
A urna de domingo dirá se 2026 rima com 2006
Faltam dois dias. Domingo, 4 de outubro, Sergipe vai reencontrar uma das cenas mais antigas da democracia: depois de meses de carreata, bandeira, palanque, vídeo, abraço, discurso e candidato descobrindo parentes em cada esquina, tudo termina diante de uma urna silenciosa. É quase cruel. O político passa a campanha cercado de prefeito, deputado, assessor, marqueteiro, fotógrafo, drone e paredão. Na hora decisiva, sobra apenas o eleitor. E é ele quem vai decidir se Fábio Mitidieri continua no governo ou se Valmir de Francisquinho consegue transformar a campanha de mudança em poder. Por isso, 2026 começou a lembrar uma eleição que ainda mora na memória sergipana: 2006, quando Marcelo Déda derrotou João Alves Filho e encerrou, no primeiro turno, um ciclo político. A história não voltou inteira. Mas está fazendo uma rima danada.
Comparar Valmir com Déda exige cuidado. Déda era esquerda, PT, grande orador, prefeito de Aracaju e personagem de um Brasil completamente diferente. Valmir vem de Itabaiana, fala outra língua política, ocupa o campo conservador e construiu sua imagem muito mais pela proximidade, pela gestão municipal e pela identificação popular. São trajetórias diferentes. O ponto de encontro não está na ideologia. Está na capacidade de ultrapassar o próprio partido. Déda deixou de ser apenas candidato do PT quando virou fenômeno popular. Valmir alcançou uma dimensão semelhante, mas acrescenta uma marca administrativa ainda mais forte: transformou Itabaiana em vitrine de gestão, obra, execução e presença cotidiana. Não tenta se apresentar apenas como liderança popular, mas como administrador que já mostrou, na prática, como governa. Partido cria candidatura. Fenômeno popular nasce do vínculo com o eleitor. E gestor se prova entregando resultado. Valmir chega a 2026 tentando levar essa combinação para além do Agreste.
Em 2006, João Alves tinha governo, estrutura, história e máquina. Déda conseguiu transformar a eleição numa pergunta muito simples: continuar ou mudar? O eleitor respondeu mudança. É exatamente essa pergunta que Valmir tenta recolocar vinte anos depois. Fábio, por sua vez, tenta provar que 2026 não é 2006, mas parte de outra tradição sergipana: a de governos que sobreviveram ao desgaste e permaneceram no poder. Déda foi reeleito. Jackson Barreto venceu. Belivaldo Chagas venceu. Fábio venceu em 2022. A história, portanto, resolveu ser elegante e cruel ao mesmo tempo: entregou um precedente para cada candidato. Valmir olha para 2006. Fábio olha para tudo o que veio depois. Domingo dirá qual memória pesou mais.
Fábio faz campanha de continuidade. Obras, investimentos, programas, alianças, prefeitos, estrutura, prestação de contas. É a linguagem clássica de quem está no governo e quer convencer o eleitor de que trocar pode custar caro. Valmir faz o caminho inverso. Rua, emoção, abraço, mobilização, identidade popular, problemas concretos transformados em símbolo político. Um fala mais de administração. O outro fala mais de sentimento. Um leva planilha. O outro leva multidão. Nenhuma das duas coisas, sozinha, ganha eleição. Mas mostram perfeitamente onde cada um acredita estar. Fábio quer que o eleitor pense. Valmir quer que o eleitor sinta. No domingo, provavelmente fará as duas coisas.
E existe uma lembrança que torna Valmir diferente de qualquer adversário recente do governo: 2022. Naquela eleição, ele chegou às urnas como forte liderança popular e venceu as eleições, mas teve o registro indeferido pelo TSE, e os votos recebidos acabaram considerados nulos para a definição do resultado. Para seus apoiadores, ficou a sensação de uma disputa interrompida fora das urnas. Valmir não desapareceu. Esperou quatro anos, reorganizou seu caminho político e voltou em 2026 com candidatura regular para disputar novamente o governo. Há nisso uma carga emocional difícil de fabricar: o homem que viu aquela eleição escapar antes da totalização válida retorna ao mesmo palco quatro anos depois, agora podendo levar sua candidatura até o fim. E Valmir chega ao domingo carregando justamente uma história que seus adversários não possuem: a de quem esperou quatro anos para ter novamente a chance de disputar o governo nas urnas.
As pesquisas recentes também impõem realidade à euforia. Os levantamentos divulgados na reta final colocam Fábio numericamente à frente. Isso precisa ser dito sem maquiagem, porque jornalismo não é torcida organizada com computador. Pesquisa não encerra eleição, mas também não pode ser tratada como papel de bala quando desagrada. Ela é fotografia de um momento. A urna é outra coisa. É filme com final ao vivo. O ponto decisivo é saber se o estado captado pelas pesquisas será o mesmo estado que aparecerá diante das urnas no domingo. É aí que mora a dúvida real desta campanha.
Só que a reta final resolveu colocar gasolina na história. Ricardo Marques saiu da disputa e anunciou apoio a Valmir. Emanuel Cacho também desembarcou no mesmo palanque. Em qualquer eleição, dois adversários deixando a corrida e escolhendo o mesmo candidato já seria notícia suficiente. Em Sergipe, virou quase programa de auditório: um sai, outro entra, aparece live, alguém fala em traição, outro responde, surge vice, some vice, candidato muda de palanque e o eleitor tenta acompanhar tudo enquanto toma café. O resultado político é claro: Valmir conseguiu produzir, nas últimas horas, uma imagem de concentração oposicionista. Isso não transfere votos automaticamente. Eleitor não é PIX. Mas transfere símbolo, militância, discurso e sensação de movimento.
A crise do PL virou um capítulo à parte. O partido entrou no ciclo eleitoral pretendendo organizar a direita sergipana e chegou à reta final sem candidato viável ao governo, com Ricardo apoiando Valmir e com disputas internas expostas em praça pública. Houve conflito sobre recursos, espaço, estratégia, prioridade eleitoral, vice e comando. Existem acusações de sabotagem e traição, assim como versões contrárias. Não é necessário transformar acusação em sentença para enxergar o resultado político. A direção do partido não conseguiu preservar a unidade do projeto que apresentou ao eleitor. Em política, às vezes não é preciso descobrir quem quebrou o vaso. Basta olhar para o chão, ver os cacos e perceber que todo mundo está jurando que estava na cozinha.
E aqui aparece uma das ironias mais fortes da campanha: o bolsonarismo sergipano também deixou de caber confortavelmente dentro de uma única legenda. O PL buscou ocupar a condição de endereço oficial da direita, mas parte do eleitor conservador e algumas lideranças seguiram outros caminhos. Valmir conseguiu atrair apoios desse campo sem controlar o partido que carrega a marca Bolsonaro. É uma lição básica de política: diretório possui presidente; eleitor possui vontade própria. Às vezes os dois moram na mesma casa. Às vezes nem se cumprimentam no corredor.
2006 ESTÁ VOLTANDO? CALMA, A HISTÓRIA NÃO USA REPLAY
A comparação entre 2006 e 2026 ficou ainda mais provocadora na reta final. Há vinte anos, João Alves chegou à eleição com uma obra monumental diante dos olhos do eleitor: a Ponte Aracaju–Barra foi inaugurada em 24 de setembro, apenas uma semana antes da votação. Nem isso impediu Marcelo Déda de vencer no primeiro turno. Em 2026, Fábio Mitidieri também transformou uma nova ponte Aracaju–Barra em símbolo de futuro, mas a obra ainda está no começo: o consórcio de R$ 838,3 milhões foi escolhido em março e o prazo divulgado para conclusão é de quatro anos. A diferença histórica é quase cinematográfica: João chegou à urna mostrando uma ponte atravessando o rio, enquanto Fábio chega mostrando o projeto da próxima.
E esse contraste se torna mais incômodo quando a campanha encontra o cotidiano. A crise de abastecimento de água atravessou 2026, com episódios de desabastecimento e pressão sobre a concessionária Iguá; o próprio governo admitiu problemas no serviço e chegou a prever possibilidade de intervenção regulatória. Na educação, a greve dos professores estaduais chegou ao 25º dia nesta sexta-feira, enquanto permanece a disputa sobre carreira e escalonamentos. São problemas concretos que oferecem à oposição combustível muito mais poderoso que slogan: torneira seca e sala de aula paralisada costumam produzir uma comunicação política que nenhum comercial de televisão consegue abafar.
É exatamente nesse terreno que Valmir tenta construir sua força. Sua candidatura não depende apenas de apresentar-se como alternativa; depende de convencer o eleitor de que sua experiência administrativa em Itabaiana pode ser reproduzida em escala estadual. Ele chega à reta final explorando uma imagem de gestor próximo, executor e presente, além de carregar a memória política de 2022 e quatro anos de espera para disputar novamente o governo com registro regular. Esse conjunto lhe oferece condições políticas para enfrentar a enorme estrutura governista, embora a resposta sobre quem conseguirá formar maioria pertença exclusivamente à urna.
A semelhança com 2006, portanto, não está numa repetição automática do resultado. Está no risco que todo governo corre quando sua propaganda de futuro encontra um presente que parte do eleitor considera insatisfatório. João Alves mostrou uma ponte pronta e mesmo assim perdeu. Fábio mostra projetos de uma segunda ponte e precisa convencer o sergipano de que o restante do caminho merece mais quatro anos. Valmir procura fazer a pergunta que Déda conseguiu transformar em voto vinte anos atrás: a população quer esperar a continuidade entregar o que promete ou decidiu que chegou a hora de experimentar outro administrador?
Domingo responderá. A história não usa replay, mas possui um senso de ironia extraordinário. Em 2006 havia uma ponte inaugurada e o governo caiu. Em 2026 há outra ponte prometendo ligar duas margens enquanto a eleição tenta descobrir se o eleitor também resolveu atravessar para o outro lado.
ITABAIANA VIROU PERSONAGEM
Valmir transformou Itabaiana em parte da própria candidatura. A cidade não aparece apenas como origem geográfica, mas como símbolo de identidade, mobilização e pertencimento. Eventos de rua, bandeiras, carreatas e a chamada Onda Azul cumprem exatamente essa função: transmitir sensação de força e crescimento. Multidão tem poder psicológico. Quando milhares caminham na mesma direção, sempre aparece alguém se perguntando se perdeu alguma informação importante.
Mas eleição não é campeonato de bandeira. Multidão empolga, mobiliza e produz imagem. Não substitui voto. A grande tarefa de Valmir é converter entusiasmo de rua em maioria eleitoral. Esse é o ponto em que a estética termina e a matemática começa.
O PL DISCUTIU TANTO QUEM MANDAVA QUE TERMINOU DISCUTINDO QUEM FICAVA
A crise do PL resume muito da reta final. A legenda queria liderar a direita, controlar o espaço partidário e organizar uma chapa competitiva. Terminou enfrentando sucessivas rupturas internas e viu seu candidato ao governo apoiar outra candidatura. Não é necessário exagerar a história. Ela já é suficientemente constrangedora sem efeitos especiais.
Rodrigo e Moana Valadares podem apresentar suas versões, assim como Ricardo, Salete, Érico e os demais envolvidos. Mas quem dirige partido também responde pelo resultado político da direção. A pergunta mais incômoda não é quem conspirou contra quem. É muito mais simples: como um partido que entrou querendo comandar a direita chegou à reta final sem candidato viável ao governo e com parte importante de seu antigo palanque em outro endereço?
PESQUISA É FOTO. DOMINGO É FILME
Nunca houve tanta pesquisa e, paradoxalmente, tanta dúvida sobre o que realmente acontece em Sergipe. Levantamentos recentes colocaram Fábio Mitidieri na frente, alguns com vantagem larga, enquanto outros, ao longo da campanha, mostraram Valmir de Francisquinho liderando. A INOR, por exemplo, já registrou Valmir à frente; a Positiva também o colocou na liderança em julho. Ao mesmo tempo, a Justiça Eleitoral precisou intervir em levantamentos por problemas metodológicos ou de transparência: pesquisa da CDL foi barrada e a entidade já carregava uma condenação de R$ 50 mil por irregularidades anteriores; outro levantamento, da ECM, teve divulgação suspensa diante de dúvidas sobre a origem dos recursos que financiariam a pesquisa. Em eleição tão polarizada, pesquisa virou quase segundo palanque. Quando o número agrada, vira ciência exata. Quando desagrada, vira pesquisa de Marte.
É justamente por isso que nenhuma delas deveria substituir a observação política da rua. Há uma eleição silenciosa acontecendo nos olhos do eleitor, nos gestos, na recepção aos candidatos, nas feiras, nas calçadas e nas carreatas. Isso não possui margem de erro calculável e muito menos substitui levantamento científico, mas também comunica alguma coisa. Valmir procura transformar suas passagens pelo Estado em demonstrações de entusiasmo e identificação popular. Já Fábio enfrenta uma campanha em que temas como abastecimento de água se tornaram símbolos da oposição. A imagem do balde, real ou usada como metáfora política, tornou-se poderosa justamente porque resume um desconforto muito simples: propaganda nenhuma toma banho no lugar do cidadão.
E essa talvez seja a eleição mais perigosa para qualquer candidato que confunda número publicado com voto depositado. Sergipe já viu pesquisa errar direção, vantagem desaparecer e favorito descobrir que urna não lê release. Em 2022, inclusive, uma AtlasIntel chegou ao fim do segundo turno mostrando Rogério Carvalho com 57% dos votos válidos contra 43% de Fábio. O resultado das urnas foi exatamente o contrário na identidade do vencedor: Fábio ganhou a eleição. Se existe uma lição recente, portanto, é elementar: pesquisa merece respeito, mas não merece coroa.
E AÍ CHEGA DOMINGO
Domingo acaba a indústria da fotografia e começa o filme de verdade. Não haverá instituto dentro da cabine, nem prefeito segurando a mão do eleitor, nem marqueteiro soprando número no ouvido, nem carreata capaz de atravessar a cortina. Fábio chegará carregando quatro anos de governo, estrutura política, extensa rede de alianças e pesquisas recentes favoráveis. Valmir chegará com outra bagagem: a memória de 2022, a força construída em Itabaiana, mobilização de rua, adesões conquistadas na reta final e uma candidatura que procura transformar insatisfação em desejo de mudança.
É aí que 2006 volta a rondar a eleição como memória, não como profecia. Naquele ano, João Alves tinha governo, máquina e até uma ponte recém-inaugurada. Mesmo assim perdeu para Marcelo Déda no primeiro turno. Vinte anos depois, Fábio apresenta novas obras e projetos como símbolos de continuidade, enquanto Valmir tenta convencer o eleitor de que chegou a hora de atravessar politicamente para a outra margem. A história não garante resultado algum, mas deixou um aviso pendurado na parede do Palácio: estrutura ajuda muito, pesquisa ajuda muito, propaganda ajuda muito. Só não votam. A frase de 2026 ainda não pode ser escrita. Mas domingo ela estará pronta. Ou Sergipe confirmará aquilo que os levantamentos mais recentes vêm mostrando, ou a urna produzirá mais uma daquelas ironias que fazem pesquisadores revisitarem planilhas na segunda-feira. Porque eleição tem uma crueldade democrática maravilhosa: durante meses, todo mundo fala pelo povo. No domingo, finalmente, o povo fala por si.
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