
O governador Fábio Mitidieri anunciou que aumentará a Indenização por Flexibilização Voluntária, a IFV, paga aos policiais e bombeiros militares que trocam o repouso pelo serviço. O anúncio reconhece, ainda que com seis anos de atraso, uma realidade sentida diariamente pela tropa: o valor criado em 2020 foi corroído pela inflação. Agora, é preciso explicar didaticamente que “aumentar” não significa necessariamente “valorizar”. Dependendo do percentual, o Governo poderá apenas devolver uma parte daquilo que o policial já perdeu enquanto aguardava a boa vontade do Palácio.
A IFV foi instituída pela Lei Complementar nº 342, de 28 de fevereiro de 2020. Para cada jornada de até oito horas retirada do descanso, foram fixados R$ 200 para soldados e cabos, R$ 250 para sargentos e subtenentes, R$ 350 para oficiais subalternos, R$ 400 para oficiais intermediários e R$ 600 para oficiais superiores. A lei define a verba como temporária, emergencial e excepcional, destinada ao militar que abre mão do repouso para atender às necessidades da Polícia Militar ou do Corpo de Bombeiros. A tabela continua oficialmente com os mesmos valores de 2020.
O primeiro passo para compreender a perda é separar valor nominal de valor real. Nominalmente, o soldado continua recebendo R$ 200. No papel, não desapareceu um centavo. Na vida real, porém, esses R$ 200 já não compram o que compravam em 2020. Entre março de 2020 e agosto de 2026, o IPCA acumulado ficou em aproximadamente 42,8%. Isso significa que, para preservar exatamente o mesmo poder de compra, os R$ 200 deveriam ter se transformado em cerca de R$ 285,63.
A conta é simples. Se os preços ficaram aproximadamente 42,8% mais altos e a IFV não subiu, o policial passou a receber uma indenização progressivamente menor em termos reais. Os atuais R$ 200 compram hoje aproximadamente o equivalente a R$ 140 em valores de 2020. Portanto, a perda efetiva de poder de compra se aproxima de 30%. Em outras palavras: a cada jornada de oito horas, o soldado ou cabo entrega ao Estado o mesmo descanso de antes, enfrenta o mesmo risco, ou até maior, mas recebe uma indenização que vale quase um terço menos. O serviço permaneceu inteiro; o pagamento foi emagrecendo sem dieta e sem autorização da tropa.
A recomposição aproximada pelo IPCA, calculada até agosto de 2026, deveria elevar a IFV dos soldados e cabos de R$ 200 para R$ 285,63, uma defasagem de R$ 85,63 por jornada. Para sargentos e subtenentes, o valor deveria passar de R$ 250 para R$ 357,04, diferença de R$ 107,04. No caso dos oficiais subalternos, a indenização deveria subir de R$ 350 para R$ 499,86, com defasagem de R$ 149,86. Para os oficiais intermediários, os atuais R$ 400 deveriam alcançar R$ 571,27, uma diferença de R$ 171,27. Já a IFV dos oficiais superiores deveria passar de R$ 600 para R$ 856,90, representando uma defasagem de R$ 256,90 por jornada de oito horas. Esses valores não significam aumento real, mas apenas a recomposição aproximada do poder de compra perdido desde 2020.
Esses números não representam aumento real, prêmio ou generosidade governamental. Representam apenas a recomposição aproximada da inflação. Para um soldado, elevar a IFV de R$ 200 para R$ 250, por exemplo, pareceria um aumento de 25%, mas ainda deixaria o valor abaixo dos R$ 285,63 necessários para recuperar o poder de compra original. Seria uma correção incompleta vendida politicamente como valorização. É o Governo devolvendo parte do que a inflação levou e querendo recibo de benfeitor.
O que deve ser feito é objetivo: publicar o novo valor, indicar o percentual aplicado, apresentar a memória de cálculo, informar a fonte orçamentária, definir a data de vigência e criar um mecanismo de atualização periódica. O que não deve ser feito é anunciar um número aleatório, inferior à inflação acumulada, chamá-lo de “ganho” e embrulhá-lo em vídeo eleitoral. Reposição inflacionária apenas impede que o policial continue perdendo; aumento real somente existe quando o reajuste supera toda a inflação do período.
E há uma pendência que nenhum anúncio novo pode esconder: o Governo ainda deve IFVs do São João a diversos policiais. Antes de prometer quanto pagará amanhã, Mitidieri precisa informar quando quitará o trabalho de ontem. A tropa cumpriu as escalas, abriu mão do descanso e garantiu a segurança dos eventos. O Governo, agora, precisa cumprir a sua escala: atualizar integralmente a tabela e pagar o que ainda está pendente. Porque solenidade não corrige inflação, postagem não liquida dívida e discurso de valorização continua valendo zero reais no contracheque.
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