Os torpedeamentos antes de agosto de 1942

Maria Luiza Pérola Dantas Barros

Doutora em História Comparada (PPGHC/UFRJ)

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente GET/UFS/CNPq)

E-mail: perola@getempo.org

 

Entre 15 e 17 de agosto de 1942, cinco embarcações brasileiras (Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará) foram torpedeadas nas proximidades da costa entre Sergipe e Bahia pelo submarino alemão U-507, no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), deixando mais de 600 mortos, além de feridos. A imprensa demorou um pouco a divulgar a notícia, mas, na manhã do dia 18 daquele mês, a população do país teve acesso aos primeiros relatos em torno do ocorrido. Por mais que os sergipanos, por exemplo, tenham sido surpreendidos com a chegada de corpos e pertences dos náufragos, juntamente com destroços das embarcações atacadas e sobreviventes em suas praias, aquela, porém, não seria a primeira vez que embarcações nacionais foram torpedeadas naquele conflito.

Antes mesmo daquele agosto, notícias circulavam na imprensa periódica, como na Revista da Semana, semanário ilustrado de circulação nacional, apresentando ao público leitor tanto os perigos de se navegar em contexto de guerra, quanto o fato de os navios brasileiros passaram a ser considerados pela revista como alvos de ataques em uma “guerra submarina realizada de maneira sistemática contra a navegação mercante brasileira” (Revista da Semana, 14/03/1942, p.24).

Entre fevereiro e março daquele ano, as embarcações comerciais Buarque, Olinda, Arabutan e Cairú tiveram seus nomes divulgados em nossa imprensa como alvos dos torpedeamentos enquanto navegavam na costa dos EUA. Na narrativa apresentada pela Revista da Semana, na edição de 21 de março de 1942, havia um claro posicionamento do periódico em considerar aquelas agressões, ocorridas sem aviso prévio, para além de uma retaliação após o rompimento diplomático do país com o Eixo, em janeiro de 1942,  como uma tentativa “de impedir relações comerciais entre as duas partes do Continente Americano”(p. 26) .

Destacavam-se ainda as medidas adotadas pelo governo de Vargas ante aquele cenário, no que se refere a suspender o tráfego nas linhas de navegação bloqueadas pelo Eixo e, mediante uma reforma constitucional, responsabilizar financeiramente os estrangeiros residentes no país, originários das nações agressoras, pelos prejuízos causados naqueles ataques.

Outra cobertura fotográfica, publicada pelo referido periódico na edição de 18 de julho de 1942, evidenciava outra dimensão dos torpedeamentos, a dos sobreviventes dos ataques que, naquele momento, retornavam ao país, tanto em embarcações brasileiras, como o Bagé e o Siqueira Campos, quanto em estrangeiras, como o transatlântico espanhol “Cabo de Buena Esperanza”. No grupo apresentado de mais de 80 brasileiros “sobreviventes de varios navios torpedeados nas aguas do mar das Caraibas [sic]” (p. 19), o periódico evidenciava aquilo como “um simples reflexo” de possíveis pretensões do Eixo em relação ao Brasil (p.19).

Assim, de maneira didática e visando situar o leitor na narrativa, fotos de membros da tripulação, menção ao número de mortos, juntamente com imagens das embarcações atacadas, mapa e as feições dos sobreviventes eram apresentados ao público leitor nas coberturas jornalísticas daquelas agressões, evidenciando como o imaginário de parcela da população brasileira já estava sendo trabalhado com representações sobre os ataques de submarinos à nossa frota comercial.

Se desde o início de 1942, já se conhecia aquela forma de agressão à nossa marinha mercante, com os torpedeamentos de agosto daquele ano, tais narrativas acabariam compondo um histórico que colaboraria com a visão oficial acerca do Brasil como um país pacífico tornado alvo deliberado, naquela guerra, da ação inimiga.

 

Para saber mais:

 

BARROS, Maria Luiza Pérola Dantas Barros. O senhor dos anéis na Aracaju que viu a guerra: o caso Nelson de Rubina (1942-1943). Rio de Janeiro: Casa Editorial Manacá, 2025.

FERRAZ, Francisco Cesar Alves. Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Contexto, 2022.

MAYNARD, Andreza Santos Cruz; MAYNARD, Dilton Cândido (Orgs.).  Leituras da Segunda Guerra Mundial em Sergipe. São Cristóvão: Editora UFS, 2013.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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