Paulo Morganti Alcaraz
Universidade Federal de Santa Catarina
Doutorando em História no PPGH/UFSC
Orientador: Professor Alexandre Busko Valim – PPGH/UFSC
A notícia da descoberta do local que abriga os supostos restos da Arca de Noé inundou os portais brasileiros de notícias com a força de um dilúvio. Usando tecnologia de ponta como modelos digitais tridimensionais e tomografia de resistividade elétrica, pesquisadores da Universidade Sivas Cumhuriyet, em parceria com o Instituto Noah’s Ark Scans, alegam terem encontrado indícios da embarcação na Formação Durupinar, uma estrutura geológica a cerca de 29 quilômetros do Monte Ararat. Revelações dessa natureza despertam enorme curiosidade, e a Arca de Noé foi direto para o primeiro lugar no ranking das notícias mais lidas em diversos sites.
A ideia de que o registro arqueológico pode comprovar o texto bíblico não é novidade; há décadas o aspecto romântico dessas descobertas, com suas relíquias, tumbas e armadilhas, vem servindo como combustível para a ficção. Quando a ciência é transformada em aventura, anos de análise detida sobre cacos de cerâmica são substituídos por um sujeito estalando um chicote em câmaras secretas repletas de serpentes. Mas, para além desse aspecto aparatoso, o caso da suposta descoberta da Arca de Noé se reveste de uma camada um tanto suspeita. Boa parcela da imprensa, mais interessada nos cliques gerados pela manchete, pouco se incomodou em verificar a instituição por trás da iniciativa, ou suas motivações. Lauren Witzke, porta-voz e diretora de marketing do Noah’s Ark Scans, instituto estadunidense que fornece apoio técnico à exploração, afirmou à CNN que “o darwinismo será destruído” com a descoberta dos vestígios. Em seu perfil no Instagram ela se apresenta “em uma missão para provar ao mundo a existência de Deus por meio da Arca de Noé.”
O Gênesis tomou de empréstimo alguns dos mitos de criação mesopotâmicos, como a epopeia Gilgamesh. Esses mitos circulavam com as caravanas de comerciantes, e acabaram reciclados no Velho Testamento. Buscar no estrato material a comprovação de um mito emprestado de outras culturas soa contraprodutivo. Mas, e aqui parafraseio livremente o arqueólogo John Romer, independentemente de ser uma descoberta legítima ou um golpe de marketing, mesmo que os restos mortais de Noé fossem desenterrados amanhã, não ficaríamos mais próximos de uma melhor compreensão da sua sociedade ou de seu deus do que ficaríamos das teorias de Freud, caso os ossos do rei Édipo fossem escavados na Grécia. O que importa é como os homens perceberam esse novo potencial de deus, pois isso permanece até hoje parte vital do Ocidente.
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