As esquerdas estão indóceis.

As esquerdas estão indóceis

 

A julgar pelo noticiário e pela temperatura desta reta final eleitoral, as esquerdas estão indóceis.

Há uma razão bastante simples: depois de tudo quanto aconteceu, Lula da Silva não conseguiu enterrar politicamente aquele a quem alguns, julgando-se espirituosos, chamam de “Capitão de pijama”.

Ponho a expressão entre aspas porque o gracejo pertence aos outros. E, quanto às preferências alheias, convém recordar o velho brocardo: De gustibus, coloribus et amoribus non est disputandum.

De gostos, cores e amores não se discute.

Pode-se, quando muito, lamentá-los — sobretudo os dos outros, porque os nossos, por misteriosa coincidência, sempre nos parecem excelentes.

Em período eleitoral, contudo, pedir parcimônia às paixões é quase pedir continência ao vento.

E alguma coisa sopra.

Não digo que o país inteiro tenha mudado de lado. Pesquisas existem precisamente para impedir que transformemos nossa torcida particular em vontade nacional. Mas uma constatação parece difícil de negar: o bolsonarismo que tantos anunciaram morto continua eleitoralmente vivo.

Prenderam o Capitão; não prenderam seus eleitores.

Tiraram-no da urna; não o tiraram da eleição.

E talvez esteja aí a maior contrariedade de seus adversários.

Jair Bolsonaro permanece ausente e, paradoxalmente, presente. Não disputa a Presidência, mas sua sombra disputa. Não sobe ao palanque como candidato, mas continua frequentando os palanques dos outros. E seu filho, Flávio Bolsonaro, transformou-se numa candidatura competitiva à Presidência.

Esse fato deveria recomendar reflexão.

Recomenda, porém, indignação.

As ruas voltaram a vestir-se de verde e amarelo, e cada multidão passa imediatamente pelo tribunal das interpretações: para uns, manifestação democrática; para outros, reunião de fanáticos. Curiosamente, multidão amiga é sempre “sociedade civil”; multidão adversária costuma virar “massa de manobra”.

É uma dessas maravilhas semânticas que somente a política consegue produzir.

Não é preciso santificar Bolsonaro para perceber a anomalia. Aliás, santificá-lo seria repetir, apenas com sinal trocado, o mesmo vício de quem pretende demonizá-lo.

Homens públicos não são santos nem demônios.

São homens públicos.

Devem ser julgados por seus atos, inclusive severamente, mas não convertidos em criaturas metafísicas conforme a conveniência da torcida.

Foi exatamente essa transformação da política em religião secular que nos trouxe até aqui.

De um lado, os autoproclamados defensores da democracia; do outro, os autoproclamados defensores da liberdade. Cada qual desconfia que Deus, a História e o povo assinaram procuração exclusivamente em seu favor.

E quem discorda passa rapidamente de adversário a inimigo.

É aí que mora o perigo.

A História oferece exemplos suficientes do que acontece quando a divergência política deixa de ser respondida pela palavra e passa a ser resolvida pela eliminação do divergente.

César caiu sob punhais. Lincoln, sob uma bala. Jean Jaurès foi assassinado às vésperas da Primeira Guerra. Martin Luther King Jr. morreu porque seu sonho incomodava. Gandhi, Sadat, Rabin e Benazir Bhutto conheceram, cada qual em circunstâncias muito diferentes, o mesmo ponto final imposto pela intolerância armada.

Entre nós, Jair Bolsonaro quase morreu em Juiz de Fora.

Marielle Franco morreu no Rio de Janeiro.

Não deveriam importar aqui as posições políticas de um ou de outro. Quando a faca ou a bala substituem o argumento, não existe direita ou esquerda vitoriosa.

Existe apenas a política derrotada.

Henrique IV da França talvez ofereça uma lembrança ainda mais instrutiva. Protestante convertido ao catolicismo, associado à célebre frase de que “Paris vale bem uma missa”, procurou pacificar uma França dilacerada pelas guerras religiosas e promulgou o Édito de Nantes em 1598, assegurando direitos aos huguenotes.

Terminou assassinado por François Ravaillac.

A intolerância tem esse inconveniente: começa pretendendo silenciar palavras e pode terminar imaginando que precisa silenciar pessoas.

Por isso me inquieta menos o radical que grita do que o ambiente intelectual que começa a considerar certos adversários indignos de falar.

A democracia não exige que gostemos deles.

Exige exatamente o contrário: que toleremos politicamente até aqueles de quem profundamente desgostamos.

É também por isso que tenho reservas diante da transformação do 8 de Janeiro numa espécie de dogma interpretativo, diante do qual qualquer pergunta passa a ser suspeita. Crimes devem ser individualizados, provados e punidos segundo a lei; abusos do Estado, se houver, também devem ser investigados. Justiça que não admite perguntas começa perigosamente a pedir fé.

O mesmo vale para as urnas eletrônicas.

Há mecanismos oficiais de auditoria, testes de integridade e fiscalização. Discutir se são suficientes, se deveriam ser ampliados ou se mecanismos adicionais aumentariam a confiança pública é perfeitamente legítimo. O que uma democracia segura de si não deveria temer é justamente a pergunta.

Pergunta não derruba democracia.

Às vezes, fortalece-a.

O que me parece curioso nesta eleição é outra coisa.

Depois de anos anunciando o fim político de Bolsonaro, seus adversários descobrem que não basta retirar o homem da urna para retirar da urna aquilo que ele representa.

O pai está preso.

O filho disputa.

E milhões continuam votando.

Pode-se gostar disso ou detestar. O voto não exige licença estética.

E aqui volto ao começo: de gustibus non est disputandum.

Talvez seja precisamente isso que esteja deixando alguns tão indóceis.

Porque derrotar um adversário nos tribunais, nas redações, nas universidades ou nas redes sociais é uma coisa.

Derrotá-lo na cabeça do eleitor é outra muito diferente.

No domingo, chegará a única pesquisa que efetivamente distribui mandatos: a urna.

Até lá, seria prudente que todos — direita e esquerda — conservassem os argumentos afiados e as armas embainhadas.

Porque democracia não é o regime em que vence sempre quem consideramos virtuoso.

É o regime em que se aceita que o vizinho tenha o péssimo gosto de votar justamente naquele que detestamos.

E sobreviveremos a tamanho desaforo.

Foi para isso, afinal, que inventaram a democracia.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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