PL e Republicanos: o acordo nacional que pode virar a política de Sergipe

A aproximação entre PL e Republicanos deixou de ser namoro escondido para virar conversa de casamento com advogado, testemunha e divisão dos bens eleitorais. Em Brasília, a negociação envolve a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, a possibilidade de o Republicanos indicar o vice e, principalmente, uma ampla troca de apoios estaduais. Mato Grosso, Roraima, Acre, Espírito Santo e Minas Gerais estão no balcão das negociações. O Republicanos quer reciprocidade onde possui candidatos competitivos; o PL precisa de estrutura, tempo de televisão, capilaridade e uma companhia partidária que evite uma candidatura presidencial isolada. A vice é apenas a fotografia bonita do casamento. O dote verdadeiro são os governos estaduais, as vagas ao Senado e as chapas proporcionais.

E quem imagina que esse movimento termina na fronteira da Bahia está olhando o mapa político com a lente embaçada. Sergipe também está sendo observado pela direção nacional do PL, porque a situação local deixou de ser apenas delicada para se tornar eleitoralmente perigosa. O partido corre o risco de não eleger governador, senador e até de perder representação na Câmara Federal. Ricardo Marques permanece estacionado abaixo dos 6% nas pesquisas divulgadas, sem conseguir transformar sua candidatura ao governo em movimento popular. Rodrigo Valadares, que no início apareceu como possível protagonista da disputa ao Senado, passou a frequentar a quinta ou a sexta colocação em diferentes levantamentos. É muita candidatura para pouco voto e muita placa na porta para pouca gente entrando na loja.

A situação de Rodrigo é ainda mais sensível porque sua candidatura ao Senado enfraquece justamente a chapa proporcional que poderia garantir sua reeleição à Câmara Federal. Sem uma nominata robusta, com votos suficientes para alcançar o quociente eleitoral, o PL pode viver uma tragédia matemática: possuir um deputado federal competitivo individualmente, mas não reunir votos partidários para elegê-lo. Seria como comprar o melhor atacante do campeonato e esquecer de inscrever o restante do time. Rodrigo pode ter voto, exposição e bolsonarismo no currículo, mas urna não distribui mandato por admiração pessoal. Sem chapa, coeficiente e soma partidária, o deputado pode assistir à apuração abraçado à calculadora e perguntando onde foi parar o resto do quociente.

É justamente por isso que a aproximação nacional entre PL e Republicanos pode produzir uma reviravolta em Sergipe. Em vez de o Republicanos abandonar a chapa de Valmir de Francisquinho para seguir o PL, o movimento mais lógico seria o contrário: o PL sergipano ingressaria na estrutura já organizada pelo Republicanos. Valmir permaneceria candidato ao governo, Priscila Felizola na vice, Eduardo Amorim e André David nas vagas ao Senado, enquanto Rodrigo Valadares recuaria da disputa majoritária e voltaria a concorrer a deputado federal. Rodrigo já sinalizou, em diferentes manifestações políticas, que decisões podem ser tomadas em benefício de Bolsonaro, da direita e de um projeto nacional. Na linguagem tradicional dos bastidores, ele não estaria desistindo: estaria atendendo a uma missão maior. Em política, ninguém recua; apenas muda de trincheira e manda imprimir outro santinho.

O grande problema dessa engenharia seria acomodar Ricardo Marques e seu grupo político. Uma das hipóteses ventiladas seria contemplar sua esposa em uma suplência ao Senado, seja na chapa de Eduardo Amorim, seja na de André David. Mas esse tabuleiro não está completamente vazio. Adailton Souza já foi apresentado como primeiro suplente de Eduardo Amorim e, embora seja reconhecido como um soldado disciplinado, leal e disposto a atender às decisões do grupo, não pode ser tratado como peça descartável. André David, por sua vez, ainda depende da composição definitiva de suas suplências e das alianças partidárias agregadas à chapa. Há espaço para negociação, mas será necessário mover cadeiras sem deixar ninguém sentado no chão. E, em convenção partidária, até quem aceita mudar de lugar quer saber onde ficará a mesa do café.

Nada está fechado, mas também nada pode ser descartado. A imprensa já  ventilou a possibilidade de retirada da candidatura de Rodrigo Valadares ao Senado, e o cenário nacional oferece uma justificativa política para essa mudança. Se PL e Republicanos chegarem a um entendimento em Brasília, Sergipe poderá ser um dos primeiros Estados a sentir o efeito. O PL entraria na chapa do Republicanos, Rodrigo tentaria preservar seu mandato federal, Ricardo Marques seria politicamente acomodado e a direita deixaria de dividir votos contra ela própria. Pode acontecer rapidamente, nas primeiras horas de uma decisão nacional, porque política não espera cerimônia: muda antes da ata, corre antes da fotografia e, quando o eleitor percebe, o candidato ao Senado já está novamente pedindo voto para deputado federal. O casamento ainda não foi anunciado, mas os padrinhos já estão escolhendo a roupa.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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