A Caça à Raposa e as Questões Ambientais.

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Hoje, 28 de agosto, o noticiário destaca com certo alarde a renúncia de Nicolas Hulot, ministro da transição ecológica do governo de Emanuel Macron.

Monsieur Hulot, um ícone francês da ecologia, anunciou sua renúncia numa entrevista à rádio France Inter, emissora do grupo Radio France.

Frustrado diante de sonhos imaginados, Nicolas Hulot confessou que a política climática do governo ao qual fazia parte não estava à altura dos seus objetivos. “Os pequenos passos foram insuficientes para conter, reverter ou mesmo se adaptar à tragédia climática presente”.

Confessa sua decepção com impotência, afirmando que nem mesmo conseguira reduzir as emissões de gás e o consequente efeito estufa.

A mesma coisa quando se fala em redução do uso de pesticidas, erosão da biodiversidade, artificialização dos solos, tudo o que tem sido apontado como causa do aquecimento global, hora em sinal de alerta para os ambientalistas.

Para o Ministro demissionário, o Presidente Emmanuel Macron não fez do meio ambiente uma prioridade de seu quinquênio. Contentou-se com “palavras fortes e gestos simbólicos, mas nunca demonstrou que desejasse mudar o modelo econômico”.

Tendo que engolir sapos cada vez mais indigeríveis, o habitante do Hotel Roquelaure, sede do ministério do Meio Ambiente e Transição Ecológica, afirmou decisivo: “Eu não quero mentir mais para mim”. Um sinal de uma saída traumática.

A gota d’água, ou a “palha que rebentou as corcovas do camelo”, foi uma reunião acontecida na segunda-feira, anteontem, 27 de agosto, entre o Presidente Emmanuel Macron e o Presidente da poderosa federação nacional de caçadores, Willy Schraen, na presença do próprio ministro não demissionário ainda, e o Secretário de Estado Sebastien Lecornu.

Naquela reunião, consentira-se uma redução no preço da licença para caça que era de 400 Euros, baixando para 200, podendo ser abatidos animais de grande e de pequeno porte.

Na Europa, e na França em particular, a caça à raposa, antes um esporte exclusivo da nobreza, resiste como paixão nacional, após vários reinos e dinastias, dois impérios e cinco repúblicas.

A reforma da caça, prometida por Macron aos portadores de fuzil, já havia promovido um duro debate entre o Ministro Hulot e o Secretário Lecornu, não pelo preço da licença, mas porque previa a implementação de um manejo adaptativo das espécies, bem como o fortalecimento da polícia ambiental, dando uma nova estrutura ao Escritório Nacional de Caça e Vida Selvagem, bem como a Agência Francesa para a Biodiversidade, temas caros ao pensamento ambientalista por excelência.

Os que são adeptos destes esportes radicais vibram com a caça ao javali, acossado por matilhas caninas e com as touradas espanholas, que provam apenas que o touro resta mais estúpido quanto pior azougado, arrastado exangue, em meio a gritos de olé.

O mesmo pode-se dizer da nossa corrida de mourão, com o vaqueiro se gloriando por bem rabear o touro, recentemente autorizada após ampla e geral necessidade nacional.

E o que dizer dos galos de briga se estraçalhando, idem para duelos de canários, algo renitente, por proibidos, semelhante aos combates mortais dos gladiadores romanos?

Se entre nós a caça é proibida em crime mais grave, por ambiental e hediondo, na França o lobby da caça entende que tanto o javali adulto quanto o pequeno representam bons troféus, e a redução da taxa de permissão era um pleito dos caçadores que visavam “democratizar” o seu “lazer”. Tema inaceitável para Hulot, que sempre se apresentou como um defensor da causa animal.

Na verdade, fora um ano de muitas derrotas para o ministro demissionário, perdendo sempre, inclusive muitas disputas com o Ministério da Agricultura e até com a questão nuclear.

O próprio Hulot, entre contragosto e frustração, teve que reconhecer a inexequibilidade de seu plano ousado de reduzir até o ano de 2025 em 50% a geração de energia elétrica por fissão nuclear.

Todos sabemos que as centrais nucleares são abominadas por ambientalistas mundo afora.

À parte isso, não se descobre novos métodos de geração elétrica, inclusive a fusão nuclear que não progride, tida como uma metodologia segura, porque dela não provém rejeitos radioativos.

Diferente dos geradores de fissão nuclear, é bom repeti-lo, enquanto máquina a vapor sofisticada, a fusão de núcleos atômicos gera tão incomensurável quantidade de energia, que torna inviável a produção convencional de vapor, a ponto de ainda ser um desfio aos cérebros pensantes, mundo afora, para conseguir viabiliza-la na produção de energia elétrica.

Possuindo uma metodologia simples, é bom dizê-lo, os geradores de energia elétrica envolvem muitas discussões, sobretudo de natureza ambiental.

Em verdade, não existe nenhuma metodologia que satisfaça a miríade de desejos.

Até mesmo a geração eólica, tida e havida, ambientalmente recomendada, por não envolver queima de combustíveis fósseis ou nucleares, vem sendo violentamente combatida, na França também, por desvirtuar a paisagem das praias, gerar ruídos indesejados e outras coisas que suscitam espíritos críticos.

Digo espíritos críticos, porque tais pessoas não imaginam como seria um mundo sem os eletroímãs forçados a girar, utilizando as descobertas advindas desde o século XIX; os feitos notáveis de Ampère, Faraday, Henry, Maxwel, Edson, Tesla e tantos outros.

Quem não tem rio a represar, cachoeira e queda d’água natural, petróleo no subsolo, xisto ou gás a explorar, tem que torcer para possuir vento.

Mas, “vento que ninguém estoca”?, dir-me-á qualquer piadista crítico da Ex-presidenta Dilma ?

Até vento!

Em Editorial de 07 de agosto, Bertrand de Saint Vincent escreve no Le Figaro que Don Quixotte estava de retorno combatendo moinhos de vento, denunciando um sopro enfurecido contra os cata-ventos, incluindo destacadas figuras como a do ilustrador Philippe Dumas e o Presidente da região de Hauts-de-France, Xavier Bertrand, que gritam contra estes postes de mais de cem metros de altura, que desfiguram o território terrestre e quiçá amanhã, o marítimo.

Em matéria de 07 de agosto, Le Figaro trata das questões levantadas por ambientalistas contra a utilização indiscriminada de geradores elétrico via energia eólica.

“Pescadores bretões, camponeses normandos, defensores do patrimônio, do meio ambiente, ou das finanças públicas simplesmente, a coalizão anti-eoliana incha como um balão.

As censuras se acumulam: ataques à integridade das paisagens e ao quadro dos monumentos históricos, poluição sonora e luminosa, perigo para os pássaros migradores aí se incluindo até a fauna marinha, sem falar da tarifa considerada exorbitante para um retorno de energia produzida por esta floresta de mastros cujas lâminas não giram nem 23% de seu tempo médio.

“Que bagunça”, continua o Editorial. “Que triste caminho percorrido entre a ideia inicial, sedutora, de utilizar a força do vento para produzir uma eletricidade renovável e sua realização, que se apresenta hoje como um espantalho e se anuncia como um abismo financeiro, em amadorismo e incoerências”.

Há, sobremodo, uma preocupação porque as empresas geradoras continuam a enterrar fios elétricos, espalhando-os pelos campos e oceanos, os pilares sendo lançados a esmo, sem nenhum cuidado quanto ao futuro, quando tais construções se tornarem, um dia, antiquadas e obsoletas.

A energia eólica, tida como um prodígio pela moderna tecnologia, tem atraído subvenções e financiamentos em tantas promessas ilusórias, alimentadas por um frenesi ideológico, tema considerado em único viés, sem crítica, nem obstáculos, por todo mundo

Repete-se com o amplo semear de cata-ventos o mesmo alvoroço advindo da Segunda Guerra Mundial quando os países europeus, quase todos, solucionaram os seus problemas de geração de energia elétrica, de maneira unânime, a partir de centrais nucleares, hoje demonizadas.

Agora, pela denúncia do jornal parisiense, é preciso que providências sejam tomadas, afinal um cata-vento a mais não é um coisa tão simples como um mero bater de asas.

Mas, quem não tem asas para bater, e não tem para onde correr senão a velha energia nuclear?

E o que dizer de outros sonhos como por exemplo o banimento dos motores a diesel das cidades europeias preocupadas com a poluição de seu ar irrespirável, agora que os carros elétricos não mais são um sonho delirante de uma noite de verão?

O que será da nossa Petrobras quando os automóveis leves ou pesados, longe de requererem o petróleo do fundo do mar ou o álcool da usina, para bem se deslocar?

Já não é esta a preocupação da Bolívia com suas reservas notáveis de Lítio que saciarão sedentos acumuladores mundo afora em nova geração automotiva, om muitos empregos que gerarão e a degradação ambiental que bem virá dessa extração mineral?

Quanto a Nicolas Hulot, o ministro demissionário, uma das suas mais derrisórias derrotas aconteceu no outono de 2017 por ocasião da reunião dos Estados Gerais para “redefinir um modelo agrícola e alimentar”, mais saldável e respeitoso com o meio ambiente, quando suas teses foram rejeitadas pelas necessidades crescentes do produtor agrícola.

Mas, nem tudo foi fracasso para Monsieur Houlot. Atribui-se a ele o aborto das tentativas de construção do Aeroporto de Notre-Dames-des-Landes, após meses de amplos protestos ambientalistas.

Uma constatação de que a depender destes agressivos conservacionistas, retornaremos bem rápido aos idos neandertais; sem energia, sem comida e sem transporte.

Nicolas Hulot, como militante do movimento ambientalista deixou uma pequena vitória: a aceitação pelo executivo que as palavras “meio ambiente, clima e biodiversidade” constassem do artigo primeiro da Constituição Francesa, no lugar do artigo 34 como pensara o governo Macron no seu projeto de reforma.

O tema dos caçadores de raposa, derrubando um Ministro das causas ambientais, é um evento notável para nós.  Sobretudo agora, quando vivemos uma campanha política visando os destinos da nossa República.

Causas ambientais, modernidade de produção, insumos creditícios, diálogo entre raivosos adversários camuflam-se em posições de necessário esclarecimento.

Estamos a viver um momento raro no Brasil, em que ninguém se entende: Um Ex-presidente preso, justamente o candidato preferido por expressiva maioria do eleitorado; um Presidente no pleno exercício do poder, mas encalacrado e imobilizado, refém da imprensa que lhe tolhe gestos e passos no palácio do planalto; um Congresso que se aviltou em importância sob tanta caça às bruxas; um Ministério Público atrabiliário; e um Judiciário inconfiável.

Afora tudo isso, que é bem visto e contemplado no cenário, ninguém vê o que resiste atrás de vasta cortina não descerrada; muita gente com poder de mando para solapar muita coisa, e não um simples contrato de licença para caçadas de raposas ou javalis.

 

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