Laranjeiras (SE) – Cultura popular e história

Vista da colina da Capela de Bom Jesus dos Navegantes

Em temporada de festejos juninos no Nordeste, Sergipe se configura como uma boa opção a ser visitado . Da capital, Aracaju, ao interior, atrativos são o que não faltam. Cultura e história se misturam na pequena cidade de Laranjeiras (SE), situada a 18 km de Aracaju. Conhecida por seus grupos folclóricos e prédios históricos do século XVII, Laranjeiras é um convite ao passeio no tempo e resguarda parte da época colonial açucareira de Sergipe. Considerada Berço da Cultura Popular, intitulada de Atenas Sergipana por suas colinas com pitorescas igrejas ao topo, cidade dos terreiros de candomblé, da firmação dos jesuítas em Sergipe e área de pesquisas de cavernas, o município resguarda tradições seculares, que se evidenciam na comunidade negra local e nos seus museus.

Trapiches e sistema de drenagem europeu

A concentração de igrejas numa pequena área da cidade é de chamar atenção. Quando o visitante chega, o calçadão secular de pedras em meio aos trapiches e prédios históricos formam um conjunto arquitetônico que remontam o período áureo dos engenhos em Sergipe.

Ruas, casarios, igrejas, tudo respira a época do Brasil colônia. A cidade já foi uma das mais importantes de Sergipe, berço da educação, política e da economia.

Catedral Matriz do Sagrado Coração 

Conta os historiadores que o município só não se tornou a capital de Sergipe por conta de uma manobra política do Barão de Maruim, que transferiu a sede de São Cristóvão para Aracaju. As terras pertenciam a Freguesia de Socorro e naquela região foi construído um pequeno porto às margens do Cotinguiba, que ficou conhecido como Porto de Laranjeiras, onde escoava parte da produção da alvissareira região do Vale do Contiguiba.

A movimentação pelo rio era intensa e, logo, o porto passou a ser parada obrigatória. Em torno dele, o comércio ganhava espaço, principalmente a troca de escravos. Mas a partir de 1637, o pequeno povoado do Porto das Laranjeiras também sofreu com os ataques e depois com o domínio holandês, deixando traços bastante expressivos no município. Muitas casas foram destruídas, mas o porto, um ponto estratégico, foi preservado.

Altar-mor da Igreja Matriz do Sagrado Coração

Ao andar pela cidadezinha com cerca de 28 mil habitantes, os vestígios dos séculos XVII, XVIII e XIX estão presentes no Quarteirão dos Trapiches, nos prédios do Museu de Arte Sacra, Museu Afro, Casa de Cultura João Ribeiro, Escola Zizinha Guimarães, Teatro Santo Antônio, Teatro São Pedro, o Mercado Municipal e a Ponte Nova, todos atrações turísticas da cidade. Não deixe também de visitar os templos religiosos. 

Manifestações culturais e celeiro de artistas 

O Quarteirão dos Trapiches foi totalmente reformado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com sua grande estrutura arquitetônica que remonta ao século XIX. É composto por sete edificações: Trapiche Santo Antônio, Antiga Exatoria, Sobrado 117, Casarão 159, ruínas ao lado do Casarão 159 e ruínas em frente ao mercado. Trata-se do mais importante conjunto arquitetônico do sítio histórico urbano de Laranjeiras e hoje muito deles foram reformados, preservando as ruínas, inclusive com ocupação feita pela Universidade Federal de Sergipe.

O regime escravocrata também deixou marcas na construção populacional e cultural de Laranjeiras, e tão logo caminhando por suas ruas, percebem-se traços da miscigenação, além das manifestações culturais e folguedos da região, como o Caboclinho, o Lambe-sujo, Reisado, Taieira, São Gonçalo, Cacumbi e o Samba de Pareia, acostumados a animar festas e feiras, entre elas, o Encontro Cultural de Laranjeiras, que acontece no mês de janeiro, evento que em 2018 completou 43 anos de festividade.

Museu comunitário Filhos de Obá

Templos religiosos – São mais de 30 templos na região e lá estão a primeira igreja evangélica de Sergipe e o primeiro terreiro de candomblé, considerado de Matriz, já que muitos outros se originou dele: os Filhos de Obá, de origem Nagó e que é tombado pelo Governo de Sergipe, por manter a religiosidade e tradições afro no Brasil. As salas abertas ao público mostram indumentárias, objetos utilizados em cultos e um pouco da história dos Filhos de Obá.

Primeira igreja evangélica de Sergipe

O primeiro museu dedicado a cultura afro do país também está em Laranjeiras. O acervo percorre a religiosidade, os açoites sofridos pelos escravos, a economia, entre outros bens materiais e imateriais.

As igrejas católicas são outras atrações do município, muitas delas distantes da sede, mas que vale a pena a visita por seu contexto histórico e cultural. São mais de 12 igrejas, duas delas catalogadas como contribuição dos jesuítas para a região. São elas: do Retiro (1701); de Nossa Senhora da Conceição da Comandaroba (1734); de Nossa Senhora da Conceição dos Pardos (1843); a Igreja Presbiteriana de Sergipe (1884); a Igreja do Bonfim; Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus (1791); a capela de Sant’Aninha (1875); Igreja Bom Jesus dos Navegantes (1905); Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário; Igreja Jesus, Maria e José (1769).

A igreja de Nossa Senhora do Rosário e São benedito e a capela de Bom Jesus dos Navegantes localizam-se em pontos privilegiados da cidade, que reverenciam também, além da arquitetura e de seus altares, a vista panorâmica, mostrando o  porquê de Laranjeiras receber o nome de Atenas Sergipana.

Capela de Bom Jesus dos Navegantes

A Igreja de Bom Jesus dos Navegantes fica no topo de um morro e vê-se toda a cidade cortada pelo rio Cotinguiba. Ao descer e caminhar pela cidade, outras igrejas vão se revelando ao visitante. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Comandaroba é símbolo de Laranjeiras e está entre as mais visitadas por seus mitos e histórias. Ela não fica na sede municipal, mas em uma propriedade particular, porém de interesse público por sua grandiosidade na história.

Colina com Nossa Senhora do Rosário e São Benedito

Outra opção é entrar na antiga casa da Praça Heráclito Diniz Gonçalves, onde hoje funciona o Museu de Arte Sacra, com imagens de santos e seus nomes. Há ainda a Casa de Cultura João Ribeiro, em homenagem ao escritor e poeta sergipano e outras casas históricas que se pode conhecer durante uma caminhada.

Fora do centro da cidade, há algumas atrações naturais como a Gruta da Pedra Furada, cercada de história de fuga de escravos, e a gruta Matriana. Pesquisadores tem feitos estudos na região e apontam que o município é entrecortado por cavernas, mas enquanto os estudos não se concretizam, o patrimônio histórico e cultural são realidades que podem ser conferidos durante todo o ano, principalmente em temporada de festejos juninos.

Nossa Senhora de Comandaroba

Dica de viagem

  • Como a cidade é pequena, o ideal é percorrê-la a pé aproveitando as paisagens e a simpatia dos moradores da cidade. Verifique o horário dos museus e das igrejas na página oficial da Prefeitura da Cidade, pois pode encontrar os prédios históricos fechados.

  • Peças do Museu de Arte Sacra

    Há poucas opções de estadia em Laranjeiras. Muitos conhecem Laranjeiras no sistema de bate e volta partindo de Aracaju. O Hotel Fazenda Boa Luz fica mais próximo da cidade, no trevo de acesso a cidade de Itabaiana.

  • Caso vá de transporte particular, partindo de Aracaju, pega-se BR 101 no sentido Maceió. Não tem errada, a BR passa por duplicação e está em obras, porém, continua bem sinalizada e há uma placa informado o trevo de acesso à cidade.

Imagens zoomórficas na igreja de Comandaroba

Gastroterapia

O povoado Mussuca, a poucos 2km da sede municipal, é uma boa pedida para quem quer completar a busca pelas mais autênticas tradições que envolvem o povoamento do Vale do Cotinguiba. Lá moram muitos dos brincantes dos grupos folclóricos da região e é uma localidade remanescente de quilombo. Não se tem ainda uma pesquisa completa sobre sua ancestralidade e, ao logo do tempo, tem perido as características gastronomicas afro, mesmo assim há recantos simples, mas que mantém pratos para os mais exigentes paladares. É o caso do restaurante e bar do Chiozinho.

Trapiches e pedras

Partindo da cidade de Laranjeiras no sentido BR 101, contorne a bifurcação como se fosse para Alagoas, no sentindo BR 101 – Norte e há uma placa a direita de acesso ao povoado Mussuca. Siga direto pelo povoado e percorra até a segunda unidade de saúde, quando deve-se seguir para a esquerda até chegar ao Restaurante do Chiozinho, intitulado o Rei do Pirão.

O restaurante fica em um sitio agradável, simples, mas com uma comidinha de satisfazer os mais exigentes paladares. A especialidade da casa são os ensopados que dele se originam o pirão. A matéria prima é adquirida ali mesmo no povoado, a exemplo do de camarão, da galinha de capoeira, do capão, do guaiamum, do caranguejo, do peixe e até mesmo do carneiro. Os preços variam de R$ 51 a R$ 75 e servem duas, até três pessoas. Há também a opção individual e os caldinhos que custam R$ 4.

Caldinho de camarão no povoado Mussuca
Peixada do Chiozinho
Pirão e caldo de peixe
Feira local também é tradição

Fotos: Silvio Oliveira

Instagram: @silviotonomundo

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