A ginecologista de Dona Flor

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“Dona Flor jamais pegara menino, mas sabia ser culpa sua e não do marido. A doutora Lourdes Burgos, sua médica, lhe explicara, e o doutor Jair havia confirmado e proposto ligeira operação capaz de torná-la fecunda, quem sabe? Medrosa, dona Flor furtou-se à cirurgia: ao demais, doutor Jair não lhe dera certeza absoluta de sucesso. Assim, nas trampolinagens do marido o que mais a preocupava era o receio dele arranjar um filho por aí, na rua, ao deus-dará.”

O trecho acima foi tirado do livro Dona Flor e seus dois maridos, um dos maiores sucessos editoriais do escritor Jorge Amado, levado às telas, em diferentes versões, em primorosa produção cinematográfica e transformado em minissérie pela Rede Globo.
O que pouca gente sabe é que a ginecologista citada pelo escritor baiano era uma sergipana que residia em Salvador há muitos anos, onde construiu, ao lado do marido Jair Francisco Burgos, também citado por Amado, uma vida repleta de realizações na medicina da boa-terra. Cheguei a conversar com ela por telefone tempos atrás, para obter dados dela para o nosso Dicionário de Médicos de Sergipe. Mostrou-se uma pessoa determinada, firme, de grande sensibilidade e de inteligência invulgar. Atenciosa, presenteou-me com os seus livros, que os guardo com carinho.
Maria de Lordes da Rocha Santos Burgos nasceu em 20 de fevereiro de 1925, em Riachuelo, formando-se pela vetusta Faculdade de Medicina da Bahia, primaz do Brasil, em 14 de dezembro de 1950. Graduar-se em medicina naqueles tempos, para uma mulher, não era tarefa fácil. Foi trabalhar na área de ginecologia e a partir de 1956 já era responsável pelos serviços da clínica ginecológica do Hospital das Clínicas da Universidade da Bahia, em substituição ao catedrático Prof. Alício Peltier de Queiroz. Em 1966, iniciou suas atividades como auxiliar de ensino e professora-assistente do Departamento de Cirurgia, na disciplina de ginecologia, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, passando à condição de professora adjunta em 1987.
Publicou os livros “37 anos com Jair Francisco Burgos, o escultor da pelva feminina”, “Era uma vez”, Cantigas de roda”, “Cartilha da Mulher” e “Natal”. Seu último livro foi “Minha amada Faculdade de Medicina, um divisor de águas em minha vida”. Contando histórias de sua vida na antiga escola médica brasileira, a Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, a primeira do Brasil.
Lourdes e Jair conheceram-se quando juntos estagiaram no serviço do professor Alício Peltier, um mestre de méritos incomparáveis notadamente na cirurgia da pelve feminina. Jair revelou-se um exímio cirurgião, considerado como um “escultor da pelve feminina”, pela precisão e perícia de seus atos, estéticos e mágicos, de arte e transmutação, na recuperação de trajetos e funções anormais. Juntos, Lourdes e Jair centraram as suas vidas no exercício da medicina social e humanitária, ele nas enfermarias e salas de cirurgia do Hospital Edgar Santos e do Hospital Português e ela nas salas de aula e nos ambulatórios.
Viveram juntos por 37 anos, dignificando a ginecologia baiana, usufruindo de uma excelente clientela e exercendo suas atividades com competência e dedicação. Isso explica a opção de Jorge Amado quando Dona Flor precisou recorrer aos cuidados médicos.
Jair faleceu em 8 de fevereiro de 1997, num sábado de carnaval, com a Bahia mergulhada nos seus tradicionais festejos. Maria de Lourdes também se foi, anos atrás, deixando bons exemplos na Boa-Terra. (LAPD-2018)

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