A arte da prudência

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“O homem prudente é sempre coerente no que diz respeito à perfeição, o que depõe a favor de sua inteligência. Muda apenas quando há justificativa de causas e méritos. Em matéria de prudência, é feio variar. Algumas pessoas, a cada dia, parecem diferentes do que foram antes, até sua opinião é desigual, e mais ainda a vontade e a sorte: o que ontem foi a claridade do ‘sim’, hoje é a escuridão do ‘não’. Contradizem seu próprio prestígio e confundem a opinião alheia.”

 

O aforismo foi escrito no século XVII por um jesuíta espanhol chamado Baltasar Gracián, ainda pouco difundido no Brasil. A editora Sextante publica A Arte da Prudência, com 150 dos 300 aforismos originais. Ele considerava a filosofia como um instrumento para se chegar à fortaleza moral e escreveu o livro como um manual que prega a virtude da prudência e a prática do realismo na conduta e convivência em sociedade. É um guia para ajudar os homens do seu tempo a se desvencilhar das intrigas, das dúvidas e das maledicências cotidianas. É de uma atualidade cortante.

 

O aforismo acima é um conselho bem adequado aos políticos saltitantes de hoje e, neste momento, bem ajustado ao governador Marcelo Déda. Quando adversários e aliados cobram pressa nas suas decisões, como se em dois meses já pudesse ter consertado tanta coisa errada que encontrou no Estado, é bom mesmo que mantenha a coerência. Para que variar no modo de agir? Por que ser imoderado se ainda há quase quatro anos pela frente para tentar realizar com sensatez um projeto que não nasceu ontem? Para que enfiar os pés pelas mãos se ainda nem se tomou pé da coisa toda? O coerente age com bom senso e lógica, harmonizando situações.

 

Como bem disse o próprio Déda, ele estava nascendo quando Seixas Dória foi eleito governador em 1962 e, no entanto, ele se considera também fruto daquele momento histórico, rompido pelos militares, que indiretamente o empurraram para a militância de esquerda, que o levaram ao PT et coetera. Ou seja, as coisas e as pessoas se cruzam e entrelaçam, nada acontece por acaso e, além de embasamento cultural, político e moral, tem que se ter coerência para se chegar aonde ele chegou.

 

E, a propósito da imprudente pressa, mais Gracián: “O bem-feito é realizado com a rapidez adequada. O que se faz depressa, depressa se desfaz. Mas o que deve durar uma eternidade, deve demorar outra para ser feito. Só se deve valorizar a perfeição porque só o acerto permanece. A profunda compreensão alcança verdades imortais. O que muito vale muito custa. O metal mais precioso é o mais pesado e o que demora mais a se fundir.” É preciso dizer mais aos açodados?

 

O TC vai engolir a AL

 

Os Tribunais de Contas são, constitucionalmente, órgãos auxiliares do Poder Legislativo. Nos Estados, eles primordialmente fiscalizam as contas dos municípios e do próprio Estado, fazendo aquilo que os deputados teoricamente não teriam tempo nem preparo para fazer. O TC, portanto, auxilia um poder. Mas, no Brasil, os Tribunais de Contas estão se transformando numa espécie de quarto poder.

 

Além de decidir os destinos de prefeitos, por exemplo, o conselheiro é um profissional muito bem pago, qualitativa e quantitativamente bem assessorado e que dispõe de grande força e impõe respeito até completar 70 anos (e não 71). Basta dizer que há deputado federal que gostaria muitíssimo de trocar a Câmara pelo TC.

 

Em dezembro passado, os salários somados de todos os funcionários do Tribunal de Contas de Sergipe (sem a Gratificação Natalina) custaram ao Estado exatos R$ 5.405.700,00. Aqui o TC tem apenas sete conselheiros. O Ministério Público de Sergipe, um órgão muito mais relevante do que o TC, com seus 13 procuradores e mais de 100 promotores, teve uma folha de pessoal de R$ 5.423.129,00. Ou seja, a folha do TC custa ao Estado tanto quanto a do MP.

 

A Assembléia Legislativa, um dos três poderes estaduais constituídos e ao qual o TC está subordinado, com seus 24 deputados que têm que se submeter de quatro em quatro anos ao julgamento popular para saberem se permanecerão deputados, teve uma folha de dezembro que custou ao Estado R$ 6.131.727,00. Somente R$ 700 mil a mais. Daqui a pouco o Tribunal de Contas vai engolir a Assembléia Legislativa.

 

Albano volta ao Veraneio

 

Pouco a pouco, o ex-governador e deputado federal Albano Franco (PSDB) vai se chegando à já bastante populosa entourage dedista. Na última quinta-feira, ele aceitou convite de Marcelo Déda (PT) e voltou a freqüentar o Palácio de Veraneio, onde o governador ofereceu jantar em homenagem a João de Seixas Dória, que comemoraria 90 anos no dia seguinte, com missa na Catedral e festa ilustrada por muitos importantes da República.

 

Encontraram-se de novo na festa da AABB, onde conversaram descontraídos, só amenidades, como velhos amigos. E, neste sábado, Albano retribuiu a gentileza, recebendo Déda em almoço que também homenageou o ex-governador deposto em 1964. Estão assim!

 

Pisa mansinho

 

O homem que conquista a simpatia até de Ivete Sangalo só pode ser um getleman. Perguntado se era mesmo verdade que teria declarado que ninguém consegue permanecer com raiva de Albano Franco por muito tempo, o governador Marcelo Déda não só confirmou, como até ilustrou o que dizia com esta espirituosa comparação: “Albano é o tipo do sujeito que pisa no seu pé, você pede desculpas e ele ainda aceita”.

 

Recordando

 

A propósito, Albano só não faz parte efetivamente da turma do governo porque não quer. Ou melhor, porque não quis. Não quis se indispor com o tucanato nacional, preferindo o mal-estar da sua turma daqui, que saiu quase toda do PSDB para ficar com Déda. E não quis arriscar uma eleição para o Senado, que, hoje, muitos avaliam — talvez ele mesmo também —, poderia ter sido um passeio. Se José Eduardo Dutra quase derrotou Maria do Carmo, Albano Franco, que possui mais “bala na agulha”, é mais conhecido e mais palatável ao gosto popular certamente conseguiria.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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