A AIDS NO NORDESTE

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O último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde mostrou que o Brasil tem 608.230 casos registrados de AIDS (condição em que a doença já se manifestou). Observando-se a epidemia por região em um período de 10 anos, 2000 a 2010, a taxa de incidência no Nordeste subiu de 7,1 para 12,6 casos por 100 mil habitantes.

Os dados do Brasil mostram que, enquanto a prevalência da infecção na população em geral na faixa etária de 15 a 49 anos é de 0,61% , isto é, considerada baixa, nas populações específicas denominadas “mais vulneráveis”, a epidemia cresce de forma preocupante.

Os estudos mostraram que em Homens que fazem sexo homens (HSH), a prevalência do HIV foi de 10,5%, isto é, 16 vezes maior que na população em geral. Fatores como a homofobia e baixa autoestima principalmente dos jovens gays associados a atitudes discriminatórias, contribuem para reduzir as medidas de prevenção da população mais atingida pela infecção, no início da epidemia nos anos 80. É fundamental que os gestores municipais e estaduais não apenas apoiem como realizem ações de prevenção e assistência específicas para a população LGBT. O grande desafio é trabalhar a prevenção junto aos jovens gays, que são bastante discriminados pelas próprias famílias.

Em mulheres trabalhadoras sexuais ou profissionais do sexo, a prevalência da infecção foi de 5,0%, isto é, 8 vezes maior que na população em geral. Enquanto, por um lado a prostituição feminina cresce no Brasil, principalmente no Nordeste, por outro lado os serviços de saúde, com raríssimas exceções, estão cada vez mais distantes desta população. As Estratégias de Saúde da Família não dão assistência adequada às profissionais do sexo por preconceito ou por acharem que “elas não existem” na comunidade. Muitas vezes, as mulheres profissionais do sexo são discriminadas na Unidade de Saúde quando pedem uma quantidade maior de camisinhas.

Os agentes comunitários de saúde precisam ser capacitados na abordagem às mulheres que se prostituem, encaminhando para que realizem exames ginecológicos, exames de sífilis e HIV e, caso estejam grávidas, realizem um pré-natal de qualidade. É prioridade a disponibilização de camisinha masculina, camisinha feminina e gel lubrificante para as profissionais do sexo. É importante lembrar, para aqueles que não dão importância à assistência às profissionais do sexo, que além delas terem família com todos os direitos humanos, os clientes delas geralmente são homens casados e a não adoção de medidas de prevenção pode repercutir nas famílias em geral.

Em Usuários de drogas a prevalência do HIV foi de 5,9%, correspondendo 8 vezes maior que a população geral. Embora grande parte dos usuários de drogas que se infectaram foi por compartilhamento de seringas e agulhas, o avanço no consumo do CRACK vem contribuindo para a não utilização da camisinha nas relações sexuais, aumentando a vulnerabilidade dos dependentes químicos à infecção pelo HIV. Infelizmente, poucas ações de prevenção existem no Nordeste dirigidas aos usuários do CRACK.

Em Jovens do sexo masculino entre 17 e 20 anos a prevalência do HIV foi de 1,16%, isto é mais do dobro da população em geral. Os jovens são muito mais vulneráveis ao HIV/AIDS. Como ainda não amadureceram social, emocional e psicologicamente, tendem a adotar um comportamento mais arriscado, sem se dar conta do perigo. O risco está associado também ao consumo do álcool. Os jovens estão cada vez usando bebidas alcoólicas (principalmente as meninas). Muitos jovens sexualmente ativos não usam camisinha. Apresentam o pensamento mágico de que “nada de ruim vai acontecer com eles”. Muitos pais não conversam sobre o assunto com os filhos enquanto as escolas perdem o tempo discutindo se devem ou não disponibilizar os preservativos acompanhados de materiais informativos.

Um grande desafio para o Nordeste é o enfrentamento da epidemia de AIDS junto às mulheres casadas e que vivem em situação de pobreza.  Mulheres com muitos filhos e com baixa autoestima, que dependem economicamente do parceiro para a sobrevivência. Elas não possuem condições de exigir o uso da camisinha pelo parceiro. As estratégias de saúde da família precisam trabalhar a prevenção às DST/AIDS casa a casa, orientando sobre a percepção de risco das mulheres casadas. Os agentes comunitários de saúde precisam andar sempre com as camisinhas para que possam disponibilizar nas visitas domiciliares.

Os dados do Ministério da Saúde mostram a necessidade de intervenções educativas nas populações mais vulneráveis nos diversos municípios do Brasil, como já vinha sendo proposto pelo Programa Estadual de DST/AIDS de Sergipe. No nosso estado, várias populações consideradas mais vulneráveis, já estão sendo trabalhadas  pela Secretaria de  Estado da Saúde em parceria com alguns municípios. Populações como dos caminhoneiros, das profissionais do sexo estão sendo alvo de várias ações de prevenção em algumas cidades do interior, como em Nossa Senhora de Socorro, Itabaiana, Lagarto, Propriá e Estância. As ações junto às profissionais do sexo de Aracaju precisam ser ampliadas. A população de homens que fazem sexo com homens também vem sendo trabalhada em Sergipe, em parceria com as organizações da Sociedade Civil.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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