
crise no mercado internacional de suco de laranja e a necessidade de aumentar a eficiência no campo estiveram entre os principais temas discutidos durante o 4º Citros Show Nordeste, realizado nos dias 12 e 13 de agosto, em Aracaju. Ao longo dos dois dias, produtores, pesquisadores, consultores e empresas participaram de palestras, debates e uma feira de negócios voltada à cadeia produtiva da citricultura. A iniciativa da empresa Campos de Lima Consultoria contou com apoio do Banco do Nordeste.
A discussão tem impacto direto em Sergipe, que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é o segundo maior produtor de laranja do Nordeste. A atividade está concentrada principalmente nas regiões Sul e Centro-Sul do estado e conta com uma estrutura industrial que absorve parte significativa da produção. O suco de laranja também é apontado pelo Observatório de Sergipe como um dos principais produtos da pauta de exportações do estado.

De acordo com o organizador do evento, o engenheiro agrônomo José Hugo Campos de Lima, o setor atravessa uma crise provocada principalmente pelo excesso de matéria-prima e pela dificuldade de absorção da produção pela indústria. Segundo ele, o problema não está restrito ao Nordeste ou a uma região específica do país, mas acompanha o comportamento do mercado mundial. “Não estamos conseguindo processar todas as frutas que produzimos. Só que esse problema não é setorizado. Não é um problema do Nordeste, da região do Sealba ou da região Sudeste. Ele é mundial”, explicou.
Segundo José Hugo, cerca de 90% do suco produzido é destinado ao mercado externo, o que deixa a cadeia diretamente exposta às oscilações da demanda internacional. Para ele, a situação atual é resultado de uma sequência de movimentos do mercado. Em um período anterior, problemas relacionados ao clima reduziram a produção e elevaram os preços do suco. Com a valorização, a indústriadestaque aumentou o processamento. O preço elevado, porém, acabou contribuindo para a redução do consumo internacional e,destaque posteriormente, para o aumento dos estoques. “A crise climática fez com que a produção baixasse muito e os preços disparassem. Com essa alta, a indústria avançou demais. E o mercado, quando fura o teto, acaba se regulando. Então, hoje, a gente está vivendo essa parte de baixa”, afirmou.
Estoques elevados
O reflexo desse movimento chegou diretamente às propriedades rurais. Com a redução das compras internacionais e os estoques elevados de suco, as indústrias passaram a demandar menos frutas para processamento. “O maior problema hoje é não ter para quem vender. As indústrias estão com os estoques cheios”, disse Hugo.
Na avaliação do organizador, entretanto, o cenário também envolve estratégias comerciais das próprias empresas, que precisam administrar seus estoques e definir o ritmo de processamento. José Hugo acredita que o mercado deve se ajustar gradualmente, conforme as vendas internacionais avancem e a demanda seja recomposta.
“Eu não acredito numa mudança bruta e brusca no curto prazo. Acho que, gradativamente, esse mercado vai se encontrando. Alguns saem, outros entram, mas o mais eficiente vai começar a voltar a ganhar dinheiro. A atividade, por si só, como qualquer outro mercado, vai se regular”, avaliou.
Redução de custos
Diante da queda nos preços pagos pela fruta, a principal recomendação aos produtores é rever os custos de produção. José Hugo defende que a redução seja feita de maneira racional, sem comprometer a capacidade produtiva das propriedades. “O primeiro passo que a gente tem falado para todos os clientes é rever o custo de produção, porque se faz necessário cortar custos. Uma coisa é você vender a tonelada da fruta a R$ 1.500 ou R$ 2 mil e outra é vender a R$ 300, como a gente está vendendo hoje”, afirmou.
Segundo ele, o momento exige maior controle financeiro e atenção à eficiência do negócio. A orientação, porém, não é simplesmente interromper investimentos ou atividades necessárias à produção. “A gente tem que se agrupar e reduzir custo de maneira racional. Não é parar de fazer as coisas. É segurar realmente esse capital, esperando esse momento melhor”, explicou.
Para o organizador, o período de dificuldade também pode acelerar mudanças dentro do setor e favorecer produtores que conseguirem produzir com maior eficiência e controle dos custos. “Não existe crise que perdure para sempre. Esse conflito que a gente vê entre o mercado exterior e os players que têm o suco para vender uma hora se acerta. É assim que funciona sempre”, concluiu.
Por Aline Souto e Verlane Estácio

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