A droga se expande

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Dr. Pascoal, eu viajo muito pelo interior do Estado e venho me deparando com uma situação que há muito tempo me traz muita angústia: a quantidade de jovens envolvidos com drogas, desde a maconha, passando pelo crack, chegando à cocaína. Às vezes penso que, proporcionalmente, o uso de drogas nesses interiores que frequento seja bem maior do que aqui na capital. E o pior de tudo é que muitas vezes, os pais desconhecem essas situações ou não querem enxergá-las, acreditando que isso só acontece com os filhos dos outros, achando também que os filhos dos outros são vulneráveis a esta desgraça, os seus, jamais se envolveriam com isso. E ainda, quando por acaso, procuram apurar os fatos. Preferem dar credibilidade à versão dos filhos, em detrimento das versões de outras partes. Entretanto, quando descobrem que os filhos são realmente usuários de drogas, quase sempre, já é tarde demais. Como em certa feita você me credibilizou a sugerir um tema, se fosse possível em alguma oportunidade, você escrevesse sobre esse: pais que são reféns das atitudes dos filhos, bem como o envolvimento dos jovens com as drogas.
 Obrigado pela atenção.

João Thiers

 

Recebi este e-mail do meu amigo João Thiers e, como visto, ele pede que eu fale sobre o terrível fenômeno que ora acontece que é a disseminação do uso da droga por nossos indefesos jovens interioranos.

 

O que ele está a perceber é mais uma daquelas realidades que nos deixam intranquilos e muito preocupados. Imaginar que nas pequenas comunidades, locais até bem pouco tempo, pacíficos e sossegados, agora estejam sendo sacudidos por este que é um dos maiores problemas da sociedade atual.

 

Como em tudo o que escrevo, procuro evidenciar uma motivação e deixar uma modesta opinião, assim farei.

 

Por que está acontecendo esta “epidemia”, que avança com desenvoltura nas nossas até então pacatas cidades do interior? Poderemos elencar um grande número de causas: impunidade, facilidade, despreparo do poder público e, sobretudo, esfacelamento da família. 

 

Comentaremos a última destas afirmativas, vista que as outras, embora de todos conhecidas, escapam à nossa competência. Somos desvalidos de segurança, saúde e educação. Exatamente as únicas atividades, somando-se a infra-estrutura que são socializadas no nosso país e que infelizmente, não funcionam. O socialismo tem destas coisas.

 

Estamos vivendo uma crise de desamor, o que gera uma “desfamiliarização” da sociedade. A rigor, parece que existe no inconsciente da humanidade uma trama, muito bem urdida, contra esta instituição milenar.

 

E, por isto, quer dizer, com a subtração da família integral cria-se um vácuo que deverá ser preenchido com alguma coisa e a droga chega bem na hora. Na capital e no interior, na cidade grande e na pequena, as causas são as mesmas: o desarranjo social gerado pela dissolução da unidade familiar.

Atenção, este desarranjo não acontece apenas com casais separados não, como poderá parecer. Acontece também com casais que vivem juntos. Vivem, porém, não convivem. Não há mais aquela participação, aquele aconchego entre os elementos da família. Vivem cada qual no seu “mundinho”, uns distantes dos outros. Mesmo sobre o mesmo teto, vivem separados, quer pelos afazeres diários, quer pela conveniente forma de entretenimento mais comum nos lares brasileiros que são a televisão e o computador. Ambos afastam as pessoas que, mesmo juntas, estão solitárias, cada qual com a sua ocupação.

 

Este isolamento em grupos afasta o diálogo, a convivência, a aproximação e retira dos pais, os gestores, neste caso, a possibilidade do comando e do controle.

 

Já perceberam que os pais não conhecem mais os filhos e nem estes conhecem mais os gostos dos seus genitores?

 

Pensem, este domingo será o dia dos pais. Os filhos, impulsionados pela mídia, sentem-se obrigados a presenteá-los. Que presente dar? Quais os gostos do meu pai? Quais músicas, filmes ou roupas o meu pai gosta? Não sabem.

 

O comércio, inteligentemente, tira proveito deste desconhecimento, desta dúvida e lança o vale qualquer coisa: “o vale CD, o vale DVD, o Vale perfume, o vale roupa, o vale presente…

 

Aí o filho compra e chega para o pai, e diz: pai como eu não sei do que o senhor gosta, comprei um vale… Basta o senhor comparecer à loja e escolher.

 

Outras lojas, – quase todas, – afirmam: pode levar pois se ele não gostar basta vir em tantos dias e trocar…

 

 As famílias não estão mais “comer-morando”, não se tocam, não se beijam, não se abraçam, não verbalizam mais as frases mágicas “eu amo você”, “conte comigo”, ”estou do seu lado”…

 

Então o jovem que está chegando a este mundo doido tem uma enorme necessidade destas garantias, destas seguranças, destes incentivos, destas validações, destes carinhos e, sobretudo, deste amor. Não encontrando em casa, vai buscar onde está mais fácil.

 

Já escutaram aquela bem orquestrada frase: “Cuide do seu filho, antes que um traficante o adote?” Pois bem, ela é atualíssima e sintetiza o que quero afirmar.

 

Queridos pais, não vamos esperar que estas mazelas se aproximem de nós. Vamos ter mais cuidado com aqueles a quem Deus nos deu a oportunidade de cuidar. Os nossos filhos são o nosso maior patrimônio. Vamos, com humildade, fazer um rigoroso exame de consciência e perguntar a nós mesmos: eu estou dando bom exemplo, confiança, amparo, companheirismo, amizade e, sobretudo, amor ao meu filho? Ou estou só exigindo e maltratando-o? Converso amistosamente com ele todo dia? Brinco com ele? Preencho aquelas necessidades lúdicas que toda criança tem? Valorizo as suas iniciativas e seus sucessos? Sou um forte apoio em suas derrotas? Enfim, ele confia em mim? Pois se ele confiar em você e, sobretudo, se ele o amar, as probabilidades de sua aproximação com a droga são menores, pois ele não necessita procurar fora de casa aquilo que ele tem lá.

 

PENSEMOS NISSO E FELIZ DIA DOS PAIS

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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