A cartilha da intolerância contra a diversidade sexual

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Pedro Carvalho Oliveira
Universidade Estadual de Maringá
Trabalho relacionado ao projeto de mestrado “Hate Rock –  Instrumento político para os fascismos do presente nos Estados Unidos e no Brasil (1990-2010)
Integrante do grupo de pesquisa História do Tempo Presente: Relações Internacionais e Movimentos Sociais
Bolsista CAPES
Orientador: Prof. Dr. Sidnei J.Munhoz (PPH/UEM)
E-mail: pedro@getempo.org

Recentemente uma famosa marca brasileira de perfumes realizou uma campanha publicitária para o dia dos namorados mostrando casais, de diferentes orientações sexuais, recebendo presentes de seus pares. O vídeo se espalhou pela Internet. Segundo os descontentes, aquele era um comercial que ia na contra-mão dos bons costumes e da família tradicional brasileira. Estes organizaram um boicote, angariando colaboradores para pontuarem negativamente o comercial postado pela empresa em seu canal no YouTube.

Os debates em torno das tradições e identidades de gênero no Brasil tem sido acirrados, sobretudo se pensarmos no contexto de efervescência política que o país vive, em meio a manifestações e críticas contra agendas consideradas favoráveis a comportamentos vistos como reprováveis por grupos sociais mais conservadores. Em fevereiro de 2014, a Câmara dos Deputados iniciou uma enquete questionando os brasileiros sobre como o núcleo familiar deveria ser formado. Até este momento, 7.602.379 votos foram computados, sendo 49,99% dos votos a favor de que o núcleo família deve ser formado por homem e mulher, enquanto 49,69% é contrário a essa ideia. O pleito, que está relacionado ao Projeito de Lei 6583/13, de autoria do deputado Anderson Ferreira (PR-PE), que cria o Estatuto da Família, permanece acirrado.

Frente à polarização desse debate e seu acirramento, alguns grupos ganham destaque como porta-vozes de discursos extremistas que excluem minorias ou mesmo demonstra ódio explícito a elas. Após as manifestações do dia 15 de março, ocorridas em várias partes do Brasil em repúdio ao governo vigente, um grupo de skinheads neofascistas agrediu dois jovens em Curitiba, enquanto gritavam “morte aos homossexuais”.

Os skinheads neofascistas são contrários aos homossexuais, acusando-lhes de desvirtuarem o conceito tradicional de família. Durante o regime nazista na Alemanha os homossexuais eram duramente perseguidos, pois, segundo os ideólogos do Terceiro Reich, a relação entre pessoas do mesmo sexo atrapalhava o processo de reprodução e, consequentemente, de ampliação da raça ariana. Pessoas foram mortas e aprisionadas a campos de concentração pelo simples fato de terem uma orientação sexual diferente.

Graças a isso, o universo dos neofascistas é permeado por construções ideológicas que vetam a participação dos homossexuais nas sociedades que idealizam politicamente. Um dos meios que essa subcultura utiliza para expressar isso é o chamado Hate Rock, um gênero musical que serve às suas pretensões de aglutinação de simpatizantes e aos seus anseios de violência contra os que consideram inimigos. Para os “carecas” neofascistas, a música possui um peso importante e serve como mecanismo de militância em favor de suas concepções políticas.

A banda paulistana “Defesa Armada” lançou, em 1996, uma música intitulada “Esquadrão Anti-Gay”, cuja letra dizia: “Esquadrão Anti-Gay pra metralhar/ Esquadrão Anti-Gay da repressão/ Esquadrão Anti-Gay vai te curar/ Esquadrão Anti-Gay é a solução”. Não devemos cair em um debate frágil que acusa as músicas (assim como jogos de videogame, filmes, etc) de serem responsáveis diretas pela violência, como essa ocorrida em Curitiba. No entanto, a música legitima as ações “em nome da causa”.

Grupos que se mobilizam contra os direitos de pessoas do mesmo sexo manterem relações afetivas não necessariamente podem ser apontados como fascistas. Mas, é pertinente pensarmos a proximidade dos discursos e como eles incidem de maneira agressiva sobre indivíduos e grupos cujas visões de mundo divergem daquelas pensadas por esses militantes conservadores. Em um momento como esse, o respaldo de algumas características de grupos neofascistas acaba, mesmo sem querer, sendo ampliado por parte da sociedade que eles buscam penetrar. É preciso estarmos atentos.

Saiba mais:
“Neonazistas atacam em Curitiba depois de protesto deste domingo e geram pânico” – Disponível em <http://revistaladoa.com.br/2015/03/noticias/neonazistas-atacam-em-curitiba-depois-protesto-deste-domingo-geram-panico>. Acesso em 08 de junho de 2015, às 12h.
BRAZDA, Rudolf; SCHWAB, Jean-Luc. Triângulo rosa: Um homossexual no campo de concentração nazista. São Paulo: Mescla Editorial, 2011.

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