O Aeroclube de Sergipe na Segunda Guerra Mundial

Dilton Cândido Santos Maynard

 

O Aeroclube de Sergipe nasceu em tempos de guerra. A instituição surgiu num contexto de popularização da aviação civil, contribuindo fundamentalmente para a formação de pilotos. Em sua longeva história, há ingredientes de heroísmo, bravura, perseverança, ação estatal, avanço tecnológico e reconhecimento social.

Em 1939, mesmo ano em que se iniciou a Segunda Guerra, o Aeroclube de Sergipe foi formalmente criado. Mas, se oficialmente os registros informam 23 de outubro daquele ano como momento fundador, jornais da época noticiavam movimentação para criar a entidade alguns meses antes, entre o fim de fevereiro e o começo de março. Pelo que se relatava, o jovem piloto Walter Batista já articulava a criação de uma instituição desse tipo em reunião realizada na Prefeitura de Aracaju. No entanto, apenas após o Decreto-Lei 1683, de 14 de outubro de 1939, Sergipe teve o seu aeroclube instituído.

Em seu momento inicial, a missão do Aeroclube envolvia 3 objetivos. Eram eles: a) formar pilotos; b) treinar mecânicos; e c) preparar radiotelegrafistas. Entre os fundadores do aeroclube, alguns nomes se destacam. O mais frequentemente lembrado é o já citado Walter Batista, mas também merecem menção Lourival Bomfim, Lindolfo Costa Calazans, Durval Maynard, Antônio Leite Cabral; Eliseu Santos; Evandro Freire, José da Rocha Novais, José Figueiredo Monte; Osório Ribeiro, Valter Rezende, Arivaldo Carvalho, Walfrido Rezende, entre outros.

É importante entender que a criação do ASE não foi ato isolado e tampouco fruto apenas da iniciativa local. O estabelecimento de um aeroclube em Sergipe deve ser entendido como parte da política nacional de institucionalização da aviação civil. Antes do campo de pouso, com sua pista de 800 m, situado no Barro Vermelho, localidade da zona norte de Aracaju, no atual bairro Santos Dumont, assim batizado em clara referência às atividades do Aeroclube, o pouso e a decolagem de aviões eram realizados por aviões Catalina, nas águas do Rio Sergipe. Operavam no estado empresas aéreas como a Panair, Cruzeiro do Sul e a Viação Santos Dumont.

No trabalho de consolidar as atividades do Aeroclube, os jovens aviadores enfrentaram precárias condições e, durante os anos da Segunda Guerra, saíram em missões importantes do campo de Anipum em seus “Piper Cubs”, aeronaves destinadas ao treinamento de pilotos, que pouco depois se converteram em veículos estratégicos para a vigilância dos mares e céus de Sergipe, sobretudo após os torpedeamentos de navios mercantes em nossa costa.

Era agosto de 1942, mês chuvoso, de mar agitado e tempo ruim. Naqueles dias, a principal via de transporte entre os estados brasileiros era a marítima. Em Aracaju, semanalmente aportavam embarcações vindas de Salvador, com gente voltando de viagens que muitas vezes se estendiam até lugares como Rio de Janeiro ou São Paulo. Entre os navios, um dos mais frequentes era o vapor Aníbal Benévolo, considerado por alguns como um navio “sergipano”, tamanha era a sua frequência em nosso porto.

O atraso do Benévolo provocou o pedido feito pelo Capitão dos Portos da época, Gentil Homem de Melo, para que fosse realizado um voo de reconhecimento. Assim sendo, coube às aeronaves pilotadas por pilotos civis, liderados por Walter Batista, a dura tarefa de constatar que uma tragédia havia ocorrido. Do alto, avistaram destroços de embarcações, mas também óleo e corpos, muitos corpos.

Em qualquer situação envolvendo desastres ou tragédias, as primeiras horas são fundamentais para que as chances de salvar vidas sejam maiores. Ao procurar, identificar, informar e, em seguida, auxiliar nas ações de resgate dos náufragos em Sergipe, o aeroclube cumpriu papel importante. Sem a atuação daqueles pilotos, é provável que mais vidas ainda fossem perdidas.

Passados o assombro e o caos provocados pelos torpedeamentos de 1942, estando o contexto de guerra instalado de uma vez, o Aeroclube assumiu a tarefa de vigiar as nossas costas. Era uma incumbência que exigia perícia e cuidado dos nossos pilotos. Afinal de contas, as aeronaves utilizadas eram simples, limitadas pela baixa capacidade de armazenamento de combustível, sem instrumentos sofisticados para navegação e, é bom lembrar, sem quaisquer armamentos. Certamente, coragem era algo que não faltava aos nossos pilotos. E destreza também. Tamanha contribuição não deve ser esquecida. A história do Aeroclube de Sergipe, nesses dias entre o céu e o mar, precisa ser contada.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

Comentários estão fechados.

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais