
Em meio às dificuldades recentes de abastecimento de insulina no Sistema Único de Saúde (SUS), a fábrica da Novo Nordisk em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, mantém capacidade para voltar a fornecer insulina humana ao sistema público brasileiro. Dinamarquesa, a Novo Nordisk está presente no Brasil desde 1990 e, segundo a empresa, é a terceira maior multinacional da indústria farmacêutica no país. A unidade, apresentada pela farmacêutica como a maior fábrica de insulinas da América Latina, foi visitada pela reportagem do Portal Infonet e é uma das principais estruturas da empresa no mundo.
A relação da Novo Nordisk com o SUS é histórica. Entre 2018 e 2024, a empresa forneceu ao sistema público as canetas de insulina utilizadas no tratamento de pacientes. Em 2024, diante do crescimento da demanda mundial e também da necessidade brasileira, a farmacêutica entregou, em seis meses, praticamente todo o volume previsto em contrato para um ano.
A antecipação ajudou a reforçar os estoques do SUS naquele período. Com o avanço da demanda, porém, a empresa não conseguiu atender integralmente ao volume brasileiro enquanto também abastecia outros mercados. O Ministério da Saúde precisou, então, buscar fornecedores alternativos.

“De 2018 até 2024, a gente forneceu todas as canetas necessárias para o SUS. Nesse período, a demanda global por insulina cresceu muito rapidamente, e a fábrica estava funcionando em escala 24 por 7 para atender aos pedidos de diferentes países. Em 2024, conseguimos fornecer cerca de 50 milhões de canetas ao SUS, mas não foi possível atender 100% do volume. O Ministério ficou preocupado com o fornecimento e, a partir disso, precisou buscar outros fornecedores. Agora, estamos tentando retomar essa oferta e voltar a ser parceiros do SUS também no fornecimento de insulinas humanas”, explica Daniel Flento, head de Assuntos Corporativos e Comunicação da Novo Nordisk no Brasil.
Capacidade reservada para o Brasil
Agora, a Novo Nordisk diz estar preparada para ampliar novamente sua participação no fornecimento de insulinas humanas ao SUS. A fábrica de Montes Claros mantém capacidade produtiva reservada para o mercado brasileiro, mas a empresa aguarda os próximos processos de aquisição do Ministério da Saúde.
A definição dos volumes com antecedência é considerada fundamental para o planejamento da produção, já que a unidade mineira também atende a outros países. Segundo a Novo Nordisk, aproximadamente um quarto de toda a produção de insulina da farmacêutica passa pela fábrica de Montes Claros. A unidade responde ainda por cerca de 12% da insulina consumida no mundo.

“Hoje temos sinalizado que conseguimos novamente abastecer o SUS. Estamos aguardando o Ministério da Saúde publicar o pregão das insulinas para podermos participar e, esperamos, vencer, garantindo um fornecimento mais estável de insulinas produzidas no Brasil para o Brasil. Como a Novo Nordisk também fornece para muitos outros países, estamos ansiosos por essa definição, porque temos uma fila de países que também demanda essa capacidade”, destaca Daniel.
Produção nacional
Para a Novo Nordisk, a retomada do fornecimento de insulina humana a partir de Montes Claros também representa uma vantagem estratégica para o SUS. Além de manter no país uma estrutura de produção do medicamento, a operação movimenta empregos e gera impacto econômico.
“A gente consegue garantir um fornecimento estável a partir de Montes Claros. A fábrica tem todo um impacto no país, por conta das operações e dos empregos que gera. Então, o SUS tem uma produção nacional, empregos nacionais e também uma garantia de fornecimento”, afirma Daniel.
Segundo números apresentados pela Novo Nordisk durante a visita de jornalistas à fábrica, a empresa possui mais de 2 mil funcionários no Brasil. Considerando os empregos indiretos e induzidos pela operação, a estimativa é de 59 mil postos de trabalho relacionados à atividade da companhia no país. A operação também possui impacto de R$ 9,1 bilhões por ano no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, segundo dados apresentados pela empresa.

A relação com o sistema público, segundo Daniel, também se estende a períodos de dificuldade no abastecimento. Ele afirma que a fábrica já foi acionada pelo Ministério da Saúde mesmo quando não havia contrato vigente. “A gente nunca rompeu o contrato, nunca atrasou. Ao contrário, fomos chamados algumas vezes pelo Ministério, mesmo quando não tínhamos contrato para abastecer o SUS, porque algum outro fornecedor falhou”.
Fornecimento atual ao SUS
A Novo Nordisk continua presente no mercado público brasileiro. A farmacêutica venceu o pregão para o fornecimento da insulina análoga de ação rápida NovoRapid, com entregas previstas para 2026 e 2027. O fornecimento contempla uma expansão gradual do atendimento de pacientes com diabetes tipo 1 para também alcançar pessoas com diabetes tipo 2.
Já em relação às insulinas humanas NPH e Regular, a empresa afirma ter compromisso de produção local de até 125 milhões de unidades entre 2026 e 2028, caso seja contratada pelo Ministério da Saúde. A definição dos novos volumes destinados ao SUS depende, portanto, dos próximos processos de aquisição.
Brasil como prioridade
A fábrica de Montes Claros atende a uma demanda internacional e precisa conciliar a produção destinada ao Brasil com os pedidos de outros países. Ainda assim, a Novo Nordisk afirma que pretende manter o mercado brasileiro entre suas prioridades.
“A gente também sente uma responsabilidade pelo Brasil. A fábrica fica aqui, e o SUS é um dos maiores sistemas universais de saúde do mundo. A gente quer continuar fornecendo, porque isso faz parte da nossa história. Ao mesmo tempo, temos uma rede de fábricas que também consegue fornecer para outros países, então existe uma dinâmica muito complexa para atender o mundo inteiro. Mas a nossa prioridade é o Brasil”, conclui.
Ministério da Saúde
Em contato com a equipe de reportagem do Portal Infonet, o Ministério da Saúde informou que abriu um novo pregão para a aquisição de mais de 67 milhões de unidades de insulina humana NPH e regular para assistência no SUS. A sessão pública será realizada no dia 25 de setembro.
Por Verlane Estácio
Reportagem realizada em Montes Claros (MG), a convite da Novo Nordisk

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