Ailton Silva dos Santos
Mestre em História (PROHIS/UFS)
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
A história caminha ao lado do avanço tecnológico e, como história, me refiro a única possível: do homem através do tempo. Então, desde os primórdios, nossa espécie vem desenvolvendo a capacidade de criar e inovar sobre sua criação, adaptar e transformar o ambiente e essa jornada se estendeu por milhões de anos, sendo uma testemunha da engenhosidade técnica que sofreu uma aceleração vertiginosa no tempo presente.
No Paleolítico, a criação de ferramentas de pedra lascada e o domínio do fogo foram decisivos para a sobrevivência. À proporção que o Neolítico, e a Revolução Agrícola, inaugurou o sedentarismo e o surgimento das aldeias. Enquanto civilizações antigas, como as do Oriente Próximo, Egito e Mesopotâmia, legaram inovações duradouras como a escrita, a engenharia hidráulica e a arquitetura monumental.
Já na Idade Média europeia, avanços como a prensa de Gutenberg prepararam o terreno para o Renascimento, que, com a redescoberta do saber clássico e as Grandes Navegações, marcou a transição para a Idade Moderna.
A Revolução Industrial, no século XVIII, elevou essa escala de mudança com as máquinas a vapor, produção em massa e urbanização. E o século XX acelerou ainda mais o ritmo com a eletrônica, a computação e sobretudo a internet que fez com que transformações, que antes levariam séculos, passassem a ocorrer em décadas. Essa trajetória histórica revela uma constante: cada avanço tecnológico carrega consigo oportunidades e inquietações.
Entrementes, o Renascimento simboliza um momento de grande ruptura e encanto. Este período, que carregou a união da arte, ciência e exploração, projetou a humanidade para novos horizontes de conhecimento e poder. Entretanto, como no mito da Caixa de Pandora, ao se abrir a tampa do anseio e da indagação, também liberou certos medos. As mesmas ferramentas que guiaram navios por mares desconhecidos puderam, mais tarde, orientar caminhos para a guerra.
Todavia, o conceito de Inteligência Artificial (IA) surgiu em meados do século XX e seu desenvolvimento foi marcado pelo chamado “inverno da IA”. Onde expectativas exageradas e a falta de poder computacional, assim como limitações de programação de algoritmos, levaram a uma desaceleração no financiamento e no progresso. Gerando um sentimento de desilusão e cisma que causou o abandono de muitos projetos.
Apesar disso, a pesquisa continuou e foram registrados modestos avanços em áreas como: redes neurais e o aprendizado de máquina (machine learning) que pavimentaram o que estava por vir e, combinados com o aumento exponencial do poder de processamento e a disponibilidade de grandes volumes de dados (Big Data), ressuscitaram o campo. Ao passo que, atualmente, existem modelos capazes de criar textos, imagens e até músicas; o que está borrando a linha que diferenciava o homem da máquina até então: a criatividade.
É notável que, ao longo do tempo, a velocidade do avanço tecnológico tem se acelerado drasticamente e, se na chamada pré-história uma técnica levava milhares de anos para se consolidar, nas civilizações antigas, séculos, com a Revolução Industrial essa escala diminuiu bastante, indo para décadas, na era da globalização, tais mudanças passaram a ser percebidas em anos e temos, no tempo presente, percebido isso em meses ou até semanas.
Essa velocidade sem precedentes, especialmente no campo da Inteligência Artificial, articula-se com um medo ainda vigente da tecnologia. Entrementes, esse temor não é novo e aparece em obras de ficção cientifica, figurando desde a Era de Ouro do gênero (1938 – 1946), e de não ficção.
Ora, em todas as grandes revoluções tecnológicas, houve apreensão sobre o futuro do trabalho, a privacidade e a segurança e até mesmo sobre a própria essência da humanidade. Se, com a máquina a vapor, sentimos temor de desemprego em massa e nos aterrorizamos com a possível aniquilação da espécie pela bomba atômica, no contexto da IA esse medo ganhou uma face sem rosto que manipula dados a partir dos inputs que nos mesmos oferecemos.
Contudo, as preocupações com a automação desenfreada, o viés algorítmico das escolhas, a privacidade de dados e a disseminação de “deepfakes” são legítimas. O receio de uma inteligência artificial super-humana, a chamada “singularidade tecnológica”, também permeia o debate especializado. Ao passo que, é crucial compreender que, embora a tecnologia traga desafios e dilemas éticos, ela também oferece soluções práticas e alavancam o desenvolvimento.
Esse paralelo entre Renascimento e Caixa de Pandora ecoa no presente, onde avanços que prometem ampliar nossas capacidades também trazem riscos difíceis de prever. Talvez estejamos próximos de um fenômeno da evolução, pois autores como Martha Gabriel discorrem sobre estarmos diante de uma nova espécie, o homo digitalis.
O desafio é manter a consciência (no mito, a esperança foi o elemento que permaneceu no fundo da caixa) em relação a uso e o que podemos delegar a inteligência sintética e guiar o impulso criativo com a humana prudência.
Assim como no século XV, vivemos um ponto de inflexão em que o futuro dependerá menos do que inventamos e mais de como escolhemos usar o que inventamos; isto em relação a nossa cognição, as nossas carreiras e interações interpessoais.
Para saber mais:
Gabriela, Martha. Inteligência artificial: do Zero a Superpoderes. 2.ed. – Barueri [SP]: Atlas, 2024.
FERNANDES, Miguel; Como a IA vai mudar tudo (inclusive você) | TEDxSaoPaulo: https://www.youtube.com/watch?v=C38xlWnkezQ acesso em: 05/06/2025
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