“João Paulo II despertou o Oriente, Leão XIV poderia despertar o Ocidente.”
Com esse título, leio em Le Figaro, de 22 de setembro, ao qual tenho a ousadia de transcrever, uma entrevista do Cardeal e Bispo de Ajaccio, François Bustillo, concedida aos jornalistas Alexandre Devecchio e Enguerrand Bedez, motivada pela visita pastoral do Papa Leão XIV a Paris, prevista para esta semana.
O Cardeal Bustillo entre outros assuntos falou de seu novo livro, “Corses Carnets”, ou “Cadernos da Córsega”, cujo terceiro volume aborda uma prática “popular” do Cristianismo, ao tempo em que responde ao espanto constatado pelos jornalistas de Le Figaro, comentando que já estavam inscritos cerca de 600.000 fiéis para assistir a Missa do Papa, justo num país que se orgulha de ser altamente secularizado.
Sobre a secularização, disse o Cardeal Bustillo: “Eu creio que a França navega entre a ausência de Deus e a sede de Deus. Após 1968 proclamaram: “Nem Deus, nem senhor, cada um faz o que quer” Que assim seja. Mas é legítimo questionar se o mundo está melhor desde então. Relegamos Deus à periferia, e ainda assim não saímos dessa situação melhor: basta observar a violência, a instabilidade e o medo que permeia nossa sociedade.
O Papa chega, portanto, num contexto geopolítico preocupante e em meio a um clima político nacional bastante instável. Na França, há uma sede por um tipo diferente de mensagem – uma mensagem reconfortante, gratuita e que venha de outro lugar – de Roma, não da política francesa. A mensagem do Papa tem uma autoridade particular porque é universal, como a própria fé. O fato de tantos jovens estarem se inscrevendo para missas e vigílias significa que estamos vivenciando uma carência de esperança. Em suma, o Papa não é um mágico, mas vem oferecer uma palavra de encorajamento a um povo que precisa dela, num momento em que é constantemente bombardeado com uma lista de problemas.
Perguntam os Jornalistas de Le Figaro: A França é, ao mesmo tempo, a filha primogênita da Igreja e um país laico, com Paris como sede do poder. Por que o Papa escolheu ir para lá, quando seu antecessor sempre evitou a capital, preferindo Marselha, Estrasburgo ou Córsega?
Responde o Cardeal Bustillo: “O Estado é laico, mas a sociedade está secularizada. Essa distinção importa. Este país, assim como seus vizinhos italianos e espanhóis, tem visto recentemente um aumento nos pedidos de Batismo de adultos. O Papa não é indiferente a isso. Muitos viajam para a Índia, o Tibete ou a Amazônia em busca de um momento de espiritualidade; outros, ao contrário, redescobrem suas raízes na Igreja. O Papa acredita que a Europa, a velha Europa, não está morta: ele visitou a Espanha e Mônaco, e agora vem à França. João Paulo II despertou o Oriente; Leão XIV poderia despertar o Ocidente. Há também uma bela complementaridade aqui com Francisco, que se concentrou mais nas periferias. Leão, por sua vez, também se volta para países com longa tradição católica, cujo patrimônio cultural e espiritual merece ser revivido, sem arrogância ou complexo de inferioridade”.
Jornalistas de Le Figaro: Em seu livro, você enfatiza a “religião popular”. O que você quer dizer com isso e como aIgreja pode se reconectar com esse conceito?
Responde o Cardeal Bustillo: “Em minha região, na Córsega, vejo este lado popular, este lado simples, ou seja, um povo que se movimenta, em procissões, celebrações, confrarias. É importante que esta dimensão coexista, na Igreja, com um lado mais intelectual ou místico. Mas fazer uma procissão não exige a leitura da Suma de São Tomás. Você anda do ponto A ao ponto B, carrega uma estátua, canta – nada complicado. Este lado popular realça a dimensão física, corpórea, enquanto no Ocidente temos sido muitas vezes muito intelectuais, julgando uma homilia em vez de vivenciar um gesto, permanecendo na teologia. O lado popular envolve caminhar, tocar, acender uma vela, cantar: é a participação do corpo na fé.
Essa religiosidade popular pode ser encontrada em quase todos os lugares — na Bretanha, no País Basco, na Provença. A Córsega, em virtude de sua localização geográfica, talvez tenha preservado melhor esse instinto de proteger suas tradições, cultura, língua e religião, para não as diluir. Para o jovem francês médio, a prática religiosa pode até parecer uma descoberta cultural fascinante e exótica: um casamento na igreja, um funeral, um batismo… Tantas tradições e costumes que lhes parecem estranhos. Isso poderia representar uma oportunidade para nós aproveitarmos. Certamente é algo a se considerar. No entanto, a ligação com o catolicismo se deteriorou consideravelmente de uma geração para a outra. Um membro da minha paróquia me contou, por exemplo, que seu único vínculo com a fé, antes de se converter a Deus, era sua avó devota, que rezava com um terço na mão.
Jornalistas de Le Figaro: A lei sobre eutanásia acaba de ser aprovada na França. Será que o Papa enviará uma mensagem sobre o assunto? E você, o que acha?
Responde o Cardeal Bustillo: O Papa vem, antes de tudo, em nome da vida; esse é o significado do slogan que acompanha sua visita. Mas ele não vem para moralizar. Ele expressará claramente sua visão de vida em um país livre, em um momento em que ouvimos falar de muitas mortes. Nosso país, e o Ocidente em geral, está bastante obcecado pela morte: morte do planeta, morte de um sistema político, morte de um sistema econômico, morte da Igreja, e assim por diante. No fim, é deprimente. Além disso, quem ainda proclama a vida?
Isso se relaciona a outra preocupação, em escala francesa, europeia, quase global, a saber, o inverno demográfico. Por que este inverno e não uma primavera? Em sua essência, existem muitos medos — medos do futuro, de ficar sem dinheiro, de se perder. A força motriz no Ocidente é, tragicamente, o medo; e com o medo como força motriz, não podemos avançar. Se fecharmos maternidades, multiplicarmos asilos e aprovarmos uma lei sobre eutanásia, onde estará o futuro de um povo assim? Acreditar na vida é uma questão urgente para o país.
Jornalistas de Le Figaro: Qual a sua opinião sobre este novo papa e que diferenças observa em comparação com o seu antecessor?
Cardeal Bustillo: “O seu modo de falar e agir é mais discreto do que o de Francisco, que era muito afetuoso, muito ativo, muito latino. Leão tem uma personalidade mais discreta, mas é igualmente determinado. Vimo-lo, em particular, em África e em Espanha, a falar com grande liberdade. A característica definidora da humanidade, como disse Platão, é a palavra falada; sem ela, regredimos à força bestial. O papa tem o dever de falar, e é através das palavras que transmitirá esperança, valores e a lembrança da identidade cristã. Devemos também, coletivamente, mergulhar num domínio pouco conhecido: o Evangelho. No Sermão da Montanha, Jesus não propõe um ideal político, mas um ideal de humanidade: “Amai-vos uns aos outros, amai os vossos inimigos, perdoai-vos” — não palavras poéticas, mas o projeto de uma vida partilhada, capaz, creio eu, de dar estrutura a uma sociedade que se tornou fluida.
Jornalistas do Le Figaro: O Papa dedicou uma encíclica à questão da inteligência artificial. Este assunto lhe preocupa? Como a Igreja se posiciona diante do progresso?
Cardeal Bustillo: “Costuma-se dizer que a Igreja teme o progresso, que resiste a ele assim que chega. Isso não é infundado, quando consideramos as revoluções provocadas por Copérnico ou Darwin. Com a IA, estamos vivenciando uma nova revolução, fascinante e inquietante. A questão não é temê-la, mas acompanhá-la, e a Igreja pode fazê-lo. Devemos ter cuidado para não nos tornarmos robôs, porque os seres humanos foram feitos para experimentar a evolução orgânica, não mecânica. Diante do progresso tecnológico, a humanidade jamais deve ser sacrificada ou subordinada às máquinas, para que possa haver uma inteligência que não seja artificial, mas natural. Como escreve o Papa em sua encíclica: devemos construir a civilização do amor. As máquinas repetem ações; são programadas. Mas somente a humanidade pode construir a civilização do amor”.
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