A ex-ministra vai à luta.

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O discurso da ex-ministra Dilma Rousseff no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, vem dando o que falar.

 

Quem desejava uma campanha amena e amorfa, já pode perceber que o debate ensejará um divisor de águas esclarecedor entre moderados e exaltados, todos vindos da oposição ao regime militar.

 

Talvez tudo isso seja muito bom, pois do regime militar antes patrocinador do “maior partido do ocidente” só restou uma excedência de crítica e uma oportuna resistência, de todos, sem exceção. Só que alguns poucos foram beneficiados por premiação vultosa.

 

Mas o discurso da ex-guerrilheira Dilma encarando também isso, de tantos heróis e ralos bandidos, separa as águas e delimita os campos de luta: “Eu não fujo quando a situação fica difícil. Eu não tenho medo da luta”. Porque diante de tantos perseguidos, o pau-de-arara sofrido por poucos foi socializado espertamente por tantos, num crime inominável contra quem realmente apanhou e sofreu.

 

Este um grande delito escondido pela não abertura dos arquivos da repressão. Uma censura madrasta com a história, afinal tal abertura ensejaria a desmistificação de tantos Horácios para tão poucos Curiácios.

 

E a ex-ministra Dilma em desafio à oposição conclama-a a se definir em clareza: “Os da oposição precisam dizer quem são. Vocês sabem quem eu sou, e vão saber ainda mais. O que eu fiz, o que planejo fazer e, uma coisa muito importante, o que eu não faço de jeito nenhum”.

 

É como se estivesse a repetir sua profissão de fé, nutrida e sofrida no âmago da tortura moral e física, onde era mais fácil fugir da luta e ficar bem mais longe dos seus ideais.

 

E como essa não fuga incomoda! E como ficam aborrecidos os adeptos da “lei do murici, cada um cuidando apenas de si”, como velha lição de conservação da fraqueza humana!

 

Há, mas não foi bem assim! Dirão os que se sentem enredados no heroísmo mal justificado.

 

E a mulher Dilma mostra que ser homem não é uma questão de bolas ou de bagos: “Posso apanhar, sofrer, ser maltratada, mas estou sempre firme com minhas convicções. Em cada época da minha vida, fiz o que fiz por acreditar no que fazia. Só segui o que a minha alma e o meu coração mandavam. Nunca me submeti. Nunca abandonei o barco”.

 

E alguns pensam que só por questão de bolas e bagos se desvirtue a mulher lhe retirando a fibra e o caráter. Quando é a fibra e o caráter que rareiam naqueles que fogem da luta e abandonam o barco, diante da tormenta que os amedronta e o perigo que lhes dá medo.

 

Medo que é meu, que é seu, e que é de todos. E por ser de todos, tem que ser explicado e definido, até para ser perdoado e esquecido. Mas que não lhe escamoteiem como um falso heroísmo, jamais olvidado, igual ao Marquês de Lafayette, bancando herói revolucionário francês, retornando do exílio com a cabeça bem emplumada e bem firme no pescoço.

 

“Eu não sou de esmorecer, continua Dilma. Vocês não me verão entregando os pontos, desistindo, jogando a toalha. Vou lutar até o fim por aquilo em que acredito. Estarei velhinha, ao lado dos meus netos, mas lutando sempre pelos meus princípios. Por um País desenvolvido com oportunidades para todos, com renda e mobilidade social, soberano e democrático”.

 

Um discurso que talvez não seja de bom tom eleitoral ou eleitoreiro, afinal bem melhor é parecer manso exibindo balido e pele de cordeiro.

 

E assim a ex-ministra dá o seu tom: “Eu não traio o povo brasileiro. Tudo o que eu fiz em política sempre foi em defesa do povo brasileiro. Eu nunca traí os interesses e os direitos do povo. E nunca trairei. Vocês não me verão por aí pedindo que esqueçam o que afirmei ou escrevi. O povo brasileiro é a minha bússola. A eles dedico meu maior esforço. É por eles que qualquer sacrifício vale à pena”.

 

Poder-se-á já inferir que tal definição desconcerta. Ninguém poderá negar que há no discurso um claro interesse em dirimir posições. Poder-se-á, todavia, entendê-lo como uma fala demagógica e ultrapassada.

 

“O povo é uma besta quadrada!”, dirão, sobretudo, os que não conseguem ver a massa ignara entrar em ressonância com tais timbres e frequências.

E isso parece ser verdadeiro, afinal não vivemos no tempo romântico dos tribunos da plebe. Eles feneceram nas passeatas estudantis dos anos 60 do século que passou. Não há mais espaço no mundo para tais arroubos verborrágicos. A queda do muro de Berlim foi a derradeira pá de cal daqueles anos rebeldes. Restaram todos iguais nos mesmos defeitos e vícios.

 

E isso é lamentável! Sobretudo porque tal decadência de esperança e utopia aconteceu quando o juízo resolveu fertilizar os nossos sonhos.

 

O “proibido proibir” de 1968 restou inútil como esperança equivocada; uma recordação de velhos, de avôs e bisavôs, gente igual a mim que me perdi nos descaminhos do século que passou. E é esta geração que irá fazer sua catarse, talvez a última, nesta eleição.

 

Pelo menos é assim que se prenuncia a campanha da candidata Dilma Rousseff:

 

“Eu respeito os movimentos sociais. Esteja onde estiver, respeitarei sempre os movimentos sociais, o movimento sindical, as organizações independentes do povo. Farei isso porque entendo que os movimentos sociais são a base de uma sociedade verdadeiramente democrática. Defendo com unhas e dentes a democracia representativa e vejo nela uma das mais importantes conquistas da humanidade. Tendo passado tudo o que passei justamente pela falta de liberdade e por estar lutando pela liberdade, valorizo e defenderei a democracia. Defendo também que democracia é voto, é opinião. Mas democracia é também conquista de direitos e oportunidades. É participação, é distribuição de renda, é divisão de poder. A democracia que desrespeita os movimentos sociais fica comprometida e precisa mudar para não definhar. O que estamos fazendo no governo Lula e continuaremos fazendo é garantir que todos sejam ouvidos. Democrata que se preza não agride os movimentos sociais. Não trata grevistas como caso de polícia. Não bate em manifestantes que estejam lutando pacificamente pelos seus interesses legítimos”.

 

Será isso o que nos interessa escutar como plano de governo em perspectiva de futuro? Até quando ouviremos alarmes de ameaças de liberdade? Há no mundo perspectivas de estados totalitários, em que a liberdade e a livre iniciativa não sejam a regra? Não há na fala da candidata um alarmismo equivocado, um medo sem propósito?

 

Realmente, a democracia é voto, é opinião. Mas a democracia é difícil, sobretudo a divisão de poder. Que digam os nossos governos, todos eles, saídos da nova república, de Sarney a Lula, sem falar dos entreveros congressuais em escândalos inusais.

 

Mas, com tal excesso de definição e clareza, não já podemos prever um governo suscitador de crises, um prenúncio de vida curta, como todos que enveredaram por uma linha reformista de conteúdo radical e independente?

 

E os que desvirtuam qualquer eleição não poderão já estar prenunciando em tal discurso um governo vivendo às turras como refém do congresso?

 

“Eu não entrego o meu país. Tenham certeza de que nunca, jamais me verão tomando decisões ou assumindo posições que signifiquem a entrega das riquezas nacionais a quem quer que seja. Não vou destruir o estado, diminuindo seu papel a ponto de tornar-se omisso e inexistente. Não permitirei, se tiver forças para isto, que o patrimônio nacional, representado por suas riquezas naturais e suas empresas públicas, seja dilapidado e partido em pedaços. O estado deve estar a serviço do interesse nacional e da emancipação do povo brasileiro”.

 

Embora não seja adepto de tais arrotos terceiro-mundistas, gostei do discurso por não suscitar acomodações. O discurso revela um posicionamento ideológico nítido e claro. Poder-se-á dizê-lo que é uma arenga ultrapassada, afinal sua pregação insinua um estado lento, pesado e gastador. Uma receita para o fracasso em longo prazo. O Estado não gera riqueza, nem edifica paraísos, e é sempre o pior gestor.

 

Infelizmente o Estado só é assaltado por estatistas e patrimonialistas; os que estatizam tudo, e os que se empanturram em suas benesses, sem falar nas paralizações e greves a gerar ineficiência e má prestação de serviço. Mas, é bom que exista um discurso estatizante, equivocadamente desatualizado, sobretudo para suscitar o contraponto.

 

Neste particular falta-nos a ousadia de quem se exime de falar a verdade quanto à boa gestão dos parcos recursos públicos. Este o nosso grande pecado.

 

Um pecado que será a tônica de todas as falações, afinal ninguém o dirá diferente.

 

No mais a alocução da candidata sugere estar devidamente assestada a sua mira de fuzilaria: o impopular governo do sábio da Sorbonne, Fernando Henrique Cardoso, aquele que enganou a todos e mais alguns.

 

“Aquele país triste, da estagnação e do desemprego, ficou pra trás. O povo brasileiro não quer esse passado de volta.

Acabou o tempo dos exterminadores de emprego, dos exterminadores de futuro. O tempo agora é dos criadores de emprego, dos criadores de futuro.

Porque, hoje, o Brasil é um país que sabe o quer, sabe aonde quer chegar e conhece o caminho. É o caminho que Lula nos mostrou e por ele vamos prosseguir. Avançando. “Com a força do povo e a graça de Deus.”

 

Não sei se o país já sabe onde deseja chegar. Não retiro de Lula o mérito de um grande governo, mesmo porque arrotou menos e acomodou melhor.

 

“Com a força do povo e a graça de Deus” é um bom mote de campanha por oco e ilusório. Um dito comum de brasileiro, enquanto qualquer torcida de time de várzea. Tenho, porém, minhas dúvidas quanto ao povo se esquivando de descaminhos.

 

Espero estar enganado.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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