Psicóloga explica os lutos invisíveis nas diferentes fases da vida

Psicóloga e gestalt-terapeuta Elen Paesante explica como perdas que vão além da morte, como separações e mudanças na rotina, podem exigir reorganização emocional

Psicóloga Elen Paesante (Foto: Eloísa Carregosa)

A perda de alguém querido é uma das experiências mais associadas ao luto, especialmente neste 2 de novembro, Dia de Finados. Mas o sofrimento também pode surgir em outras situações, como o fim de um relacionamento, a aposentadoria, a saída dos filhos de casa ou a perda da autonomia. Embora nem sempre sejam reconhecidas como motivos de luto, essas experiências também podem exigir tempo para serem elaboradas.

Psicóloga e gestalt-terapeuta, especialista em Arteterapia e Ecopsicologia, Elen Paesante é fundadora do Instituto de Gestalt-terapia Elen Paesante, em Aracaju. Com 30 anos de trajetória profissional, ela explica que as perdas que não envolvem a morte de alguém também podem provocar sofrimento e exigir uma reorganização emocional.

“O luto é uma experiência intrínseca à existência humana. Embora seja frequentemente associado à morte de alguém querido, também o vivenciamos quando um relacionamento termina e a pessoa deixa de fazer parte do nosso dia a dia, ou quando mudamos de profissão após anos exercendo o mesmo ofício. Quando o indivíduo se aposenta ou quando os filhos saem de casa, o luto também se faz presente. Toda perda significativa exige um processo de reorganização emocional”, explica Elen.

Perdas e identidade

Além da ausência de alguém ou da interrupção de uma rotina, algumas perdas provocam mudanças na maneira como a pessoa se percebe. O fim de um relacionamento pode significar a ruptura de planos compartilhados, enquanto a perda da autonomia exige adaptações à nova realidade. Segundo Elen, essas mudanças também afetam os papéis que cada pessoa desempenha nas relações.

“Quando uma situação se transforma, algo em mim também muda e morre. Ao perder um pai, por exemplo, eu deixo de exercer a função de filha para aquela pessoa. Da mesma forma, quem perde a autonomia física precisa encontrar uma nova maneira de existir e se reinventar. O que dói não é apenas o que existia, mas o fato de que eu também deixo de existir para o outro”, destaca a psicóloga.

O luto pode envolver tristeza, raiva, medo, culpa e insegurança. Em algumas situações, também pode haver alívio, especialmente quando o encerramento de um ciclo ocorre após um período prolongado de sofrimento ou desgaste. Para Elen, a dificuldade de lidar com essas emoções pode aumentar quando a pessoa se sente pressionada a demonstrar força e superar rapidamente o que aconteceu.

Na perspectiva da Gestalt-terapia, abordagem com a qual trabalha, evitar o contato com os próprios sentimentos pode dificultar a elaboração da perda. A psicóloga compara esse comportamento à tentativa de esconder um problema sem enfrentá-lo.

“É como olhar para uma casa que parece limpa por cima, mas, ao levantar o tapete, ver que está cheia de poeira. A dor precisa de um tempo de digestão. Se a pessoa não se dá tempo para processar esse luto, ele se posterga e se arrasta como uma sombra. Essa dor reprimida pode se manifestar por meio de ansiedade, insônia e irritabilidade”, alerta.

Quando buscar ajuda

Não existe um prazo único para vivenciar o luto. No entanto, quando o sofrimento persiste e começa a comprometer o sono, as relações ou as atividades cotidianas, é importante buscar apoio. O acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender as emoções e a lidar com as mudanças provocadas pela perda.

A proximidade do fim do ano também pode trazer à tona frustrações com planos não realizados e expectativas que precisaram ser revistas. Nesse contexto, a elaboração do luto envolve reconhecer o que mudou sem desconsiderar a importância das experiências anteriores.

“Lidar com o luto não significa esquecer o que foi perdido, mas reconhecer a perda, permitir-se sentir e, aos poucos, construir novas possibilidades de vida sem precisar negar a história que foi vivida”, conclui Elen Paesante.

Fonte: Assessoria de Imprensa

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