A bengala de Armando Domingues

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“Um arrepio na noite… De repente um homem morto na rua.
O rosto permanece vivo das suas palavras.
Dos cantos dos olhos descem dois grandes rios.
Onde irão parar esses rios de tão intensa alvura?”
(José Sampaio)

Armando Domingues da Silva

    Recentemente tivemos conhecimento pela imprensa que a Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe aprovou projeto-de-lei que resgata o mandato de antigos parlamentares cassados por atos de arbítrio, em função de posições políticas e ideológicas. Na lista, entre outros, vimos o nome do Dr. Armando Domingues, falecido em Salvador em 12 de dezembro de 1992, com 80 anos.
   Um ato de justiça que se faz ao cidadão, político e médico, clínico geral de reconhecida capacidade, de raciocínio rápido e investigativo, com instinto certeiro em seus diagnósticos, que se enquadraria muito bem nos dias de hoje no personagem do seriado de TV “House”, só que um Dr. Gregory House humanista, bem diferente do que se apresenta na televisão, desprovido de boas maneiras e com a frieza de um detetive profissional, mas que chega aos mais difíceis diagnósticos.
   O Dr. Armando Domingues também chegava aos mais difíceis diagnósticos através de uma paciente anamnese e um exame físico rigoroso, num tempo em que não existiam exames especializados, quando muito um reduzido laboratório de análises clínicas, e de imagens, apenas, as fornecidas pelo tradicional Raios-X.  
    Armando Domingues da Silva nasceu em 20 de maio de 1912, em Entre Rios, Bahia. Formou-se em 1935 pela Faculdade de Medicina da Bahia, com apenas 23 anos. Iniciou suas atividades médicas em Itabaiana, transferindo-se para Aracaju onde foi trabalhar no Hospital Colônia, sendo considerado um dos pioneiros da psiquiatria em Sergipe. Humanista, teve militância política no Partido Comunista. Com a queda do Estado Novo foi eleito deputado estadual, obtendo consagradora votação. Destacou-se como orador popular e tribuno brilhante na Assembleia Legislativa, sendo admirado e respeitado até pelos seus adversários. Foi um dos líderes do histórico comício realizado em frente ao Cinema Rio Branco, onde foi assassinado o ativista Anízio Dário pelas forças da reação.
     Nas lides políticas, participou de todos os grandes movimentos nacionais, pela entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial contra as potencias do eixo, da campanha “O Petróleo é nosso” e do movimento pela anistia a Luiz Carlos Prestes. Teve seu mandato cassado no governo Dutra, sendo demitido de todos os empregos que tinha em Sergipe. Retornou à Bahia, onde atuou na Fundação Gonçalo Muniz, em Salvador e comandou o Laboratório de Análises Clínicas da Maternidade Tsylla Balbino até se aposentar em 1982 aos 70 anos. Atuou como perito do INSS e manteve com a filha, Maria Lúcia, um laboratório de análises clínicas.
    Mas o que tem a ver a bengala com Armando Domingues? Quem me contou a história foi Lauro de Brito Porto, um dos grandes amigos do esculápio vermelho. Lauro era depositário de uma bengala que pertenceu ao médico Armando Domingues, numa fase de sua vida. De todos os seus pertences, confessou Lauro, aquele era o mais precioso, como símbolo de uma sólida amizade que existiu entre os dois desde os tempos da vetusta Faculdade de Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus. Como colegas de turma, eles já se destacavam nas lutas estudantis. Lauro inclusive chegou a ser preso em 1932 após levantar, em rebelião, os estudantes de Medicina em apoio a Revolução Constitucionalista.
        Formados em 1935, vieram atuar em Sergipe. Em 1945, com a redemocratização do país propiciada pelo desfecho  da Segunda Guerra  que expurgou os regimes ditatoriais fascistas, Armando elegeu-se deputado estadual pelo Partido Comunista. De espirito irrequieto, tribuno vibrante, Armando destacou-se no parlamento sergipano, numa época em que o Partido Comunista atingiu o seu ápice de popularidade e representatividade política, chegando a eleger três vereadores em Aracaju, entre eles o destemido líder Carlos Garcia, em 1947.
       Em 1945 o PCB retornara à legalidade, obtendo seu registro eleitoral. Nas eleições presidenciais, realizadas em dezembro, o partido lançou a candidatura de Iedo Fiúza e obteve cerca de 10% do total de votos, tanto para o candidato apoiado como para a chapa do partido para a Assembleia Nacional Constituinte, elegendo 14 deputados federais e um senador, Luiz  Carlos Prestes.
         Com cerca de duzentos mil filiados em 1947, seu registro é novamente cancelado pelo TSE, no governo do marechal Eurico Gaspar Dutra e seus parlamentares são cassados. As reações contra a arbitrariedade se espalham pelo país e em Sergipe um comício é marcado para a Rua da Frente, em protesto  contra a cassação dos mandatos e em defesa da democracia e da paz, ameaçadas pela corrida armamentista dos Estados Unidos.
       O governador José Rollemberg Leite reage, não quer a manifestação  e manda  a tropa dissolver a concentração. Para despistar, os manifestantes mudam o ato para a Rua João Pessoa, em frente ao Cinema Rio Branco, único local que possuía iluminação adequada. A polícia de cavalaria investe contra o povo, que se defende como pode. Nessa hora, tudo pode representar uma arma de defesa, até mesmo uma simples bengala.
      No meio do tumulto, um tiro disparado pela polícia fere mortalmente o operário negro Anísio Dário e a partir daí acontece uma correria pra todos os lados. Lauro Porto recolhe a bengala perdida na peleja e a guarda consigo. Os comunistas são perseguidos, perdem seus empregos, Armando, com mandato parlamentar cassado, transfere-se para Salvador e abandona a militância em prol de uma bem sucedida trajetória médica. A bengala de Armando Domingues fica sob a guarda de Lauro Porto por 67 anos, até a sua morte. Dias depois, visitei os filhos de Dr. Lauro em sua residência e contei-lhes a história da bengala. Uma antiga empregada da família lembrou de tê-la visto certa vez, quando arrumava a casa.
          Passadas algumas semanas, recebemos em doação para o Museu Médico a bengala de Armando Domingues, finalmente localizada pela família de Lauro Porto atrás de um armário. Para os idealistas de 30 e 40, seus ideais convergiam para a libertação do povo. O socialismo era o regime das esperanças: contra a fome, o desemprego, a desigualdade social. O verdadeiro simbolismo da bengala não foi só representar o elo que uniu Lauro e Armando em amizade fraterna.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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