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Atlanta

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Donald Glover, o Childish Gambino daquele videoclipe mais comentado atualmente, This is America, enquadrou um seriado com o nome da cidade metrópole do estado da Geórgia (ali em cima da Flórida, ali do lado do Alabama, sul escravocrata dos EUA). Atua, é produtor executivo, chega até a escrever para o seriado. E, obviamente, polemiza.

Porque dentro das comunidades antes chamadas de etnias, há questões que são esquecidas, tais como a questão da “classe social”, dos costumes, do desemprego e blecaute de vida, da paternidade e maternidade dentro destes endereços, da violência estruturada nas relações. O racismo bem contado. Sem fazer algo que se assemelhe com uma denúncia, Glover chama a popularidade que Jodan Peele (diretor de Corra!, 2017) conseguiu no Oscar e sai do antigo estigma da negritude vista pelo branco.

Obviamente que este que escreve aqui não seria o melhor a trazer as questões de cor, pois meu lugar de fala é outro. Porém, o afeto de Atlanta trouxe algo a mais: ele nos colocou, brancos, como que num olhar que assimila o contexto negro. Há, sim, personagens não-negros na série, ainda que poucos. Mas, mais que isso, há uma revolta refinada e irônica diante da falta de empatia que os outros povos sentem sobre os negros na américa.

Primeiro: a violência é mostrada em uma fôrma social, chegando ao terror que é viver em uma comunidade que é desestruturada e que deve à exclusão e a uma herança da escravidão. Ou seja, nada gratuita, mas sim elaborada por sentimentos e posições de um jogo que exclui historicamente povos que foram escravizados.

Segundo: a série é montada com muitos cortes bruscos, com muitos planos duradouros, longos, empáticos, com muito realismo, portanto. É muito raro assistir a cortes modernos em séries norte-americanas, tirando estas novidades que surgem nos canais de VOD (vídeo on demand), como Atlanta, da Netflix.

Terceiro: Glover é jovem, porém, extremamente sarcástico na condição de um ator-autor, ou melhor, um personagem-real, que discute sem ser muito explícito quase tudo o que deixa essa persona na condição que se encontra (de excluído).

Quarto: finalmente, o personagem principal aqui citado é excluído não somente pela macro-sociedade, aquela dominada pelos povos brancos. É colocado pra fora da casa dos pais, é abrigado pela (quase)esposa com quem teve uma filha, é sem emprego, frustrado, produtor da Black art… tudo aquilo que numa comédia nova-iorquina geralmente se veria – aquele estilo Woody Allen (judeu esquizo), Jerry Seinfeld, escola antiga de comédia anárquica do lado leste.

É interessante notar que, enfim, Nova York está expandindo sua cultura já pós-pop para o sul do leste. O rap, que também é bem explorado pela série que tem nome de cidade (Atlanta, bem como o rapper Flo Rida, que dimensiona juridicamente suas questões), não é mais do “gangsta”, do criminoso, do traficante, etc. É um fim do humor tipo Eddie Murphy, e início (talvez) de algo mais perto de Spike Lee.

Atlanta parece colocar os conflitos dentro daqueles que se reconhecem na identidade. Polêmica. Pois não há muito de comum, da comunidade, ao se relatar e descrever as distâncias que existem naqueles que têm dinheiro, e nos que não têm. Nos homens que não trabalham, e nas mulheres que têm jornada dupla. Nas mulheres que têm dinheiro, e naquelas que não têm. Mas principalmente nas etnias, cores diferentes.

O problema, enfim, colocado tanto por Peele quanto por Donald é talvez o que já cresce em consciência nos filmes norte-americanos. Principalmente depois da arte pop performática de Michael Jackson. É o esbranquiçamento do povo negro.

Duas frases da série ecoam: “isto não é um filme, é realidade”; “é redundante ser negro e continuar se lamentando”. O ganho pra nós, do mundo inteiro, de séries produzidas por Glover e filmes de Peele, a meu ver, é finalmente ver o estigma ocidental – homem, branco, rico – ser ridicularizado. Necessário, em tempos de Trump, em que o riso, antes apaziguador, hoje é de nervosismo.

A segunda temporada já está pronta, mas ainda não é exibida no canal. Aguardemos.

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