Lula reelegeu-se. Agora terá de governar o país e administrar a herança de si mesmo.
O Brasil reelegeu Lula por 51,79% a 48,21%, uma vantagem de 4,43 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro. A vitória é legítima. O cheque em branco, imaginário. Quase metade dos votantes escolheu outra direção, e o presidente precisará governar também para eles. A euforia do palanque costuma durar mais que a paciência do contribuinte. Urnas encerram eleições, não auditorias sobre promessas, despesas e serviços públicos.
O Nordeste decidiu a disputa. Lula obteve 69,37% dos votos válidos na região, 69,53% em Sergipe e 71,31% na Bahia. A vantagem foi suficiente para neutralizar as vitórias adversárias em outras partes do país. O resultado ensina duas lições: multidão em avenida não é certidão de vitória, e apoio eleitoral não pode virar licença para entregar ao Nordeste mais discursos que oportunidades. Sergipe não precisa de gratidão presidencial em cerimônia com fita e tesoura. Precisa de investimentos que sobrevivam às fotografias.
O episódio da votação prorrogada também merece cobrança. Após reclamações sobre transporte na Bahia, uma decisão do ministro Cristiano Zanin estendeu o prazo até as 19 horas, quando diversas seções já haviam fechado. Vieram esclarecimentos, orientações desencontradas e atraso na divulgação da apuração. Justiça Eleitoral não é lugar para improvisação de última hora. A atuação anterior de Zanin como advogado de Lula reforça a necessidade de transparência, mas não prova favorecimento.
O grande problema político do vencedor será encontrar o próprio retrato na sala da herança. Lula receberá de Lula a situação fiscal, os compromissos assumidos e os problemas que não resolveu. Acabou a facilidade de atribuir cada conta amarga a um antecessor inconveniente. Quando o governo anterior tem o mesmo nome, a desculpa precisa trocar de endereço. Não basta repetir que tudo vai melhorar: será necessário mostrar quanto custa, quem paga e quando chega.
Um Estado que anuncia prioridades sem explicar a conta parece restaurante de luxo onde o garçom esconde o preço e entrega a fatura ao vizinho. Juros, dívida e despesas permanentes não desaparecem diante de discursos eloquentes. O governo precisa apresentar metas fiscais críveis, avaliar gastos e proteger políticas sociais eficazes, em vez de confundir expansão administrativa com resultado. Prever catástrofes econômicas sem dados também seria irresponsável. Mas tratar riscos concretos como pessimismo da oposição é um truque velho, e cada vez mais caro.
No Congresso, Lula encontrará resistência e interesses próprios. Isso exige articulação, não a fantasia de que discordância parlamentar seja golpe contra a vontade popular. Deputados e senadores, por sua vez, devem fiscalizar sem transformar o orçamento em leilão de favores. Quanto às instituições, transparência e respeito ao devido processo importam mais que simpatias pessoais por ministros ou partidos. A República não pode funcionar como condomínio em que a assembleia discute, os síndicos se protegem e o morador paga tudo.
Flávio Bolsonaro não perdeu o direito de representar seus quase 60 milhões de eleitores. Também não ganhou salvo-conduto para transformar derrota em guerra sem fim. À oposição cabe cobrar contas, apontar alternativas e respeitar as regras. Ao PT cabe abandonar a mania de imaginar que toda crítica é conspiração. A polarização rende manchetes, visualizações e carreiras políticas. Só não paga a feira nem reduz a fila de hospital. Essa parte, curiosamente, nunca viraliza com a mesma facilidade.
“Cada um tem o governo que merece” é uma provocação, não condenação do eleitor. Ninguém merece serviço ruim por ter votado em L ou F. O que o Brasil merece, e deve exigir, é prestação de contas. Lula venceu e agora terá de administrar o legado que construiu. Se colher resultados, poderá reivindicar o mérito. Se colher problemas, não poderá fingir que o terreno pertence ao vizinho. O palanque acabou. A fatura, como sempre, continua aberta.
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