Por que não falar de Maria?

O mistério da Virgem Maria.

 

De repente mexeram com Nossa Senhora, a pequenina imagem de Nossa Senhora Conceição Aparecida, tão pequenina e singela!

Ela estava sempre terna, recolhida, sem a ninguém incomodar.

Espíritos miúdos, porém, entenderam utilizar seu santo manto como estandarte de discórdia.

As prévias eleitorais ensejam estas cizânias, mexendo-se até com quem está distante de qualquer refrega.

“Calomniez, calomniez, il en restera toujours quelque chose”, dissera um dia o filósofo Francis Bacon, talvez inspirado em Plutarco, por mais antigo, mais preciso e contundente: “Audacter calumniare, semper aliquid haeret” ; Calunie audaciosamente, algo sempre gruda, sempre agarra e enodoa.

E também, por que não? Suavizar, dourando a pílula, dotando-a de alguma inocência, mesmo que sonsa:  Que mal faz, se algo sempre fica no mal plantio de uma calúnia?

Que mal se faz também, se tudo cola bem contra o clã Bolsonaro? Eles não representam desde a inoculação da Covid a encarnação do capeta?

Que o digam, tantos anjos que escrevem acusações ofídicas contra o “Capitão-de-pijama”, Jair Messias Bolsonaro, aquele que cumpre estoica e heroicamente uma carceragem imerecida em sua casa, só por enfermidade reconhecida, justiçado, martirizado e torturado, e ali jogado por seus inimigos, vertidos como ilibados julgadores, mas que só vestiram a toga, para desvirtuá-la, a seu serviço, e não da lei e da verdade, usando-a como arma política persecutória a todos que deles venham divergir.

Uma assertiva cada vez confirmável se as pedras do caminho puderem um dia falar, como já se prenunciou enquanto meigo  alarido, sem motim, e sem bramido, no resultado auferido no 1º turno eleitoral, que passou, contra tudo que se demonizou nesse país e que vem crescendo em rejeição, simplesmente.

Um halo suave que se ouviu nos amplos recônditos deste Brasil inercial, gigante inzoneiro,  pacífico e pacificador, dito melhor por bom de samba e de pandeiro, no nosso melhor cancioneiro, que nunca se quis insolente e incomodado, violento e perseguidor, nem nos idos, piores por “sanguinários” e “atrabiliários”, do terrível regime militar, a nossa “Ditadura”, mais que famosa, só para compadecer ao mundo inteiro, que até, por pouca e rala sangria, podemos mais mal cometer quando  seletivamente choram infindas “Marias e Clarisses e até o irmão desconhecido do engraçado cartunista Henfil”, desde que não pintem  uma estatua do Supremo Tribunal com um batom, em novo tom, ou semitom, porque ai ninguém sorri, nem faz rir.

Gracejos e baculejos à parte, eis aquela verve jocosa da pimenta que refresca a retina desde que não seja de nossa pertença, nem a título de colírio.

Mas não é de política que eu pretendo falar, sobretudo agora que Sergipe foi convocado a dobrar sua fé Lulista no 2º Turno que se aproxima.

Como sei que isto não vai acontecer, irei primeiro transcrever um artigo de Jean Marie Guénois, (renomado jornalista e vaticanista francês, redator-chefe do jornal francês Le Figaro, onde é responsável pelas páginas de religião e coberturas sobre o Vaticano), texto publicado no já distante 15 de agosto, data em que a Igreja comemora o dia da Assunção  de Maria aos Céus.

O tema vale transcrever afinal o Mistério de Maria enseja renovadas discussões entre crentes e descrentes, muitos devotos e outros muitos incomodados.

Vamos ao texto, por mim vertido à língua pátria, antes transcrevendo uma fotografia da matéria como foi publicada.

 

Artigo de Jean Marie Guénois no Le Figaro.
Artigo de Jean Marie Guénois no Le Figaro

O mistério da Virgem Maria continua a fascinar o mundo.

A Virgem Maria continua sendo um dos grandes mistérios do catolicismo. Ela é particularmente honrada nesta festa da Assunção por 1,4 bilhão de fiéis em todo o mundo. Na França, o santuário de Lourdes estará lotado no sábado, com cerca de 21 mil pessoas esperadas para a 153ª Peregrinação Nacional, presidida este ano pelo cardeal Jean-Paul Vesco, arcebispo de Argel, religioso dominicano franco-argelino. A Virgem Maria também será fervorosamente invocada em centenas de outros lugares, no contexto do renovado impulso da piedade popular observado nos últimos anos.

Maria ocupa, de fato, um lugar de grande importância na Igreja Católica. Por que, de outro modo, Leão XIV dedicaria dois dias a Lourdes — mais tempo do que a Paris e Metz — durante sua visita à França, prevista para o fim de setembro? No sábado, o papa americano celebrará devotamente a Assunção na igreja paroquial de Castel Gandolfo, onde instalou sua residência de verão. Essa festa continua sendo um dos cinco grandes momentos espirituais do ano litúrgico — ao lado da Páscoa, do Natal, de Todos os Santos e de Pentecostes — nos quais os católicos manifestam seu profundo apego àquela que, segundo a tradição cristã, é a “mãe de Jesus”.

A festa da Assunção comemora o fim da “vida terrena” de Maria, segundo o Catecismo da Igreja Católica: ela “foi elevada em corpo e alma à glória do céu” e “exaltada pelo Senhor como Rainha do universo”. Em 1950, essa fé na Assunção foi, aliás, definida como dogma pelo papa Pio XII. Um dogma, afirma ainda o Catecismo, “obriga” os católicos a “uma adesão irrevogável de fé” a respeito de “verdades contidas na Revelação divina”.

A Assunção é, portanto, o último dos quatro dogmas marianos proclamados pela Igreja. O anterior, a Imaculada Conceição, foi proclamado por Pio IX em 1854. O primeiro dogma, o da maternidade divina, remonta ao Concílio de Éfeso, em 431, quando Maria foi denominada Theotokos, isto é, “Mãe de Deus”. O segundo, o da virgindade perpétua, foi formulado no Segundo Concílio de Constantinopla, em 553, e posteriormente definido no Sínodo de Latrão, em 649.

O mistério da Virgem Maria, portanto, não constitui assunto secundário nas Igrejas cristãs, pois a piedade mariana mergulha suas raízes nas próprias fontes bimilenares do cristianismo. Maria é também extraordinariamente venerada em todas as Igrejas ortodoxas. Quanto às tradições protestantes, que romperam com Roma em 1517, elas respeitam Maria, embora não demonstrem a mesma devoção que católicos e ortodoxos — devoção que, aliás, criticam. Levando tudo isso em conta, mais da metade da humanidade estaria, religiosa e mais ou menos diretamente, relacionada à figura da Virgem Maria.

Daí a considerá-la a mulher “mais poderosa” da história da humanidade vai apenas um passo — passo dado por Virginie Girod, doutora em História. Em seu livro Marie, a ser publicado pelas Éditions Perrin em outubro próximo, ela apresenta a “Mãe de Deus” sob uma perspectiva original: inicialmente histórica, depois política e, naturalmente, religiosa.

“Maria é a mulher mais representada em todo o mundo e também a mais conhecida, inclusive entre os não católicos. Está, por exemplo, muito presente no Alcorão. Desde o século II de nossa era, ela é venerada e substitui progressivamente as divindades femininas dos panteões pagãos. Ao lado dela, as Agripinas, as Catarinas de Médici ou as Catarinas II da Rússia parecem muito pequenas!”, explica ao Figaro a historiadora que há vinte anos trabalha sobre as mulheres poderosas da História, particularmente da Antiguidade.

A jornalista da revista História investigou todas as aparições marianas: “Há muito mais do que se imagina. Nenhum historiador havia ainda realmente considerado Maria como uma mulher política; no entanto, a Rainha do Céu o é à sua maneira. Sua ação sobre o mundo nunca cessa.”

Como explicar semelhante destino?

“Maria encarna a face mais doce e talvez a mais humana do cristianismo”, considera Virginie Girod. “Daí o interesse que desperta até mesmo entre os ateus. Sua beleza e sua dimensão materna fazem dela uma personagem menos intimidante que o Cristo na cruz. Todos têm uma mãe; por isso é fácil projetar sobre ela um amor filial. Descobre-se então, por vezes, a imagem de uma mulher acessível, de uma rainha humilde, de uma santa acolhedora a quem se pode pedir tudo.”

Esse “pedir-lhe tudo” suscita também uma questão teológica que Leão XIV recentemente voltou a colocar em evidência. A Virgem Maria ocupa efetivamente um lugar eminente na oração e na espiritualidade cristãs. A Igreja Católica, contudo, acompanha de perto essa devoção para evitar eventuais desvios — na realidade raríssimos — nos quais Maria viesse a ocupar, no coração de certos fiéis, o lugar de Cristo ou mesmo o lugar de Deus.

É nesse contexto que se insere a decisão tomada pelo Vaticano em 7 de outubro de 2025, relativa a uma das expressões desse poder místico de Maria. Ela está contida em um de seus títulos controversos: “Corredentora”.

Uma nota doutrinal intitulada Mater Populi fidelis, aprovada por Leão XIV e assinada pelo cardeal Victor Manuel Fernandez, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, estabelece, em nome de uma “autêntica devoção mariana”, que expressões como “Maria Corredentora” devem doravante “ser evitadas”, para não conduzirem a uma “compreensão equivocada da figura de Maria”.

O que significa esse risco para o comum dos mortais?

A palavra “redenção” designa um elemento fundamental da fé cristã, que poderia ser resumido assim: o Filho de Deus, Jesus, dado à luz por Maria, segundo a teologia cristã, encarna-se na humanidade. Sua missão na Terra consiste em propor uma nova “aliança” entre Deus e os homens, fundada no amor e na misericórdia, a fim de salvá-los do mal e permitir-lhes alcançar a salvação eterna após a morte.

Pelo sacrifício de sua morte na cruz — prova suprema do amor de Deus pelos homens, segundo a visão cristã —, Cristo realiza uma obra de resgate do pecado e do mal da humanidade. Esse é o sentido profundo da palavra “redenção”.

Entretanto, considerando o papel desempenhado por Maria na vida de Cristo e o poder de sua “intercessão” por meio da oração, do qual tantos fiéis dão testemunho, muitos católicos e diversos papas consideraram, ao longo dos séculos, que ela mereceria o título de “Corredentora”.

É precisamente isso que a Igreja Católica agora rejeita, sem, contudo, diminuir o papel de Maria. O novo documento pretende “preservar o equilíbrio necessário” entre “a única mediação de Cristo” e “a cooperação de Maria” nessa “obra de salvação”.

Esse debate teológico vem de longe. Surge no século XV e apoia-se em dois aspectos da obra da Virgem Maria.

O primeiro diz respeito a “Maria, enquanto mãe”, que “tornou possível a redenção realizada em Cristo”, observa o texto do Vaticano.

O segundo reconhece “a união de Maria com Cristo junto à cruz redentora”, associando-a aos sofrimentos do Calvário.

Ocorre, porém, que João Paulo II — assim como outros papas antes dele — utilizou também “ao menos sete vezes” a expressão “Maria Corredentora”, reconhece o próprio texto.

Constata-se ainda que o Concílio Vaticano II evitou cuidadosamente esse título “por razões dogmáticas, pastorais e ecumênicas” e que os três últimos papas, Bento XVI, Francisco e Leão XIV, procuraram limitar seu uso.

Quando ainda era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Ratzinger, futuro Bento XVI, considerou, por exemplo, durante uma consulta oficial sobre a questão, em 1996, que a expressão Maria “Corredentora” constituía um “termo equivocado”:

“A fórmula ‘Corredentora’”, observava ele, “está demasiado afastada da linguagem das Escrituras”, o que “provoca mal-entendidos”, pois “tudo procede” de Cristo.

“Maria é aquilo que é graças a Ele.”

Ora, “a palavra ‘Corredentora’ obscureceria essa origem”.

Na mesma linha, o papa Francisco — que escolheu o cardeal Fernandez, signatário da nota — pronunciou-se “claramente”, lembra o documento, contra essa denominação:

“A Virgem jamais quis tomar para si algo que pertencesse a seu Filho. Nunca se apresentou como Corredentora.”

O papa argentino insistia:

“Há um só Redentor, e esse título não se duplica.”

Isso leva o cardeal Fernandez a concluir, após trinta páginas de argumentos e referências:

“O emprego do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria é sempre inoportuno. Esse título corre o risco de obscurecer a única mediação salvífica de Cristo e pode, portanto, gerar confusão. (…) Não presta serviço à fé do povo de Deus e torna-se inconveniente.”

Consequentemente, “não é lícito apresentar a ação de Maria como se Cristo necessitasse dela para realizar a salvação”.

Diante da agitação pastoral provocada por essa declaração, o Vaticano esclareceu recentemente que o controverso termo “Corredentora” efetivamente deixará de ser empregado nos textos oficiais e litúrgicos da Igreja, mas que isso não representa uma “proibição absoluta” de seu uso como expressão de piedade popular, desde que seu significado seja corretamente compreendido.

O esclarecimento foi feito por dom Maurizio Gronchi, consultor especializado nesse tema junto à Congregação para a Doutrina da Fé.

Enquanto isso, a decisão tranquiliza os círculos progressistas, mas continua preocupando a ala tradicionalista da Igreja.

O padre Claude Barthe, sacerdote diocesano, cofundador da revista Catholica e capelão da peregrinação tradicionalista Summorum Pontificum, explica:

“Não fiquei surpreso quanto ao conteúdo, pois sabia que uma reunião de trabalho sobre a inconveniência dos títulos de Corredentora e de Medianeira de todas as graças havia ocorrido na Congregação para a Doutrina da Fé, no final do pontificado do papa Francisco, e que o cardeal Prevost, para quem esse assunto tinha importância, havia participado dela.”

Mas acrescenta:

“Fiquei surpreso com o fato de a Mater Populi fidelis ir tão diretamente contra o ensinamento de uma série de papas: Leão XIII, Pio X, Bento XV e Pio XI.”

Na realidade, resume esse atento observador da Igreja Católica, “essa medida do Dicastério para a Doutrina da Fé pretende rejeitar, de uma vez por todas, os pedidos em favor de um novo dogma mariano referente a Maria Corredentora”.

Não haverá, portanto, a priori, um quinto dogma mariano.

Teóloga e autora de uma obra de referência sobre “A Imaculada Conceição, Pedra Angular da Criação”(L’Immaculée Conception, Clé de voûte de la Création, Via Romana), Michèle Reboul declara-se, por sua vez, “muito chocada com essa decisão”.

Naturalmente, reconhece a antiga colaboradora do escritor católico Jean Guitton, “muitos católicos não sabem que Maria é Corredentora e Medianeira, nem o que esses termos significam”.

Embora ressalte que essa “nota” do Vaticano não é “infalível”, ela considera que um de seus objetivos reais seria também “agradar aos protestantes”.

A renomada teóloga e biblista Anne Soupa vê a questão de outra maneira. Ela publicou recentemente Marie telle que vous ne l’avez jamais vue — “Maria como você nunca a viu” —, pela editora Salvator, e afirma “apreciar o fato de o Magistério adotar uma posição clara sobre esse assunto, em continuidade com posições convergentes” desde o Concílio Vaticano II, no qual “a Igreja prega um único mediador, Cristo Jesus”.

Ela, contudo, adverte:

“É preciso compreender bem que chamar Maria de ‘Corredentora’ acarretaria uma imensa questão teológica. Isso acrescentaria uma quarta figura à Santíssima Trindade e faria de Maria uma deusa, quase por direito próprio. Ora, isso é contrário à Revelação, que anuncia um Deus trinitário: Pai, Filho e Espírito.”9

Ela, porém, faz uma ressalva: se o assunto está “resolvido”, do “ponto de vista magisterial”, isso “não exclui nem a piedade mariana nem a intercessão de Maria, pois esta continua sendo uma figura familiar, com a qual qualquer pessoa pode facilmente se identificar. É importante reconhecer isso e sempre mostrar como a própria Maria buscou sua salvação junto de seu Filho.”

J.-M. G.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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