A escola

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Quando entrei, finalmente, na escola, chamou-me logo a atenção o vitral. Redondo, colorido, iluminado por um sol vespertino lento e vibrante, tinha todas as cores, texturas, diversas distintas formas se encaixando e, no canto direito inferior, duas mão juntas, não entrelaçadas, mas como se guardassem alguma coisa com muito cuidado e amorosidade. Muitas mãos o fizeram, me contou a ex-aluna encantada, guiadas pelas mãos e olhos de uma linda duendinha, dessas que fazem muitas mágicas só pelo fato de existir.

Me encantei do vitral porque me pareceu a exata descrição da escola. Muitas cores e formas distintas construindo a forma perfeito de um círculo. Muitas pessoas vindas de muitos lugares e com muitos saberes diferentes, todos encaixados funcionando harmoniosamente. Não há sobreposições, as cores e formas organizam-se em sua comunhão, e apenas juntas seriam possíveis, porque fora daquele círculo, tornam-se cacos coloridos de vidro.

Cada um dos professores, e também dos estudantes, que chega até aquele lindo prédio no barrio Flores, em Buenos Aires, são um pedaço colorido de vida. Têm uma história própria, um caminho muito pessoal, algo que ensinar e muito que aprender. Mas nada disso faz muito sentido na individualidade, só juntos se é possível criar o processo de ensino-aprendizagem. “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. A educação é um processo que nunca termina. E sempre se dá em con-junto. Uma escola é um eterno fazer-se e desfazer-se para aqueles que amam a educação.

As mãos no vitral não constroem nada, não parecem mãos obreras, porém mãos que cuidam, que guardam uma preciosidade. São mãos que cuidam dos ofícios não enquanto meio de sobrevivência, um bico, um subemprego. Mãos que, enquanto linha direta de continuação do bater do coração, cuidam dos ofícios como coisas muito sagradas, ensinamentos de sabedorias ancestrais. Claro, todas foram se transmutando com o tempo, adquirindo outras técnicas, outras formas de fazer, mas o âmago de sua sabedoria continua guardado nas mãos. Com amorosidade, cuidado e guardado, para que seja transmitido, passado adiante.

É preciso descobrir o amor das coisas e fazê-las brotar, emergir. Os ofícios, então, se fazem menos com as mãos do que com o coração. São arte, pois. Extrair da madeira não um móvel utilitário, mas sua essência, o que está guardado dentro de si esperando quem a veja e faça dela brotar a beleza. Tornear o barro não com as mãos, porém ouvi-lo em seu silêncio contar que forma poderá adquirir e construir-se. Também assim a serigrafia, na construção, nos idiomas, em tudo há arte.

Uma coisa assim tão bela e sagrada, uma sabedoria tão ancestral e forte não pode, portanto, ser transmitida através dos métodos mais tradicionais e violentos de educação. Ao mudar o olhar com que se miram os ofícios, é preciso mudar também o olhar com que se vê a educação. (Ou talvez o processo seja o inverso, isso não é de todo importante discutir agora.) Importante é olhar. Olhar para os ofícios como espaços de guarda de sabedoria, e para o processo de ensino destes como espaços de amorosa transmissão do saber.

Saber não cabe em livros, ultrapassa-os. Não pode ser ensinado com ódio, apenas com amor. Assim, ao destruir uma estrutura – extremamente violenta, frise-se – em que o professor aparece como único detentor do conhecimento e os alunos como depositários deste, abre-se espaço para muitas outras coisas. Porque aqui, nessa escola, na calle Morón, 2538, não estão tratando de conhecimento, mas de sabedoria, reparem. Sabedoria não pertence a ninguém, está presente na vivência de cada um e cada uma, sabedoria se constrói vivendo. E se partilha numa roda de mate tanto quanto numa sala de aula. Se assim é, não cabem mais aqui os rótulos de aluno, ser sem luz, a ser iluminado pelo professor, o iluminado por excelência.

Destruída essa estrutura, o que se coloca em seu lugar? Como preencher espaços tão pré-definidos, seguidos cegamente há séculos? Autonomia. Um olhar diferente para os ofícios, que lhes traga para o campo da sabedoria do fazer humano, do construir uma vida com suas próprias mãos e a partir de seu próprio saber, cria-se um território de autonomia. Deixa de fazer sentido a palavra “aluno”, porque se reconhece que as pessoas têm sua própria luz e que podem fazer muito a partir disso. Ao criar espaços coletivos de ensino-aprendizagem, possibilita-se a experiência vital da ideia de coletivo: em conjunto, é mais fácil. E vão nascendo os coletivos: grupos de serigrafia, de permacultura, uma agrovila, um intercâmbio entre dois, dez países… Brotam do solo fértil as sementes amorosamente ali depositadas.

A escola tem um vitral que filtra a luz e mostra um círculo e conta uma história. A escola tem muitas janelas abertas para o tempo, para deixar entrar a luz, para não esquecer a rua lá fora, a vida que se desenrola nas ruas. A escola tem luz. E, principalmente, a escola tem pessoas, muitas pessoas, cada uma com sua própria sabedoria a ser partilhada, todas no mesmo patamar, olhando-se nos olhos. Ou seja, melhor dizendo, a escola são as pessoas.

Aqui cabe um PS: claro, tive a honra e a sorte nessa vida de conhecer muitos projetos e iniciativas no Brasil que olham para a educação desde este prisma da amorosidade. O que tanto me encantou no CFP 24, que não vi ainda em nenhuma outra escola que conheci, é esse outro olhar sobre os ofícios. No Brasil, e assim aprendi por toda a minha vida, os ofícios são encarados de uma forma muito pouco honrosa, como porta de entrada para subempregos. Conhecer o Centro de Formación Profesional nº 24 me fez mudar minha própria forma de olhar para eles, me fez ter mais respeito por toda forma de ofício.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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