A 6ª semana do futebol sergipano começa, finalmente, com o início do Campeonato Sergipano. Todos as atenções redobradas para a atuação das maiores equipes do Estado. O Sergipe, campeão da Taça Governo do Estado, e Confiança e Itabaiana, que passariam a disputar o torneio estadual após participação louvável na Copa do Nordeste.
Aconteceu que a primeira rodada foi altamente elucidativa: nem o mais otimista dos analistas poderia imaginar que apenas um jogo exporia os mais óbvios dos prognósticos. Vamos a eles.
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De olho no Tremendão. Equipe vem em busca do bicampeonato e já estreou com goleada (Foto: Arquivo Infonet) |
O Itabaiana estreou com um futebol melhor do que o exibido na Copa do Nordeste. Não muito surpreendente, se avaliado que apesar da sua qualidade, Eduardo Rato não teve grande participação no Tremendão. A falta de gols da equipe mostrou uma ineficiência clara, quando em 6 partidas foram marcados apenas 6 gols.
Contra o Boca Junior, na estreia do Campeonato Sergipano, o Tricolor da Serra marcou nada menos que 5 gols, praticamente atingindo a marca do regional. Óbvio que estamos falando de um adversário de qualidade menor, mas isso envolve a capacidade de empurrar a bola pro gol.
O Tricolor mostrou que vem pra conquistar o bicampeonato. Freitas Nascimento parece ter o elenco ajustado e total controle das ações quando joga dentro de casa. A primeira prova é contra o River. Caso vença, vai ser difícil conter a empolgação dos ceboleiros.
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O Dragão e sua torcida mostraram que a sintonia mostrada no Nordestão vai estar presente no Estadual (Foto: Arquivo Infonet) |
O Confiança, por sua vez, suou para bater o América, mas largou com vitória. Richardson, Lismar (expulso por bobeira), Angelo, Augusto e Diego Neves continuam mostrando que o time é muito consistente, joga afinado e de forma objetiva.
O futebol do Confiança, que surpreendeu o Nordeste é possivelmente o mais bem jogado no Estado. Apesar do resultado magro contra o América, o time tem muito a mostrar. Algumas deficiências e a falta de peças de reposição à altura podem complicar. Basta ver a diferença entre o time que jogou a Copa do Nordeste inteiro, em comparação àquele que enfrentou o Fortaleza, sem Richardson e Da Silva.
O Sergipe estreou decepcionando duplamente. Um futebol muito ruim, causado principalmente pela ausência de Carlinhos, com as mesmas deficiências ofensivas dos jogos anteriores, com a falta de opção no banco de reserva, e com um empate muito, mas muito sem graça contra o Lagarto.
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Sergipe vai ter que mostrar mais futebol, caso queira ser campeão do Sergipão 2013 (Foto: Arquivo Infonet) |
Quem esteve no Batistão na noite da quarta ficou surpreendido com a atuação de um Lagarto afundado numa crise sinistra (que já virou lei nos clubes do interior), mas que deu trabalho ao colorado, que poderia ter saído com uma derrota. A torcida não compareceu em bom número, parecendo prever que as 18 longas rodadas do torneio darão muito trabalho (falaremos sobre o regulamento mais adiante).
Os vermelhos precisam acender o alerta: o elenco é claramente inferior aos dos rivais. O motivo óbvio é a questão financeira, já que Confiança e Itabaiana tiveram mais recursos para montar seus elencos, por conta da Copa do Nordeste.
Mas o Sergipe está muito aquém do ideal, e mostrou que, caso não se acerte, pode ter dificuldades em superar mesmo os adversários mais frágeis.
Para além dos três maiores clubes do estado, a única surpresa pode vir do River Plate, que mais uma vez se mostra a equipe mais qualificada para além de Aracaju e Itabaiana. O time da terra do petróleo também estreou com vitória, mesmo na ressaca do título da perdido na Taça Governo do Estado. Desde que consiga superar a Kiveldependência.
Uma segunda disputa interessante em jogo será a de maior público. Nas redes sociais os torcedores já começaram a se provocar, apostando quem terá a melhor média de público do torneio, e quem fará a festa mais bonita. Se depender do regulamento do torneio, infelizmente teremos que medir por baixo…
Não é longo demais esse estadual?
E se, digamos, na 12ª rodada, de acordo com a superioridade técnica de River, Itabaiana, Sergipe e Confiança, os quatro classificados para a semifinal já estiverem definidos? O torneio passará praticamente um mês com jogos sem qualquer tipo de atratividade.
É algo a ser repensado. Diversas fórmulas já foram desenvolvidas para os campeonato estaduais na intenção de torná-los mais atrativos para a torcida, que é o que realmente interessa no fim das contas. Não pela renda adquirida na venda de ingressos, mas pela pulsação das torcidas mesmo.
Quantos jogos realmente interessam ao torcedor sergipano nesses torneios? Tirando a reta final, apenas os clássicos podem mover grandes públicos. Sergipe e Lagarto estrearam com um público ruim exatamente porque é um torneio muito longo pra dar tanta atenção para uma estréia, que na verdade é apenas o início de um outro turno.
Muito mais interessante seria se o Campeonato Sergipano previsse turnos mais curtos. Cada jogo teria a sua importância num processo de classificação. Hoje, no formato que está, é como se assistíssemos um torneio de pontos corridos, que desemboca numa semi-final. Total dispêndio de energia, de recurso e, principalmente, paciência do torcedor!
Notas sobre o incidente na Bolívia
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Sinalizadores não matam ninguém. O que mata é irresponsabilidade, informação mal passada e má fé. (Foto: Arquivo Infonet) |
No jogo entre San José e Corinthians, acontecido na cidade Oruro na Bolívia, como já é de conhecimento de todos que acompanham minimamente o futebol, um garoto de 14 anos faleceu após ser atingido no olho direito por um, suposto, sinalizador.
Destaco a palavra suposto porque quem minimamente já esteve num estádio onde uma torcida usa sinalizadores, sabe que para alguém ser ferido com um sinalizador é preciso fazer muito esforço. Primeiro porque é um objeto que praticamente não espalhar uma onda considerável de calor. Segundo porque ele não se projeta no ar, já que costuma pesar menos de 100 gramas.
O grande problema é que uma dose tão grande de moralismo foi despejada sobre o assunto, e a pressa de certos “formadores de opinião” em se posicionar – tão imbuídos de uma certa carga ideológica anti-torcidas – que o que correu foi uma total desinformação e confusão das reais causas do acidente.
Alguns jornalistas chegaram a apontar que essa era uma “tragédia anunciada”, inclusive no Brasil. Total equívoco, já que não se tem um comportamento nas arquibancadas parecido por aqui. Vamos aos fatos.
Uma análise mais cuidadosa sobre o ocorrido poderia deixar claro que, mesmo mal intencionado, o torcedor que acendeu o sinalizador teria grande dificuldade e lançá-lo a mais de 20 metros, distância média que ficam as torcidas adversárias em partidas. A resistência do vento, ou mesmo o peso do objeto não poderia ferir alguém causando a morte. Portanto, a primeira hipótese a ser colocada é de que não se tratava de um sinalizador comum, mas outro tipo de fogo de artifício.
Não demorou muito e a primeira evidência começou a aparecer. Basta ver um vídeo da torcida do San José, mais precisamente da sua barra “Temible”, o artefato utilizado é muito diferente do que estamos acostumados a ver nas arquibancadas brasileiras. Trata-se de um objeto conhecido como “bengala”, muito próximo da “espada” que são vistos nas Festas Juninas no Nordeste. No resto do Brasil é chamado de “morteiro”. Veja esse vídeo para compreender.
Trata-se de um artefato mais pesado, com composição e peso totalmente diferente dos sinalizadores utilizados nas arquibancadas brasileiras. Na Bolívia é um artefato permitido, apesar da notável complexidade do seu uso. E foi exatamente o que aconteceu com um torcedor irresponsável que o utilizou dentro da torcida do Corinthians.
Um vídeo lançado numa página do San José deixa claro que tratou-se de um uso irresponsável e desastrado, mas não proposital. O objeto poderia ter atingido, inclusive, torcedores do próprio Corinthians. Um deles, já na manhã da quinta-feira, afirmou que percebeu que a bengala foi acesa de forma equivocada, saindo pela horizontal.
Por ser um objeto que se projeta, atingindo grandes altitudes, ao acessar o setor onde se localizava a torcida do San José, a bengala ainda estava em processo de aceleração, e por isso atingiu o rosto do jovem torcedor com tanta força. Foi a pancada que causou a sua morte – o que já é por si uma fatalidade, já que podia ser um ferimento de menor gravidade – e não o fogo do artefato.
Aqui fica a importância de diferenciar as coisas: não havia registro de acidentes parecidos na Bolívia com a tal da bengala.
Por isso o objeto não era proibido dentro dos estádios, e era usado com o aval das forças de seguranças locais, já que fazia parte da festa das torcidas.
Rojões são proibidos nas arquibancadas brasileiros há muito tempo, exatamente por ter um caráter totalmente diferente e por isso não são usados. Mas o bode expiatório da vez virou o sinalizador, que não oferece praticamente nenhum risco.
Em Sergipe, por exemplo, é muito comum as torcidas utilizarem esses artefatos, e não se tem registro de acidentes em jogos. O máximo que pode acontecer é uma queimadura leve na mão de quem está utilizando, ou o leve derretimento do tecido da roupa, até porque a chama do sinalizador é insuficiente para inflamar qualquer coisa.
Estaríamos sacrificando um elemento belíssimo da festa nas arquibancadas em detrimento de uma inverdade. Mas uma inverdade que interessa bastante. Há anos já vem se pautando no Brasil uma série de limitações de objetos que seria “potencialmente utilizado para agredir”.
Em diversos lugares já proibiram as bandeiras e em alguns outros os bambus que balançavam os bandeirões. Até as faixas já chegaram a ser apontadas como algo que oferecesse riscos. Depois vieram as bobinas de papel (!). No Sul proibiram as Avalanches da torcida do Grêmio. Por fim, começa a campanha pelo fim dos sinalizadores.
Como os objetos não tem vida própria, o que se pode supor desse tipo de medida proibitiva é que qualquer torcedor, aos olhos das forças de segurança, são supostos assassinos.
Não se trata mais de ações individualizadas, mas de um campo de batalha no qual todos estão dispostos a usar qualquer coisa para ferir um inimigo? Essa paranóia está indo longe demais…
Há uma tremenda diferença entre a regulamentação de uma atividade e a sua proibição total. Ninguém, de forma responsável, acenderia uma “espada” no meio de uma multidão sem ter domínio do seu uso. Exceto alguém claramente mal intencionado.
Dentro dos estádios não há condições de se filtrar quem é o bem intencionado ou o mal intencionado. Essa é a grande questão que toda a discussão sobre segurança no futebol deixa de tocar: há um debate positivista de como controlar algo que é parte da dinâmica de uma aglomeração, que é o fator do imprevisível.
Os riscos de entrar num estádio são os mesmos de estar numa festa como o Pré-Caju. O trio que pode atropelar, a briga generalizada que pode esmagar, o camarote que pode se desmontar. Os fatores que envolvem um acidente muitas vezes estão longe de estar próximo do que o conhecimento humano julga ser perigoso.
Essa onda proibicionista nos estádios está matando o futebol. Deve haver limites e cautela para o uso de certos objetos, mas também há limites sobre o controle e a vigilância sobre a vida das pessoas.
Sem contar no processo quase que mecânico de relacionar algo acontecido a um torcedor organizado à crueldade e à marginalidade. Desde o princípio do caso, praticamente não se cogitou a hipótese de um acidente.
O que está em jogo mesmo é a determinação de uma nova “cultura de torcida”, tão propagada e desejada por aqueles que defendem a lógica de futebol-negócio que está sendo desenvolvida no Brasil. Uma ideologia radical que atropela qualquer interesse dos torcedores da arquibancada.
Não interessa aos promotores desse novo futebol o torcedor ativo, passional, que gosta de ficar em pé e de apoiar o seu time. Esse novo modelo prevê um futebol cada vez mais próximo ao teatro, ao cinema, do ideal dos torcedores passivos e meros consumidores.
Cada detalhe que pareça unânime quando o assunto é futebol deve ser analisado com mais cautela, antes que se reproduzam informações irreais. É preciso, inclusive, ter um pouco de mais responsabilidade e zelo com o assunto.
Um refletor defeituoso já causou a morte de dois torcedores numa partida em Salvador. A exemplo da lógica proibicionista que está sendo colocada, a solução para isso seria proibir jogos à noite para que novos refletores não fossem acesos.
Ademais, o torcedor do Corinthians que foi chamado de assassino terá alguma oportunidade de se explicar? Da forma que veio o bombardeio “opinativo”, possivelmente não.
Por Irlan Simões
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