resposta a proposta de revisão e auditoria do contrato com a Iguá. A discussão encontrou um problema concreto da vida sergipana: a irregularidade no abastecimento relatada em diferentes localidades. A concessionária tem obrigações contratuais, o Estado possui responsabilidades de fiscalização e a população precisa de informações verificáveis sobre investimentos e atendimento. Quando falta água em casa, o cidadão não está interessado em descobrir qual assessoria produziu o comunicado mais elegante. Quer saber quem responde pela falha e quando o serviço será restabelecido.

O terceiro bloco trouxe as apostas e o endividamento das famílias. Valmir questionou Helton sobre a Lotese e os impactos dos jogos, enquanto o candidato do PSOL defendeu combater as bets e fortalecer os serviços de saúde mental. Valmir relacionou o tema à utilização do Banese para incentivar atividades produtivas. O quarto bloco concentrou discussões sobre cultura, educação, saúde e concursos. Helton questionou gastos com festas; Valmir defendeu o papel econômico de eventos como a Festa do Caminhoneiro. Na educação, Ricardo apresentou compromissos com valorização profissional, alfabetização e formação. Emanuel voltou a defender hospitais regionais, enquanto Helton tratou de contratos e servidores. Ao longo da noite, apareceram temas que exigiriam explicações diretas da administração estadual, especialmente sobre a greve dos professores, o abastecimento e o atendimento hospitalar. A campanha pode terminar no domingo. As aulas, as contas públicas e as necessidades dos pacientes continuarão existindo na segunda-feira.

QUANDO OS ADVERSÁRIOS DESCOBRIRAM QUE É POSSÍVEL DISCORDAR E CONVERSAR

O encontro teve confrontos firmes, mas os trechos documentados também registram situações de cordialidade. Valmir e Helton discordaram sobre mortalidade infantil, trocaram questionamentos e defenderam interpretações distintas dos indicadores apresentados. Em determinado momento, Valmir utilizou expressões de respeito ao interlocutor e chegou a pedir desculpas por não compreender integralmente uma pergunta sobre cultura. Emanuel encontrou espaço para brincar com Helton a respeito dos concursos públicos. Ricardo, apesar da crise na composição de sua chapa, participou das rodadas previstas e apresentou questionamentos. O debate não virou uma reunião de amigos, nem precisava virar. Era uma disputa eleitoral, com divergências legítimas e propostas conflitantes. A diferença é que, em diversas passagens, os candidatos conseguiram discutir políticas públicas sem transformar cada pergunta numa ofensa pessoal.

Esse comportamento acrescentou uma dimensão à controvérsia sobre a ausência de Fábio. A campanha argumentou que ataques e informações falsas prejudicavam o ambiente eleitoral. No estúdio, entretanto, os adversários demonstraram, em momentos documentados, capacidade de manter uma conversa política apesar de posições ideológicas bastante diferentes. Isso não significa que a coligação do governador estivesse obrigada a aceitar todas as condições do encontro, nem que suas alegações sobre desinformação devessem ser ignoradas. Significa apenas que o confronto ao vivo oferecia uma oportunidade de apresentar contestações, esclarecer informações e responder diretamente às críticas. Quem considera determinada acusação falsa pode recorrer à Justiça, apresentar documentos e também utilizar espaços públicos de discussão para expor sua versão.

O contraste apareceu sobretudo no conteúdo. Ricardo cobrou equipamentos de saúde e contratos. Helton questionou indicadores e prioridades orçamentárias. Valmir defendeu suas realizações e compromissos. Emanuel apresentou alternativas para infraestrutura e serviços públicos. Em vez de uma sucessão interminável de ataques pessoais, os trechos disponíveis mostraram discussões que o eleitor poderia examinar posteriormente. As perguntas não foram todas respondidas de maneira satisfatória, e várias promessas permanecem sem detalhamento financeiro. Mas o confronto permitiu ouvir argumentos diferentes e observar como cada candidato reagia a uma cobrança inesperada. É uma característica que distingue o debate de uma entrevista individual: diante de um adversário, o discurso precisa conviver com o contraditório, inclusive quando a resposta preparada encontra uma pergunta que não estava no roteiro.

A IMPRENSA, AS REDES SOCIAIS E A POLÊMICA QUE SOBREVIVEU À TRANSMISSÃO

A ausência de Fábio Mitidieri ganhou o noticiário antes de começar o programa. Às 17h47, Narcizo Machado informou, na Fan F1, que o governador não participaria. A publicação atribuiu à assessoria jurídica os questionamentos sobre Helton e Ricardo. Horas depois, a coligação confirmou a decisão e alegou que a campanha havia sido atingida por conteúdos falsos, mencionando quatro direitos de resposta na Justiça Eleitoral. A nota não detalhou os processos. O episódio revela como decisões estratégicas também precisam ser examinadas publicamente. A campanha possui suas razões e seus interesses, mas o eleitor tem o direito de conhecer a justificativa, confrontá-la com os fatos e avaliar o significado da ausência. No fim das contas, a televisão exibiu um debate com quatro participantes e uma quantidade considerável de perguntas dirigidas a quem não estava presente.

Nas redes sociais, a situação de Ricardo Marques acrescentou outro elemento à conversa política. A sucessão de renúncias na vice, a referência a uma suposta curtida e a frase sobre a permanência dos prints mostraram como pequenos gestos digitais podem adquirir importância eleitoral. Mas uma imagem compartilhada não substitui investigação, assim como uma suspeita apresentada durante um debate não se transforma automaticamente em fato. O mesmo cuidado vale para acusações de notícias falsas, irregularidades administrativas e responsabilidades sobre serviços públicos. Cada afirmação exige documentação, identificação de sua origem e oportunidade de resposta. O humor pode acompanhar essas contradições, mas não deve ocupar o lugar da apuração.

O debate terminou, mas deixou uma ausência impossível de esconder. Fábio Mitidieri perdeu ali uma das maiores oportunidades da campanha para sair do conforto da propaganda oficial e mostrar, diante do contraditório, como administra Sergipe quando não há vídeo editado, locução bonita nem obra apresentada no melhor ângulo. Ao não comparecer, passou aos adversários o palco, o microfone e o direito de questionar sua gestão sem resposta imediata. Para seus críticos, a postura reforçou a imagem de um governador excessivamente protegido pela própria campanha, pouco disposto a enfrentar perguntas incômodas fora do ambiente controlado. Enquanto Valmir apresentou sua experiência administrativa, Ricardo falou de auditorias e habitação, Helton defendeu concursos e serviços públicos e Emanuel apresentou propostas para hospitais e infraestrutura, Fábio escolheu a ausência. E ausência, em política, também comunica. Quando o governante deixa de explicar água, saúde, greve dos professores, rodovias, contratos e gastos públicos diante de quem o confronta, não apaga os problemas: apenas aumenta a cobrança. Respeito ao eleitor não se demonstra apenas em propaganda de realizações; demonstra-se também ficando diante dele quando chegam as perguntas que a propaganda prefere não fazer.

A CADEIRA VAZIA E AS PERGUNTAS QUE O GOVERNADOR NÃO RESPONDEU

A noite de ontem deixou uma imagem que entrou para a história desta campanha: quatro candidatos discutindo os problemas de Sergipe e uma cadeira vazia reservada ao governador Fábio Mitidieri. Sua ausência, justificada pela coordenação de campanha como reação a ataques e informações falsas, abriu espaço para uma cobrança sobre transparência e prestação de contas. Afinal, governar não é apenas inaugurar obras diante de câmeras, apresentar realizações em propagandas bem produzidas ou escolher as perguntas mais convenientes. É também explicar decisões, defender resultados e enfrentar questionamentos públicos. Ao não comparecer, Fábio Mitidieri deixou de responder diretamente aos adversários e aos telespectadores que aguardavam o confronto. A cadeira vazia acabou representando uma questão maior do que a estratégia eleitoral: quais explicações a administração estadual ainda deve à sociedade?

O magistério é um exemplo. Hoje, o movimento dos professores chega, segundo a contagem apresentada pela categoria, ao seu 24º dia de greve, com estudantes prejudicados pela suspensão das aulas, profissionais reivindicando direitos e famílias esperando uma solução. A controvérsia sobre os efeitos das decisões judiciais, inclusive do Supremo Tribunal Federal, exige esclarecimentos objetivos sobre o que foi reconhecido pela Justiça, quais obrigações cabem ao Estado e como o impasse será encerrado. Somam-se a isso as cobranças sobre rodovias deterioradas, irregularidades no abastecimento da água da Iguá, dificuldades no atendimento pediátrico, contratos milionários e a destinação dos recursos públicos. São questões que pedem documentos, números, prazos e respostas administrativas, não apenas slogans. No debate, o governador poderia ter confrontado críticas, corrigido informações e apresentado sua versão. Preferiu seguir a estratégia anunciada pela campanha, deixando essas explicações fora do confronto televisivo.

A comparação com outros Estados torna a discussão ainda mais interessante. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas compareceu ao debate da Globo e enfrentou Fernando Haddad, com trocas de acusações sobre segurança, educação, saúde e administração pública, embora ele próprio tivesse faltado ao debate anterior da Record. Em Pernambuco, Raquel Lyra, João Campos e Ivan Moraes participaram do confronto. Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo, Patrus Ananias e outros concorrentes discutiram problemas estaduais. Também houve ausências: Celina Leão não compareceu ao debate do Distrito Federal; na Bahia, Jerônimo Rodrigues optou por acompanhar uma agenda de Lula, enquanto Ronaldo Mansur estava hospitalizado após um acidente. Portanto, Mitidieri não foi o único a faltar, mas sua decisão integrou um fenômeno que merece exame: quando governantes deixam de participar, perdem uma oportunidade de responder pessoalmente às críticas dirigidas às suas administrações. Em Sergipe, Valmir, Ricardo, Helton e Emanuel ocuparam esse espaço, apresentaram propostas e enfrentaram perguntas e Fábio mais uma vez não teve a coragem dos adversários que ele mesmo identificou: Ricardo sem chapa de vice; Dr. Helton já impugnado; Cacho sem expressão política; e Valmir produtor de notícias falsas.

O episódio também trouxe à memória 2022, quando a internação médica documentada de Mitidieri levou ao cancelamento do debate previsto pela TV Sergipe. Naquela ocasião, houve uma razão de saúde; em 2026, a ausência resultou de uma decisão política. A questão atual é outra: por que não utilizar uma oportunidade de grande audiência para explicar a própria gestão e demonstrar as razões pelas quais pretende continuar governando? A campanha apresentou sua justificativa, os adversários fizeram suas críticas e o eleitor permanece com o direito de avaliar ambas. No domingo, 4 de outubro, a votação decidirá os rumos políticos do Estado. Na segunda-feira, porém, estarão novamente diante da população as escolas, os hospitais, as estradas e as torneiras. A cadeira pode ficar vazia por uma noite. A obrigação de prestar contas não desaparece quando as câmeras se apagam.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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