A hecatombe que deu chabu.

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Acordei, em 19 de dezembro deste 2012, imaginando que iria acontecer uma grande hecatombe. O Congresso Nacional, tomado de viril orgulho ferido, iria mostrar sua força, vigor e macheza, a partir do meio dia, hora de Brasília.

O horário de sol a pino pareceu-me uma escolha de briga de menino, talvez com a esperança de fazer o rei-astro parar como fizera Josué, em tempos outros, com Moisés no deserto delirando por overdose de maná.

Em terra onde não chove maná, mas se cultua o lobo guará, esperava-se que tudo não terminasse com o cheiro de gambá. Mas terminou assim, em chabu, estourando por traz, como peido de veia, aquele traque de meu tempo de guri que chamávamos cheirosinho.

O Congresso Nacional estava agitadíssimo de véspera. Era mais um chilique de histeria e infertilidade diante do Supremo Tribunal, que, numa heresia assim pensada, mas justificada por saneamento impositivo e sanativo moralizador, havia cassado três Deputados por absoluta culpabilidade, transitado em julgado, sem ousar pedir licença ou consideração.

E o Parlamento Nacional, por um esdrúxulo rito, quão estúpido conflito, queria que o Supremo se lhe curvasse em suserania, em nome de uma imoralidade imaginada como somente sua e exclusiva, dele Congresso, cenário de arroubos vazios, que seria impensável nos baixios das civilizações sérias, e mesmo na hombridade do homem comum, sem melhor arrimo que o próprio agir, com dignidade no proceder.

Mas o Congresso, por falta de uma melhor reflexão, ou autocrítica de ocasião, sentiu-se vilipendiado, atingido nas suas partes fracas, onde a dor é plena, e depaupera o vigor e até a força.

O golpe, repito, fora dado às claras, em nitidez e percuciência. Mas, se o choque fora sentido nas partes baixas, maior baixeza acontecia no plenário por ação tecida na própria coxia.

Era uma rebelião urdida nos bastidores do Parlamento Federal, por uma inspiração, tão sinistra e ectoplásmica, quão sepulcral e catacumbal, provinda de seus corredores, tão escondidos quão interiores. Derrubar-se-ia um veto do governo, como se estivesse peitando a Presidente Dilma em sua opinião sobre o uso dos recursos do petróleo, com dois entes federativos, Rio de Janeiro e Espírito Santo, batalhando contra os demais Estados brasileiros.

Em verdade, o veto não seria contra o governo, afinal a sua manutenção era exclusivo interesse dos dois Estados, e a Presidente acedera, por simpatia e pela serventia que o veto propicia, ou seja; uma vez vetado o tema, eis vigente o quisto por estratagema.

Não estavam assim enquistados cerca de 1360 vetos, esquecidos na prateleira da ocasião?

Acontece que este veto do petróleo tinha uma legião majoritária de congressistas bem disposta a derrubá-lo com urgência. E quando tais maiorias resolvem pensar, o urgente obnubila, enlouquece e até uma fantasmagoria pode inspirar demagogia.

Demagogices à parte, diz-se da boa ponderação e ordem, que o urgentíssimo não se impõe ao usual e rotineiro. Pelo menos são concebidos assim as leis e os regimentos, que não pode vagir nem vagar, ao sabor da biliar fluidez de acidentais e momentâneas maiorias.

Em pressa excessiva, esqueceram-se de ler os regulamentos congressuais, a legislação que gere a análise, o procedimento, a apreciação e a votação de um Veto de Governo, sobretudo da Presidência da República, cujo ritual não podia jamais flutuar ao sabor do burburinho e do desalinho, como fora um convescote ou quiçá, uma assembleia plenipotenciária de greve.

Ora, se há muitos que leem assaz pouco, sempre há outros como um Deputado Molon, que perquirem o importante. E se a urgência urgentíssima fora aprovada em coros de canto pátrios, um recurso foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal. Para que? Para botar ordem no Congresso Federal.

Eis de novo o Congresso sendo chamado à ordem. Por decisão monocrática do Ministro Luiz Fux, a urgência foi derrubada. Os Vetos, explicitou o Ministro, têm que ser apreciados em prioridade de antiguidade. Não se pode furar nem desfigurar a fila.

É aí que surge o pior, por estúpido e ridículo, e com ele a hecatombe anunciada. Por fantasmagoria ou excesso de bizarria, alguém mandou confeccionar um livro-cédula, com cerca de 450 páginas, contendo os 1360 Vetos pendentes há doze anos, para votação em bloco.

Votação que deveria ser realizada em “urnas-andor”, construídas de madeirite, com bisagra e cadeado, uma espécie de andor de procissão, ou cadeirinha do tempo da escravidão, onde seriam introduzidos os tais livros-cédulas, por exclusivo golpear viril. Tudo à frente da televisão por testemunho de luta infantil.

Infantilidades à parte, deixaram de ler também o que reza o Regimento quanto ao ritual de exame dos Vetos, inclusive as disposições constitucionais.

E com o Congresso falando pouco, envergonhado talvez do que diria, mandou sua Vice-Presidente dizer à patuleia que a hecatombe anunciada não mais ocorreria. Os vetos entrariam, por sequencia de antiguidade, na ordem dos dias que se seguiriam.

Ah, o Congresso brasileiro, toda vez que fala grosso toma uma cacetada. No tempo dos militares, a cada discurso tolo e inconsequente de revolta, provocava um retorno de reforço no arbítrio, agravando o regime. E tome ferro, por cima da gente, por um tempo muito além do que merecíamos!

Hoje é diferente, dirão. Vivemos no Estado de Direito!

E eu continuo a pensar do mesmo jeito, agora com o Supremo ferroando no âmbito federal, o nosso Governo Estadual insistindo no reexame do Proinveste, de novo, outra vez e novamente, porque a decisão legislativa sempre pode ser à brinca e nunca à vera, e até a Câmara de Vereadores, em fim de feira e de era, sendo garfada no seu poder de analisar o que é de sua função, o Código Diretor Municipal, missão de sua exclusividade.

Também, por que não tratar assim a ineficiência por preguiça de uma edilidade que passou quatro anos e pouco fez, temendo até cusparada de uma dita associação de amadores, por embusteiros citadinos, enquanto força viva de “Sociedade Organizada”?

Pois é! A hecatombe, como tudo em terra pátria, morreu de véspera. Antes mesmo que a previsão Maia do fim do mundo.

Mas, o discursal de besteiras continua em ameaças de fim do mundo, agora tentando criar um buraco profundo, com o orçamento de 2013 ameaçado em nome da prioridade dos Vetos, que está a exigir, um mínimo de quatro discursos de vinte minutos, por discursão, para cada um dos 136 vetos. Não é mais uma tolice a decretar a inutilidade de um Congresso que discorre muito e produz pouco?

E bote mais bobagem, porque a finalidade agora é peitar o Governo Federal sem culpa de nada.

Por acaso, do ocaso que apaga o siso e a luz, a inexistência de uma lei orçamentária própria não enseja aberturas de crédito, com melhor propriedade de relevância e emergência, bem como a edição de Medidas Provisórias?

O mundo não para, nem se acaba, digo eu. Nem por previsão Maia, nem dentro de nós, canibais e papa-gentes tupis-guaranis.

"Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente." Dizia Oswald, o Andrade inteligente.

“Tupy or not Tupy”, that is not the question, como não poderia dizer o mesmo Oswald, antropofágico, se resolvesse friccionar a ficção orçamentária.

O Brasil é muito inercial, massivo, pesadíssimo. Devidamente embalado e já correndo desembestado, ninguém o freia, nem mesmo um orçamento congelado!

Eita Brasil inzoneiro!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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