Victor Emanoel Lima de Oliveira
Universidade Federal de Sergipe
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Assistir a filmes em Aracaju, no Cine Vitória, Guarany, Palace ou Aracaju, em meados do século XX, exigia mais do espectador do que atualmente. Se hoje a escolha de um filme, por vezes, passa apenas pela opinião de uma postagem de um influenciador ou pelas recomendações de um aplicativo de streaming, no século passado, a população da capital sergipana dependia de veículos de informação, como o rádio ou os jornais impressos, para escolher o filme que assistiria no cinema, a partir da exibição da programação semanal.
O jornal A Cruzada se destacava entre os periódicos que tinham esse costume de exibir a programação das salas em Aracaju. Vinculado à Igreja Católica, o jornal não se limitava a divulgar os filmes, mas também os submetia a uma censura. Essa análise dos títulos era feita pelo Departamento Nacional de Cinema e Teatro da Ação Católica Brasileira, no Rio de Janeiro, e difundida para o Brasil.
Os critérios que a Ação Católica Brasileira (ACB) adotava revelavam o rigor moral da época. O musical Dá-me um Beijo (1953), por exemplo, foi tachado como impróprio para jovens por tratar do divórcio com “leviandade” e exibir “bailados inconvenientes”. Nem mesmo os clássicos infantis saíam ilesos, a reprise do desenho Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, foi recomendada para todos, mas com a curiosa ressalva de conter “restrições para crianças impressionáveis”, já que, segundo a censura, continha trechos considerados assustadores.
Filmes musicais nacionais, que geralmente continham marchinhas carnavalescas, constantemente eram condenados pelo jornal, ou seja, desaconselhados para todos os públicos, já que o carnaval era uma festa considerada imoral pela Igreja. Produções como Fogo na Roupa (1955) e Guerra ao Samba (1956) exemplificam isso. O último citado chama a atenção por ser um filme que satiriza essa censura ao carnaval, e ironicamente, foi censurado.
Essa vigilância da imprensa religiosa mostra como Aracaju viveu o século XX, de um lado, a atração irresistível do progresso e da modernidade hollywoodiana, do outro, a tentativa contínua das instituições tradicionais de controlar o impacto das telas sobre o comportamento da sociedade sergipana. Além disso, nos mostra as transformações ocorridas no ato de consumir filmes. Se hoje podemos escolher um filme com poucos cliques e temos maior liberdade para decidir o que queremos assistir, nos anos 1950, essa escolha também passava pelos julgamentos morais de instituições como a Igreja Católica.
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