O que pizzas no Pentágono têm a ver com as eleições brasileiras?

 

Andrey Augusto Ribeiro dos Santos

Doutorando em História Comparada (PPGHC/UFRJ)

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS) e do Grupo de Estudos sobre Política Internacional (GPPI/UFRJ)

 

No dia 02 de outubro do corrente ano, na sexta-feira anterior ao primeiro turno das eleições gerais no Brasil, alguns veículos de notícias lançaram um alerta que imediatamente foi tomado com apreensão por alguns dos consumidores do conteúdo. Um índice que mede o nível de mobilização no governo estadunidense apontava para um pico de atividade, que imediatamente foi ligado a uma possível intervenção no processo eleitoral brasileiro. O mais curioso em relação ao episódio, no entanto, vinha da origem dos dados utilizados para construir tal indicador: o aumento das vendas de pizza nos arredores do Pentágono.

Estamos falando do Pentagon Pizza Index (ou apenas Pizza Index), um indicador informal que parte da teoria de que picos de pedidos de pizza em estabelecimentos próximos a instalações do governo dos Estados Unidos poderiam indicar a ocorrência de grandes operações. A ideia é que os funcionários mobilizados para a promoção de tais manobras seriam os responsáveis pelo aumento nos pedidos, visando enfrentar a jornada mais longa de trabalho.

Suas raízes remontam a década de 1980, quando jornalistas e entregadores locais passaram a relatar aumento na quantidade de pedidos nas noites que antecediam intervenções militares promovidas pelos EUA. Dentre outros casos, o índice teria supostamente apontado eventos como a Operação Just Cause, que promoveu a intervenção no Panamá entre 1989 e 1990 e a Operação Desert Storm, que deu início a Guerra do Golfo, em 1991. Mais recentemente, também foram registrados aumentos no índice em períodos próximos a operações militares estadunidenses e israelenses contra o Irã, bem como na invasão da Venezuela, em janeiro de 2026.

Apesar destes “acertos”, não existe nenhuma evidência concreta que aponte a legitimidade deste índice, sendo considerado mais como um meme que circula pela internet ou anedota abordada por jornalistas. No entanto, a suposta apreensão promovida pelas reportagens produzidas é um sintoma de outro processo, a mudança da postura dos EUA em relação a América Latina desde o início do segundo governo Trump.

Após um período no qual a política externa estadunidense esteve voltada para locais mais distantes, principalmente o assim chamado “Oriente Médio”, este governo voltou suas atenções para seus vizinhos latino-americanos. Com isto, especialistas vem apontando uma repaginação da Doutrina Monroe, que buscava fortalecer a influência dos EUA na América em detrimento das potências europeias e seus projetos coloniais no século XIX.

Na versão atual a influência a ser combatida na região seria a chinesa, além da inserção de outros assuntos no pacote, como o acesso a recursos estratégicos, migração, narcotráfico e presença militar na região. Assim, o que vem sendo chamado de Doutrina Donroe (neologismo com o nome do atual presidente dos EUA), ou Corolário Trump, tem despertado preocupações referentes a pressões sobre governos, restrições a autonomia dos países latino-americanos e interferências, inclusive em processos eleitorais.

Neste contexto o Brasil, dado o seu tamanho geográfico e político, é objeto de cobiça, o que pode ser percebido nos diversos atritos diplomáticos recentes entre os dois países, apontados como tentativas, em diversos níveis, de intervenção da superpotência em assuntos brasileiros. Disto veio o temor causado pelo aumento do Pizza Index às vésperas do primeiro turno das eleições, já que poderia indicar uma possível operação para promover interesses estadunidenses no Brasil através da interferência no processo eleitoral.

Desta vez, pelo menos com o que é sabido até o momento, o Pizza Index não acertou. No entanto, as tentativas de interferência e de primazia regional da potência ao norte tem se mostrado cada vez mais concretas. Neste tabuleiro, dados os últimos resultados eleitorais latino-americanos, o Brasil seria uma das últimas grandes peças da região a ser virada em favor dos interesses estadunidenses.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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