Uma aragem de mudança — sinal dos tempos?
Há resultados eleitorais que fazem mais do que distribuir mandatos: revelam humores, cansaços, desconfianças e, vez por outra, alguma mudança subterrânea no espírito de uma sociedade.
A dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e o fortalecimento da direita no Senado e na Câmara sugerem uma dessas ocasiões.
A disputa presidencial permanece aberta, mas o recado das urnas já permite uma pergunta que talvez seja mais importante que o próprio resultado: estamos diante de uma circunstância apenas brasileira ou de uma manifestação do Zeitgeist, o espírito do tempo?
A pergunta merece mais atenção do que comportam as comemorações dos vencedores e, principalmente, as engenhosas explicações dos vencidos.
Seria precipitado anunciar o crepúsculo das esquerdas?
Certamente.
As esquerdas possuem admirável capacidade de sobrevivência. Mimetizam-se, mudam o vocabulário, trocam bandeiras por eufemismos e, quando necessário, acomodam-se em alianças com aqueles a quem antes chamavam, não sem certo desprezo, de “pragmáticos”.
Talvez por isso caiba uma pergunta incômoda: entre tantos vencedores, quantos ainda se apresentam, sem circunlóquios e sem disfarces semânticos, simplesmente como homens e mulheres de esquerda?
Também seria pobre reduzir o resultado à propaganda, às redes sociais ou — argumento sempre muito cômodo — à incapacidade do eleitor de compreender os próprios interesses.
Há nisso uma curiosa concepção de democracia: o povo é soberano quando vota em nós; quando vota nos outros, tornou-se vítima da desinformação.
Democracia um pouco estranha essa.
A democracia verdadeira exige reconhecer no voto alheio alguma capacidade de discernimento, inclusive — e principalmente — quando ele contraria nossas convicções.
Parece haver no ar uma aragem de mudança. Ainda desigual, sujeita a desvios e contradições, mas perceptível.
Talvez o que esteja aparecendo seja uma fadiga diante de determinadas promessas e, sobretudo, da distância cada vez maior entre a generosidade de sua formulação e a modéstia de seus resultados.
O cenário internacional oferece elementos para essa hipótese.
A experiência de Giorgia Meloni na Itália e o crescimento eleitoral da AfD na Alemanha revelam a força de correntes que desafiam consensos políticos até recentemente apresentados quase como cláusulas pétreas da civilização ocidental.
São movimentos distintos e seria intelectualmente preguiçoso reuni-los todos sob uma mesma definição. Ainda assim, é igualmente preguiçoso fingir que nada significam.
Há parcelas expressivas do eleitorado procurando respostas fora daquele repertório que, durante décadas, lhes foi oferecido não apenas como politicamente correto, mas como moralmente obrigatório.
Talvez parte das esquerdas tenha perdido a capacidade — ou simplesmente a disposição — de ouvir inquietações que considera inconvenientes ou mal formuladas: o medo da violência, a insegurança econômica, o desconforto diante de mudanças culturais excessivamente rápidas, a preocupação com fronteiras, pertencimento, identidade e continuidade histórica.
Essas inquietações podem conter exageros, equívocos e contradições. Mas não deixam de existir porque algum intelectual decidiu considerá-las indignas.
Quem procura representação política deseja, antes de tudo, que sua experiência seja reconhecida. Quando não encontra quem a escute, procura quem ao menos pareça disposto a fazê-lo.
Nesse ambiente, até o Estado de bem-estar social europeu passou a enfrentar cobranças mais severas.
Seria insensato negar suas conquistas: proteção na velhice, acesso à saúde, amparo ao desempregado e redução de vulnerabilidades sociais.
Convém recordar, inclusive, que essa construção histórica contou também com democratas-cristãos e conservadores, não sendo propriedade registrada da esquerda.
O problema começa quando a generosidade da promessa encontra a aritmética implacável de seu financiamento.
Porque há uma pergunta desagradável que nenhum discurso consegue abolir: quem paga?
E outras duas vêm logo atrás: quanto paga e por quanto tempo conseguirá continuar pagando?
O cidadão pode desejar preservar a proteção social e, simultaneamente, exigir eficiência, critérios, responsabilidade e sustentabilidade. Talvez a desesperança recaia menos sobre a solidariedade do que sobre os administradores profissionais da solidariedade — pródigos na promessa e nem sempre igualmente talentosos na entrega.
O Brasil possui instituições, carências e trajetória histórica próprias. A comparação com a Europa serve para formular perguntas, não para importar conclusões.
Por aqui, também é necessário distinguir conservadorismo, oposição à esquerda e adesão circunstancial a uma candidatura. Uma maioria parlamentar congrega interesses diversos e não constitui, por milagre eleitoral, uma unidade filosófica.
Mesmo feitas todas essas ressalvas, seria imprudente fechar os olhos à convergência dos sinais.
Talvez esteja perdendo força a crença de que basta aumentar o Estado, multiplicar direitos no papel e repetir as mesmas teses para restaurar a confiança no futuro.
Talvez o eleitor esteja se mostrando menos interessado na pureza das intenções e mais curioso acerca dos resultados.
E isso impõe responsabilidade igualmente severa à direita. Viver do desgaste do adversário é eleitoralmente possível; governar apenas dele é impossível. A confiança recebida precisa transformar-se em segurança, prosperidade, serviços públicos, responsabilidade fiscal e respeito às instituições.
A fadiga que hoje castiga um campo político poderá amanhã voltar-se, com a mesma desenvoltura, contra o outro.
Seria, então, um sinal dos tempos?
Talvez.
Não propriamente o desaparecimento da esquerda, porque ideias políticas raramente morrem com a solenidade desejada pelos seus adversários. Antes definham, transformam-se, trocam de nome, ressurgem e, algumas vezes, acabam derrotadas justamente pela distância entre aquilo que prometeram e aquilo que conseguiram entregar.
Talvez seja isso que esteja acontecendo: não uma esquerda lançada definitivamente ao estuário da História, mas uma esquerda obrigada a navegar em águas cada vez mais rasas, carregando no porão promessas envelhecidas, frustrações acumuladas e explicações que já não convencem como antes.
E há algo particularmente revelador nisso.
Durante anos, uma parte do debate político tentou construir verdadeiros cordões sanitários em torno de adversários, empurrando-os para fora do espaço considerado moralmente aceitável mediante uma sucessão de rótulos: “golpistas”, “negacionistas”, “extremistas” e outros tantos carimbos de pronta utilização.
O problema dos rótulos é que eles funcionam enquanto o eleitor aceita ser por eles conduzido.
Quando deixam de funcionar, transformam-se em simples ruído.
Talvez seja essa uma das mensagens que mereçam ser ouvidas agora: não é o eleitor que tem obrigação de caber no vocabulário dos formadores de opinião; são os formadores de opinião e os partidos que precisam compreender o eleitor.
Nesse quadro, o bolsonarismo — goste-se dele ou não — demonstra capacidade de permanência e mobilização que torna difícil tratá-lo como episódio passageiro da política brasileira. O fenômeno que tantos esperavam ver dissolvido continua a produzir consequências eleitorais e parlamentares que exigem explicações mais sérias do que a simples repetição dos velhos anátemas.
Chamá-lo de “rebotalho” não o elimina. Cercá-lo de adjetivos não o explica. E imaginar que seus eleitores desaparecerão porque foram devidamente classificados em alguma taxonomia ideológica talvez seja apenas uma maneira sofisticada de não compreender o que está acontecendo.
Daí a pergunta final.
Seria ainda prematuro dizer que as esquerdas saíram duramente atingidas desta última refrega eleitoral?
Certamente.
Mas talvez seja ainda mais temerário fingir que nada aconteceu.
Sobretudo quando a aragem começa a soprar onde antes se julgava que nem sequer houvesse vento.
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